O limite de resistência à tração (Rm) é a tensão de engenharia correspondente à força máxima do ensaio de tração: Rm = Fm / S0, a força máxima dividida pela área inicial do corpo de prova. É o ponto mais alto da curva tensão-deformação e, nos metais dúcteis, marca o início da estricção, não a ruptura.
O resultado sai em MPa, que é o mesmo que N/mm². Um número de referência dá a ordem de grandeza: o aço estrutural ASTM A36 tem Rm especificado entre 400 e 550 MPa. Este artigo trata do Rm medido no ensaio de tração: começa pela definição e pela fórmula, mostra onde ele fica no diagrama tensão-deformação, separa o Rm do escoamento e da tensão de ruptura, traz os valores do aço e de outros materiais com a condição de cada um e termina em exercícios resolvidos e no equipamento de ensaio.
O que é o limite de resistência à tração (Rm)
A definição de referência está na ISO 6892-1, adotada no Brasil como ABNT NBR ISO 6892-1:2024. A norma chama de força máxima, Fm, a maior força que o corpo de prova suporta durante o ensaio, e define a resistência à tração, Rm, como a tensão correspondente a essa força. Toda tensão da norma é de engenharia: a força dividida pela área inicial da seção transversal, S0, medida antes do ensaio.
Na foto, um corpo de prova de aço logo depois da ruptura, ainda nas garras: as duas pontas afinadas mostram a estricção, que começa quando o limite de resistência é atingido.

O fato de a área ser a inicial explica boa parte das confusões sobre o tema. Durante o ensaio a seção real diminui, mas a conta continua dividindo pela área de antes. O Rm é, portanto, a força máxima normalizada pela geometria de partida, e não a tensão real que o material sofre naquele instante. Isso permite comparar corpos de prova de tamanhos diferentes, e por isso certificados e normas de produto usam o Rm.
Um erro comum é dizer que o Rm mede a resistência à deformação plástica. Isso descreve o limite de escoamento, que vem antes na curva: entre o escoamento e o Rm o material já se deforma plasticamente, mas ainda suporta força crescente.
Símbolos e nomes do limite de resistência
A mesma grandeza aparece com nomes e símbolos diferentes conforme a norma, o livro e o país, e reconhecê-los evita erro na leitura de certificados. A tabela reúne os mais comuns:
| Símbolo | Onde aparece | Nome usado |
|---|---|---|
| Rm | ISO 6892-1 e ABNT NBR ISO 6892-1:2024 | resistência à tração |
| fst | ABNT NBR 7480:2024, vergalhões | resistência convencional à ruptura |
| fu | ABNT NBR 8800:2008, estruturas de aço | resistência à ruptura do aço |
| σu, σLRT | livros de resistência dos materiais | limite de resistência à tração |
| Su, UTS | literatura em inglês, projeto mecânico | ultimate tensile strength |
| LR, σr | normas brasileiras antigas, anteriores à ISO 6892-1 | limite de resistência |
A tradição brasileira de chamar o Rm de "limite de ruptura" ou "resistência à ruptura" vem desses nomes antigos e continua na NBR 7480. No uso escolar, "limite de ruptura" costuma ser sinônimo de Rm. Tecnicamente, porém, a tensão no instante da ruptura é outra grandeza, como mostra a seção sobre a tensão de ruptura.
Não confundir com o limite de resistência à fadiga
O limite de resistência à fadiga é outro conceito: a amplitude de tensão abaixo da qual o material suporta um número muito grande de ciclos de carga sem romper. Vem de um ensaio com carga repetida, fica bem abaixo do Rm e é tratado no artigo sobre o ensaio de fadiga. Aqui, "limite de resistência" significa sempre o Rm.
Fórmula do limite de resistência à tração e unidades
O cálculo exige só dois números: a força máxima registrada pela célula de carga e a área inicial da seção útil do corpo de prova, medida antes do ensaio. As fórmulas são estas:
- Limite de resistência: Rm = Fm / S0, com Fm em newtons e S0 em mm², resultado em N/mm² = MPa.
- Área do corpo de prova cilíndrico: S0 = π·d0² / 4, com d0 o diâmetro inicial.
- Área do corpo de prova retangular (chapa): S0 = a0·b0, espessura vezes largura iniciais.
Nas conversões, 1 MPa = 1 N/mm² e 1 ksi = 6,895 MPa. A NBR 7480 admite a aproximação 1 MPa ≈ 0,1 kgf/mm², que aparece em catálogos antigos de vergalhão. Não se deve trocar força por tensão: Fm é uma força, em kN, e depende do tamanho do corpo de prova; Rm é uma tensão, em MPa, propriedade do material na condição ensaiada. O exercício 1 aplica a fórmula a um ensaio.
Onde fica o Rm no gráfico tensão-deformação
No diagrama tensão-deformação de engenharia de um metal dúctil, o Rm é o ponto mais alto da curva, o ponto C da figura do artigo sobre o diagrama. O que acontece antes e depois desse ponto explica por que ele é um máximo e não o fim do ensaio.
Entre o escoamento e o Rm, o material se deforma plasticamente de forma uniforme ao longo de todo o comprimento útil. A seção diminui, mas o encruamento, o endurecimento causado pela própria deformação plástica, aumenta a resistência mais depressa do que a área cai, e a força continua subindo. No Rm os dois efeitos se equilibram. A deformação nesse ponto é o alongamento na força máxima, que a ISO 6892-1 chama de Agt (total) ou Ag (só a parcela plástica).
Depois do Rm, a perda de área passa a dominar. A deformação se concentra numa região curta, que afina formando um pescoço: é a estricção. A força necessária para continuar alongando cai até a ruptura, e a tensão de engenharia cai junto, porque continua dividida por S0. A queda é um efeito da conta: se a força for dividida pela área real do pescoço, a tensão verdadeira continua subindo até a fratura, como explica a comparação entre curva de engenharia e curva verdadeira no diagrama tensão-deformação.
Material dúctil e material frágil
A posição do Rm em relação à ruptura depende do comportamento do material. No metal dúctil, como o aço de baixo carbono, o alumínio e o cobre, o máximo vem antes da ruptura, e a fratura acontece com força menor, depois da estricção. No material frágil, como o ferro fundido cinzento, o vidro, as cerâmicas e o concreto, não há escoamento nem estricção: a curva sobe até romper, e o Rm coincide praticamente com a tensão de ruptura. Sem deformação plástica, o frágil rompe sem aviso; a ductilidade e a tenacidade quantificam essa diferença.
Os gráficos abaixo mostram os dois casos. À esquerda, o aço 1020 trefilado dos exercícios 1 e 3: o Rm de 426,5 MPa no topo da curva de engenharia, a ruptura em 343,8 MPa, abaixo dele, e a tensão verdadeira no instante da fratura, cerca de 628 MPa, acima dele. À direita, o ferro fundido cinzento rompe no próprio pico, em cerca de 179 MPa. As escalas de deformação são diferentes: o ferro fundido rompe com menos de 0,5 %.

Aço com patamar de escoamento: o pico inicial não é o Rm
Aços de baixo carbono laminados a quente mostram, no início do escoamento, um pico seguido de queda de força, o limite superior de escoamento ReH. Em alguns casos esse pico fica acima do máximo alcançado depois pelo encruamento. A ISO 6892-1 resolve a ambiguidade: nesses materiais, Fm é a maior força depois do início do encruamento, e o pico do escoamento não conta como força máxima. O software de ensaio precisa estar configurado para isso, senão reporta o ReH no lugar do Rm.
Polímeros: três tensões diferentes
Em muitos termoplásticos a curva tem um pico de escoamento, cai, forma um pescoço estável que se propaga e só depois rompe. A tensão no escoamento pode ser maior que a tensão na ruptura, e "resistência à tração" fica ambígua. Por isso a ISO 527-1:2019 e a ASTM D638-22 separam a tensão no escoamento, a tensão máxima e a tensão na ruptura, e o relatório precisa dizer qual das três foi reportada. Nos polímeros, o valor também depende muito da velocidade de ensaio e da temperatura.
Rm, limite de escoamento e tensão de ruptura
Três grandezas lidas na mesma curva costumam ser confundidas. A primeira é o limite de escoamento, a tensão em que a deformação plástica começa de forma mensurável: ReH e ReL nos aços com patamar e, nos demais, o limite convencional Rp0,2, a tensão que deixa 0,2 % de deformação permanente. Ele fica sempre abaixo do Rm e é a base do dimensionamento de peças dúcteis, que trabalham sem deformação permanente. As definições, o método do offset e a tabela de escoamento do aço estão no artigo sobre o limite elástico e o limite de escoamento.
A segunda é o próprio Rm, a tensão de engenharia na força máxima. A terceira é a tensão de ruptura, a tensão no instante da fratura, que tem duas versões. A tensão de ruptura de engenharia, σf = Ff / S0, divide a força na fratura pela área inicial; num material dúctil ela é menor que o Rm, porque a força caiu durante a estricção. A tensão verdadeira de ruptura, σv,f = Ff / Su, divide a mesma força pela menor área do pescoço depois da ruptura, Su; ela é maior que o Rm, porque essa área é muito menor que a inicial. A mesma Su dá a redução de área, Z = (S0 − Su) / S0 × 100. O exercício 3 calcula as duas tensões e o Z de um mesmo corpo de prova.
A tabela resume a comparação:
| Grandeza | Definição | Símbolos | Em relação ao Rm |
|---|---|---|---|
| Limite de escoamento | início da deformação plástica mensurável | ReH, ReL, Rp0,2, fy | sempre menor |
| Limite de resistência | Fm / S0, na força máxima | Rm, fst, fu, σu | referência |
| Tensão de ruptura de engenharia | Ff / S0, na fratura | σf | menor no dúctil, igual no frágil |
| Tensão verdadeira de ruptura | Ff / Su, com a área final | σv,f | maior no dúctil |
Razão entre escoamento e Rm e uso no projeto
A razão Re/Rm mede quanta reserva de encruamento o material tem depois de escoar, e a ABNT NBR 7480:2024 a controla no vergalhão CA-50 ao exigir fst/fy ≥ 1,10. O assunto, com a tensão admissível e o coeficiente de segurança, é tratado no artigo sobre o limite de escoamento. O Rm entra no projeto de forma direta em dois casos. Em materiais frágeis, que não escoam, ele passa a ser a base da tensão admissível. E em estruturas de aço, a ABNT NBR 8800:2008 usa o fu no estado-limite de ruptura da seção líquida efetiva, aquela reduzida pelos furos de parafuso, com coeficiente de ponderação γa2 = 1,35.
Limite de resistência à tração do aço: tabela por material e condição
O Rm de um aço não é um número fixo da liga. Ele muda com a condição de fornecimento, o tratamento térmico, a bitola e a corrida, e por isso cada linha de uma tabela útil precisa dizer a condição do material e o tipo de valor:
- Valor típico: média publicada em fichas técnicas. Serve de ordem de grandeza e varia com a corrida e a bitola.
- Mínimo normativo: o que a norma de produto garante, usado em projeto e na aceitação de material.
- Faixa especificada: algumas normas, como a ASTM A36, fixam um mínimo e um máximo de Rm.
- Valor característico: estimativa estatística de um lote, usada no vergalhão (fyk).
A primeira tabela reúne os aços-carbono e os estruturais, com o escoamento ao lado para mostrar a distância entre os dois. Os valores são os mesmos da tabela do artigo sobre o limite de escoamento:
| Material e condição | Escoamento (MPa) | Rm (MPa) | Tipo de valor e fonte |
|---|---|---|---|
| AISI 1020 laminado a quente (barra de 19 a 32 mm) | 205 | 380 | típico (tabela ASM) |
| AISI 1020 trefilado | 350 | 420 | típico (tabela ASM) |
| AISI 1045 laminado a quente (19 a 32 mm) | 310 | 565 | típico (eFunda) |
| AISI 1045 trefilado (19 a 32 mm) | 530 | 625 | típico (eFunda) |
| AISI 1045 recozido | 241 | 448 | típico (MetalData, ASTM A519) |
| ASTM A36, chapa, perfil e barra até 200 mm | ≥ 250 | 400 a 550 | faixa normativa (ASTM A36) |
| ASTM A572 Gr 50, perfis e chapas até 100 mm | ≥ 345 | ≥ 450 | mínimo normativo (ASTM A572) |
| CA-50, barra nervurada laminada a quente | fyk ≥ 500 | fst ≥ 1,10·fy | característico e mínimo (ABNT NBR 7480:2024) |
A segunda tabela traz o aço-liga 4140, o inoxidável 304 e, como comparação, o alumínio 6061-T6:
| Material e condição | Escoamento (MPa) | Rm (MPa) | Tipo de valor e fonte |
|---|---|---|---|
| AISI 4140 recozido | ≈ 415 | ≈ 655 | típico (Steelstandart) |
| AISI 4140 normalizado | ≈ 655 | ≈ 1.020 | típico (Steelstandart) |
| AISI 4140 temperado e revenido a 650 °C | ≈ 655 | ≈ 862 | típico (AlloyFYI) |
| AISI 4140 temperado e revenido a 540 °C | ≈ 895 a 965 | ≈ 1.035 a 1.070 | típico (fontes divergem) |
| AISI 4140 temperado e revenido a 425 °C | ≈ 1.100 a 1.170 | ≈ 1.240 a 1.310 | típico (Steelstandart, AlloyFYI) |
| AISI 4140 temperado e revenido a 205 °C | ≈ 1.590 a 1.640 | ≈ 1.770 a 1.790 | típico (Steelstandart, AlloyFYI) |
| Inox 304 recozido (chapa e barra) | Rp0,2 ≥ 205 | ≥ 515 | mínimo normativo (ASTM A240) |
| Inox 304, barra acabada a frio até 12,7 mm | ≥ 310 | ≥ 620 | mínimo (ASTM A276, condição B) |
| Alumínio 6061-T6 / T651 | 276 | 310 | típico (ASM/MatWeb) |
Aço 1020: laminado ou trefilado
O 1020 é o caso mais buscado e mostra bem o peso da condição. Laminado a quente, tem Rm típico de cerca de 380 MPa; trefilado a frio, o encruamento da trefilação eleva o Rm para cerca de 420 MPa e o escoamento para cerca de 350 MPa, e o alongamento cai para cerca de 15 %. A diferença entre os dois escoamentos é muito maior que a diferença entre os dois Rm: o trabalho a frio consome parte da reserva de encruamento, e a razão entre escoamento e Rm sobe de cerca de 0,54 para 0,83. Fontes diferentes publicam valores um pouco diferentes para o trefilado, conforme a bitola; para aceitação de material, vale o certificado da usina ou o ensaio do lote.
Vergalhão CA-50: fst ≥ 1,10·fy
O vergalhão não tem um Rm mínimo fixo: a ABNT NBR 7480:2024 exige resistência característica de escoamento fyk ≥ 500 MPa e resistência à tração de pelo menos 1,10 vez o escoamento medido, fst ≥ 1,10·fy. Combinados, os dois requisitos dão um Rm de pelo menos 1,10 × 500 = 550 MPa para uma barra que escoe no limite. Uma barra que escoe mais alto precisa de Rm proporcionalmente maior: com fy = 560 MPa, o mínimo passa a 616 MPa. Muitos textos ainda repetem 1,08 para essa relação, valor da edição de 2007, cancelada.
Qual o aço mais resistente à tração
Entre os aços de uso comum, os mais resistentes são os aços-liga temperados e revenidos a baixa temperatura: o 4140 revenido a 205 °C chega a cerca de 1.770 a 1.790 MPa. O mesmo aço recozido fica perto de 655 MPa, o que mostra que o tratamento térmico pesa mais que a composição. No levantamento de Pavlina e Van Tyne (2008), com 159 pontos de aços diversos, o Rm foi de 450 a 2.350 MPa. O valor alto tem um custo: a têmpera seguida de revenimento a baixa temperatura aumenta a resistência e reduz a tenacidade.
O que altera o Rm
O Rm sobe com tudo o que dificulta a deformação plástica e cai com o que a facilita. Os fatores principais são estes:
- Composição: nos aços-carbono, mais carbono dá Rm maior; o 1045 laminado tem cerca de 565 MPa contra 380 MPa do 1020 na mesma condição.
- Tratamento térmico: têmpera e revenimento elevam o Rm, e o recozimento o reduz. O panorama está em tratamento térmico dos metais.
- Trabalho a frio: laminação a frio e trefilação encruam o material, como no 1020 trefilado.
- Condições de ensaio: o Rm dos metais cai com a temperatura (os valores deste artigo são à temperatura ambiente); chapas e compósitos variam com a direção do ensaio; acabamento e velocidade influem pouco nos metais e muito nos polímeros.
Limite de resistência à tração de outros materiais
Fora dos aços, o Rm varia de alguns megapascals, no concreto, a centenas, nas ligas de alumínio e de titânio. Como nos aços, cada valor só tem sentido com a condição do material. A tabela reúne valores de referência:
| Material | Condição | Rm (MPa) | Fonte |
|---|---|---|---|
| Alumínio 1100 | recozido (O) | ≈ 90 | ASM |
| Alumínio 6061 | T6, envelhecido | ≈ 310 | ASM/MatWeb |
| Alumínio 2014 | T6, envelhecido | ≈ 469 | Strength of Materials, ap. C |
| Cobre | recozido | ≈ 200 | Callister |
| Latão 70Cu-30Zn | recozido | ≈ 300 | Callister |
| Titânio | recozido | ≈ 520 | Callister |
| Ferro fundido cinzento | ASTM classe 20, bruto | ≈ 179 (compressão ≈ 669) | Strength of Materials, ap. C |
| PEAD | temperatura ambiente | 22,1 a 31,0 | Callister, Tab. 15.1 |
| Polipropileno (PP) | temperatura ambiente | 31,0 a 41,4 | Callister, Tab. 15.1 |
| PVC | rígido | 40,7 a 51,7 | Callister, Tab. 15.1 |
| Náilon 6,6 | temperatura ambiente | 75,9 a 94,5 | Callister, Tab. 15.1 |
| Concreto C30 | tração direta média, fct,m | ≈ 2,9 | ABNT NBR 6118:2023 |
O alumínio mostra por que "o alumínio tem 90 MPa" é uma meia verdade: esse valor vale para o alumínio quase puro recozido. A liga 6061 envelhecida chega a cerca de 310 MPa e a 2014-T6 a cerca de 469 MPa, cinco vezes mais. No cobre e no latão, o encruamento e a composição da liga produzem variações da mesma ordem.
O ferro fundido cinzento é frágil em tração e resiste cerca de 3,7 vezes mais em compressão, porque em compressão as lamelas de grafita, que funcionam como pequenas trincas, tendem a se fechar em vez de se abrir. Por isso ele é usado em bases e corpos que trabalham comprimidos, e por isso o ensaio de compressão é tão importante quanto o de tração para esse material.
O concreto tem resistência à tração de cerca de um décimo da resistência à compressão. A ABNT NBR 6118:2023 estima a média por fct,m = 0,3·fck2/3 para concretos até C50; para o C30, 0,3 × 302/3 = 2,9 MPa. A tração direta raramente é ensaiada: na prática se mede a tração por compressão diametral (ABNT NBR 7222:2011) ou na flexão (ABNT NBR 12142:2010), e a norma de projeto converte os resultados. O artigo sobre o módulo de elasticidade do concreto trata das demais propriedades usadas no projeto.
As cerâmicas técnicas, como a alumina, também raramente são ensaiadas em tração, porque a garra tende a quebrar a peça: mede-se a resistência no ensaio de flexão, com grande dispersão, já que o resultado depende do maior defeito de cada corpo de prova. Nos compósitos de fibra, o Rm é alto na direção das fibras e dominado pela matriz a 90° delas, então nenhum valor serve sem a orientação.
O gráfico abaixo põe os materiais das tabelas numa escala logarítmica única, com a cor indicando o tipo de valor: laranja para típico, azul-marinho para mínimo de norma e azul para o valor médio calculado do concreto. A escala logarítmica é necessária porque o intervalo vai de cerca de 3 MPa a quase 1.800 MPa.

Carga de ruptura: da tensão para a força
A pergunta "qual a carga de ruptura do aço?" mistura duas grandezas. O Rm é uma tensão e não depende do tamanho da peça; a carga de ruptura é uma força e depende da área resistente: F = Rm·S. Uma barra CA-50 de 12,5 mm, com Rm mínimo de 550 MPa, rompe com pelo menos cerca de 67,5 kN, conta feita no exercício 2. A mesma conta, Rm × S0, dimensiona a máquina de ensaio: a capacidade precisa cobrir a força máxima esperada com folga, numa faixa em que a célula de carga mantenha a classe de exatidão. Um corpo de prova de aço de 10 mm de diâmetro rompe na casa de 30 a 45 kN; um fio ou um filme polimérico, com dezenas ou centenas de newtons.
Como medir o Rm no ensaio de tração
O Rm se mede no ensaio de tração de metais pela ABNT NBR ISO 6892-1:2024 (ISO 6892-1:2019) ou pela ASTM E8/E8M-25; produtos de aço seguem também a ASTM A370-26, e plásticos, a ISO 527-1 ou a ASTM D638. O procedimento que interessa ao Rm tem quatro passos:
- Medir a seção inicial: diâmetro ou largura e espessura do trecho útil, com micrômetro ou paquímetro, antes do ensaio. Um erro de 1 % no diâmetro vira cerca de 2 % no Rm.
- Montar e ensaiar: fixar o corpo de prova nas garras, alinhado, e tracioná-lo até a ruptura na velocidade da norma. A ISO 6892-1 tem dois métodos de controle, o A, por taxa de deformação, e o B, por taxa de tensão.
- Registrar a força máxima: a célula de carga mede a força durante todo o ensaio, e o software identifica Fm, descartando o pico de escoamento nos aços com patamar.
- Calcular: Rm = Fm / S0, reportado com a norma, a condição do material e a velocidade usada.
O que decide a exatidão do Rm é a medição da força e da área. A célula de carga e o sistema de medição de força precisam estar verificados pela ABNT NBR ISO 7500-1:2023 ou pela ASTM E4, e a série ISO 6892 pede classe 1. O extensômetro, por outro lado, não é necessário para o Rm, que depende só da força. Ele é indispensável para o módulo de elasticidade, o Rp0,2 e o alongamento na força máxima, e pode ser retirado depois do Rm, antes da estricção, para não ser danificado na ruptura.
Estimar o Rm pela dureza
Em aços, a dureza e o Rm crescem juntos, e há correlações empíricas que permitem estimar um pelo outro sem destruir a peça. As duas mais usadas são estas:
- Callister e Rethwisch: Rm (MPa) ≈ 3,45 × HB, regra prática para a maioria dos aços, a partir de dados do ASM Metals Handbook.
- Pavlina e Van Tyne (2008): Rm = −99,8 + 3,734 × HV, ajustada em 159 pontos de aços não austeníticos com dureza de 129 a 592 HV e Rm de 450 a 2.350 MPa, com R² de 0,935 e erro-padrão de 112 MPa.
As duas têm limites claros. Valem para aço e não para latão ou ferro fundido, que seguem outras retas. Fora da faixa de dureza usada no ajuste, a relação deixa de ser linear. E o erro-padrão de cerca de 110 MPa mostra que a estimativa serve para triagem e controle de tratamento térmico, não para laudo de aceitação, que exige ensaio de tração. Conversões entre escalas de dureza seguem tabelas específicas por liga, como as da ASTM E140. A medição da dureza está no artigo sobre o ensaio de dureza.
Exercícios resolvidos
Os cinco exercícios seguem a ordem do artigo: cálculo do Rm num ensaio, carga de ruptura de um vergalhão, tensão de ruptura de engenharia e verdadeira, estimativa pela dureza e verificação da relação do CA-50.
Exercício 1: Rm de um corpo de prova de aço
Corpo de prova cilíndrico de aço 1020 trefilado, d0 = 10,00 mm, ensaiado numa máquina universal de 50 kN. O software registra força máxima de 33,5 kN.
- Área: S0 = π × 10,00² / 4 = 78,54 mm².
- Rm = 33.500 / 78,54 = 426,5 MPa.
O resultado fica perto do típico de 420 MPa da tabela para o 1020 trefilado. O extensômetro não foi necessário para esse cálculo.
Exercício 2: carga de ruptura mínima de um vergalhão CA-50
Barra CA-50 de φ = 12,5 mm que escoa no limite, fy = 500 MPa.
- Rm mínimo: fst = 1,10 × 500 = 550 MPa.
- Área nominal: π × 12,5² / 4 = 122,7 mm².
- Força máxima mínima: 550 × 122,7 = 67.490 N, cerca de 67,5 kN.
- Barra de φ = 10 mm: 550 × 78,54 = 43.197 N, cerca de 43,2 kN.
O resultado é uma força. Para ensaiar vergalhões com folga, a máquina precisa estar na faixa de 100 a 200 kN.
Exercício 3: tensão de ruptura de engenharia e verdadeira
Mesmo corpo de prova do exercício 1. A força na fratura foi Ff = 27,0 kN, e o menor diâmetro do pescoço, medido depois da ruptura, du = 7,4 mm.
- Tensão de ruptura de engenharia: σf = 27.000 / 78,54 = 343,8 MPa, menor que o Rm de 426,5 MPa.
- Área final: Su = π × 7,4² / 4 = 43,01 mm².
- Tensão verdadeira de ruptura: σv,f = 27.000 / 43,01 = 627,8 MPa, maior que o Rm.
- Redução de área: Z = (78,54 − 43,01) / 78,54 × 100 = 45 %.
A tensão de engenharia na ruptura é menor que o Rm porque a força caiu durante a estricção; a verdadeira é maior porque a área real do pescoço ficou 45 % menor que a inicial.
Exercício 4: estimar o Rm pela dureza
Um eixo de aço 1045 laminado mede 170 HB.
- Pela regra de Callister: Rm ≈ 3,45 × 170 = 587 MPa.
- Se a medição fosse de 180 HV, por Pavlina e Van Tyne: Rm = −99,8 + 3,734 × 180 = 572 MPa, com erro-padrão de 112 MPa.
As duas estimativas ficam perto do típico de 565 MPa do 1045 laminado. São estimativas: não substituem o ensaio de tração num laudo de aceitação.
Exercício 5: relação fst/fy de um CA-50
Ensaio de uma barra CA-50 com fy = 540 MPa e fst = 610 MPa.
- fst/fy = 610 / 540 = 1,13, acima do mínimo de 1,10.
- Rm mínimo para essa barra: 1,10 × 540 = 594 MPa, e o medido foi 610 MPa.
A barra atende ao requisito de resistência. A aceitação completa pela NBR 7480 inclui ainda o alongamento e o dobramento.
Normas do limite de resistência à tração
As definições e o método vêm das normas de ensaio; os valores mínimos vêm das normas de produto. A tabela reúne as citadas neste artigo:
| Norma | O que trata | Edição |
|---|---|---|
| ABNT NBR ISO 6892-1 | tração de metais em temperatura ambiente: Fm, Rm, Agt, Z | 2024 |
| ISO 6892-1 | tração de metais em temperatura ambiente | 2019 |
| ASTM E8/E8M | tração de metais | E8/E8M-25 |
| ASTM A370 | ensaios mecânicos de produtos de aço | A370-26 |
| ABNT NBR ISO 7500-1 | verificação do sistema de medição de força da máquina | 2023 |
| ASTM E4 | verificação de força de máquinas de ensaio | não indicada |
| ASTM E140 | tabelas de conversão de dureza de metais | não indicada |
| ASTM D638 | tração de plásticos | D638-22 |
| ISO 527-1 | tração de plásticos, princípios gerais | 2019 |
| ABNT NBR 7480 | aço para armaduras de concreto armado (CA-50: fst ≥ 1,10·fy) | 2024 |
| ABNT NBR 8800 | projeto de estruturas de aço (fu na ruptura da seção líquida) | 2008 |
| ABNT NBR 6118 | projeto de estruturas de concreto (fct,m) | 2023 |
| ASTM A36/A36M | aço-carbono estrutural | não indicada |
| ASTM A240/A240M | chapas de aço inoxidável | não indicada |
Máquina para medir o limite de resistência à tração
Para medir o Rm, a máquina universal precisa tracionar o corpo de prova até a ruptura com velocidade controlada, ter capacidade para a força máxima esperada e medir essa força com uma célula de carga classe 1. A máquina universal Biopdi da linha M2 é eletromecânica e tem modelos de coluna simples, de 200 N a 10 kN, e de coluna dupla, de 5 kN a 1.000 kN, com células de carga classe 1 e o software BioLab, que identifica a força máxima, calcula o Rm com a área informada e monta o relatório. O painel abaixo mostra a máquina, o papel de cada parte na medição do Rm e as garras usadas.
A máquina universal no ensaio de tração
A linha M2 tem modelos de coluna simples, de 200 N a 10 kN, e de coluna dupla, de 5 kN a 1.000 kN. Cada parte da máquina tem uma função na medição do limite de resistência à tração:

- Travessa móvel traciona o corpo de prova até a ruptura, na velocidade da norma
- Célula de carga mede a força, classe 1: é dela que sai o Fm
- Garras de cunha, pneumáticas, para roscados ou fios
- Extensômetro opcional para o Rm, necessário para E, Rp0,2 e Agt
- Software BioLab identifica o Fm, divide por S0 e monta o relatório
- Painel e emergência posiciona e para o ensaio
Dispositivos para o ensaio de tração
Os dispositivos abaixo são montados na mesma máquina, conforme o corpo de prova e a norma:
Garra cunha5, 20 e 200 kN
Garra cunha pneumática50 e 200 kN
Garra para roscadosparafusos e corpos de prova roscadosA escolha da capacidade segue a conta da carga de ruptura. Para filmes, fios e fitas, a faixa de 200 N a 1 kN; para polímeros e elastômeros, a máquina de 2 a 10 kN; para corpos de prova de aço usinados, como o do exercício 1, e para chapas, a máquina de 5 a 50 kN (MBIOII-50-M2); para vergalhões como o do exercício 2, a máquina de 100 a 200 kN (MBIOII-200-M2). O software BioLab roda em Windows, conecta por USB ou serial e não precisa de internet. As demais capacidades estão na página da máquina universal de ensaios.
Outros ensaios e referências técnicas
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Dureza dos materiais: o que é, escalas e tabela de conversão HRC, HB e HV
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Em resistência dos materiais, o limite de proporcionalidade é a maior tensão em que tensão e deformação ainda são proporcionais: o fim do trecho reto da curva e da lei de Hooke. Veja a definição da ASTM E6, a diferença para o limite elástico e o Rp0,2, como medir com extensômetro e exercícios resolvidos.
Perguntas frequentes
O que é o limite de resistência à tração?
É a tensão de engenharia correspondente à força máxima do ensaio de tração: Rm = Fm/S0 (ISO 6892-1). Fica no topo da curva tensão-deformação e, nos metais dúcteis, marca o início da estricção, não a ruptura.
Qual o símbolo do limite de resistência à tração?
Rm nas normas ISO e ABNT. Nos livros aparecem σu ou σLRT, e em inglês UTS ou Su. Na ABNT NBR 7480 (vergalhões) o símbolo é fst, e na ABNT NBR 8800 (estruturas de aço), fu.
Como calcular a resistência à tração?
Divida a força máxima, em newtons, pela área inicial do corpo de prova, em mm². O resultado sai em MPa. Exemplo: 33,5 kN num corpo de prova de 10 mm de diâmetro (78,54 mm²) dão 426,5 MPa.
Qual o limite de resistência à tração do aço 1020?
Cerca de 380 MPa laminado a quente e cerca de 420 MPa trefilado a frio, como valores típicos. O valor depende da condição de fornecimento e da bitola, então confira o certificado da usina.
Qual a resistência à tração do aço?
Depende do tipo e da condição: o ASTM A36 tem de 400 a 550 MPa, o inox 304 recozido tem no mínimo 515 MPa (ASTM A240) e o 4140 temperado e revenido passa de 1.000 MPa, chegando a cerca de 1.790 MPa revenido a 205 °C.
Qual a resistência à tração do aço CA-50?
A ABNT NBR 7480:2024 exige fyk de pelo menos 500 MPa e fst de pelo menos 1,10 fy. Para uma barra que escoe em 500 MPa, isso dá um mínimo de 550 MPa. A edição de 2007 exigia 1,08.
Qual a carga de ruptura do aço?
É uma força, não uma tensão: Rm multiplicado pela área. Uma barra CA-50 de 12,5 mm rompe com pelo menos cerca de 67,5 kN, e uma de 10 mm com cerca de 43,2 kN.
Tensão de ruptura é o mesmo que limite de resistência?
Não em material dúctil. A tensão de ruptura de engenharia, força na fratura dividida pela área inicial, é menor que o Rm por causa da estricção, e a verdadeira, dividida pela área final, é maior. Em material frágil as duas praticamente coincidem com o Rm.
Qual a diferença entre limite de escoamento e limite de resistência?
O escoamento marca o início da deformação plástica mensurável; o limite de resistência é a tensão na força máxima, depois do encruamento. O escoamento é sempre menor e é a base do projeto de peças dúcteis.
Qual o aço mais resistente à tração?
Entre os de uso comum, os aços-liga temperados e revenidos a baixa temperatura, como o 4140 revenido a 205 °C, com cerca de 1.770 a 1.790 MPa. Pavlina e Van Tyne (2008) registraram aços de até 2.350 MPa.
Dá para saber o Rm pela dureza?
Dá para estimar em aço: Rm ≈ 3,45 × HB (Callister) ou Rm = −99,8 + 3,734 × HV (Pavlina e Van Tyne, 2008), com erro de cerca de 110 MPa. Para laudo, faz-se o ensaio de tração.
Precisa de extensômetro para medir o Rm?
Não. O Rm depende só da força máxima e da área inicial, então bastam a célula de carga verificada e a medição correta da seção. O extensômetro é indispensável para o módulo de elasticidade, o Rp0,2 e o alongamento na força máxima.