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Módulo de Elasticidade do Aço

O módulo de elasticidade do aço vale cerca de 200 GPa e quase não muda com tratamento térmico ou teor de carbono. Veja o que de fato altera a rigidez do aço.

Propriedades Mecânicas
1 de julho de 2023
Atualizado em 4 de agosto de 2026
13 min de leitura

Índice

  1. Introdução
  2. O que é o módulo de elasticidade do aço?
  3. Comportamento elástico do aço
  4. Importância do módulo de elasticidade do aço
  5. O que muda e o que não muda o módulo de elasticidade do aço
  6. Obtendo o módulo de elasticidade do aço na máquina universal de ensaio
  7. Normas nacionais relacionadas ao módulo de elasticidade do aço
  8. Normas internacionais relacionadas ao módulo de elasticidade do aço
  9. Conclusão
  10. Perguntas frequentes

Introdução

O módulo de elasticidade do aço é a propriedade que determina o quanto uma peça deforma sob carga, antes de qualquer dano permanente. Ele não mede resistência: mede rigidez. Confundir as duas coisas é a origem de boa parte dos enganos de projeto e de laboratório envolvendo esse material.

Neste artigo você vai encontrar o valor adotado em norma, o motivo pelo qual ele permanece praticamente o mesmo em aços muito diferentes entre si, quais fatores de fato o alteram e como determiná-lo em ensaio.

O que é o módulo de elasticidade do aço?

O módulo de elasticidade do aço é uma medida da rigidez do material. Ele representa a capacidade do aço de se deformar temporariamente sob a ação de uma carga e retornar à sua forma original quando a carga é removida. Em termos simples, é uma medida da relação entre a tensão aplicada e a deformação elástica resultante no aço.

Para os aços estruturais esse valor é de aproximadamente 200 GPa, ou 200.000 MPa. A ABNT NBR 8800 adota exatamente 200 GPa no projeto de estruturas de aço; o Eurocode 3 adota 210 GPa. Aços inoxidáveis austeníticos ficam um pouco abaixo, na faixa de 193 a 200 GPa.

Note o que esses números têm de notável: são praticamente os mesmos para um aço SAE 1020 recozido e para um aço-liga temperado de altíssima resistência. Um pode escoar a 200 MPa e o outro a 1.500 MPa, e ainda assim os dois deformam quase igual dentro do regime elástico. Entender por que isso acontece é entender o que o módulo de elasticidade realmente mede.

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Comportamento elástico do aço

Para entender o módulo de elasticidade do aço, é importante compreender o comportamento elástico desse material. Quando uma carga é aplicada ao aço, ele sofre uma deformação elástica temporária. Essa deformação é reversível, o que significa que o aço retorna à sua forma original quando a carga é removida. Essa capacidade de se deformar temporariamente e recuperar sua forma original é o que chamamos de comportamento elástico.

Importância do módulo de elasticidade do aço

O módulo de elasticidade do aço desempenha um papel fundamental no projeto e na análise de estruturas. Ele governa deslocamentos, flechas e a verificação de flambagem — e boa parte dos estados-limite de serviço é de deformação, não de ruptura. Uma viga pode estar longe de romper e ainda assim ser inaceitável porque deforma demais sob carga de uso.

Há aqui uma consequência de projeto que decorre do fato de o módulo ser praticamente o mesmo em todos os aços estruturais: não se aumenta a rigidez de uma peça de aço trocando o aço. Especificar um grau de maior resistência eleva a carga que a peça suporta antes de escoar, mas não reduz a flecha sob carga de serviço. Quem controla a rigidez é a geometria — momento de inércia da seção, vão, condições de apoio. Trocar um perfil por outro de mesma altura e aço mais resistente não resolve um problema de deslocamento excessivo; aumentar a altura da seção resolve.

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O que muda e o que não muda o módulo de elasticidade do aço

Aqui está a diferença que mais gera confusão na prática: quase tudo o que altera a resistência do aço não altera a sua rigidez. Os dois conceitos são frequentemente tratados como se caminhassem juntos, e não caminham.

A razão está no que o módulo mede. Deformação elástica é o estiramento das ligações entre os átomos, sem que eles troquem de vizinho. O módulo é, portanto, uma medida da força dessas ligações e do arranjo cristalino em que os átomos estão dispostos. Já a resistência mecânica é governada pelo movimento de discordâncias — defeitos que se deslocam pela rede — e é isso que tratamento térmico, elementos de liga e encruamento controlam. Um mecanismo mexe nas ligações, o outro mexe nos defeitos. Por isso é possível multiplicar por sete o limite de escoamento de um aço sem mudar de forma perceptível a sua rigidez.

O que praticamente não altera o módulo

Teor de carbono. Entre um aço de baixo carbono e um de alto carbono a diferença de módulo é pequena, da ordem de poucos por cento. O carbono altera profundamente dureza e resistência, não a rigidez.

Tratamento térmico. Recozimento, têmpera e revenimento mudam a microestrutura e, com ela, resistência e dureza — sem efeito relevante sobre o módulo. Um mesmo aço temperado e recozido tem essencialmente a mesma rigidez nos dois estados.

Microestrutura e grau de resistência. Ferrita, perlita, bainita e martensita têm módulos muito próximos entre si; a martensita, ao contrário do que a intuição sugere, tende a ficar ligeiramente abaixo da ferrita, e não acima. É justamente essa insensibilidade que permite às normas adotarem um único valor de módulo para toda uma família de aços, enquanto exigem que o limite de escoamento seja especificado grau a grau.

O que de fato altera o módulo

Temperatura — de longe o fator mais importante na prática. O módulo cai à medida que o aço aquece, porque a agitação térmica afrouxa as ligações atômicas. Os fatores de redução do Eurocode 3 para aço carbono em situação de incêndio dão a dimensão: o módulo se mantém integral até 100 °C, cai para 90% a 200 °C, 80% a 300 °C, 70% a 400 °C, 60% a 500 °C e despenca para 31% a 600 °C. É por isso que uma estrutura metálica perde rigidez muito antes de perder seção num incêndio.

Estrutura cristalina. Aqui a composição importa, mas não pelo motivo que se costuma supor: o que pesa é a mudança de fase que ela provoca. Aços inoxidáveis austeníticos, com cromo e níquel, têm estrutura cúbica de face centrada em vez da cúbica de corpo centrado dos aços carbono — e é essa diferença de arranjo, não a presença dos elementos em si, que explica o módulo um pouco mais baixo, na faixa de 193 a 200 GPa.

Textura cristalográfica. Num monocristal de ferro o módulo é fortemente direcional: cerca de 130 GPa numa direção da rede e cerca de 280 GPa em outra. Num aço comum os grãos estão orientados ao acaso e essas diferenças se cancelam na média. Mas processos como a laminação a frio alinham os grãos, criando textura — e a chapa resultante pode apresentar rigidez mensuravelmente diferente na direção de laminação e na transversal.

Dano acumulado. Microtrincas de fadiga, vazios de fluência ou porosidade reduzem a rigidez aparente da peça, porque diminuem a área efetiva que resiste à carga. Rigorosamente, o módulo do material não mudou: o que mudou foi a seção que ainda trabalha. A distinção importa em ensaio, porque uma queda de rigidez medida ao longo de ciclos é indício de dano, e é assim que se acompanha a evolução de uma falha por fadiga.

Obtendo o módulo de elasticidade do aço na máquina universal de ensaio

A máquina universal de ensaio é amplamente utilizada para determinar o módulo de elasticidade do aço. O procedimento de ensaio consiste em aplicar uma carga gradualmente ao corpo de prova de aço e medir a deformação resultante. Com base nos dados de carga e deformação, é possível calcular o módulo de elasticidade do aço.

O ensaio de determinação do módulo de elasticidade do aço na máquina universal de ensaio geralmente segue as seguintes etapas:

  1. Preparação do corpo de prova: Os corpos de prova de aço devem ser moldados e preparados de acordo com as normas específicas. Geralmente, são utilizados corpos de prova em formato de barras com dimensões padronizadas.
  2. Posicionamento do corpo de prova: O corpo de prova é posicionado na máquina universal de ensaio, de forma que a carga seja aplicada axialmente.
  3. Aplicação da carga: A carga é aplicada gradualmente ao corpo de prova por meio da máquina universal de ensaio. Durante o ensaio, a carga e a deformação são medidas continuamente.
  4. Registro dos dados: Os dados de carga e deformação são registrados ao longo do ensaio. Esses dados são posteriormente utilizados para calcular o módulo de elasticidade do aço.
  5. Cálculo do módulo de elasticidade: Com base nos dados de carga e deformação, o módulo de elasticidade do aço pode ser calculado utilizando fórmulas específicas, como a relação entre a tensão e a deformação elástica.

É importante ressaltar que o ensaio de determinação do módulo de elasticidade do aço na máquina universal de ensaio deve ser realizado de acordo com as normas e procedimentos estabelecidos, a fim de garantir resultados confiáveis e precisos.

Normas nacionais relacionadas ao módulo de elasticidade do aço

Existem normas nacionais que estabelecem diretrizes para a determinação e o uso adequado do módulo de elasticidade do aço. A seguir, estão listadas as cinco principais normas nacionais relacionadas ao tema:

  1. ABNT NBR 8800: Esta norma brasileira especifica os critérios gerais de projeto para estruturas de aço e estabelece requisitos para a determinação do módulo de elasticidade do aço utilizado nessas estruturas.
  2. ABNT NBR 7480: Essa norma estabelece as características e os requisitos para os aços destinados a armaduras de concreto armado. Ela inclui diretrizes para a determinação do módulo de elasticidade desses aços.
  3. ABNT NBR 6323: Esta norma estabelece as características dos fios de aço destinados à fabricação de cabos de aço. Ela inclui diretrizes para a determinação do módulo de elasticidade desses fios.
  4. ABNT NBR 7007: Essa norma especifica o método de ensaio para a determinação do módulo de elasticidade dos aços destinados a armaduras de concreto armado.
  5. ABNT NBR 15699: Esta norma trata do cálculo de estruturas de aço constituídas por perfis formados a frio. Ela inclui diretrizes para a determinação do módulo de elasticidade desses perfis.

Normas internacionais relacionadas ao módulo de elasticidade do aço

Além das normas nacionais, existem normas internacionais que fornecem diretrizes para a determinação e o uso do módulo de elasticidade do aço. A seguir, estão listadas as cinco principais normas internacionais relacionadas ao tema:

  1. ASTM E111: Essa norma da ASTM especifica o método de ensaio para a determinação do módulo de elasticidade em materiais metálicos.
  2. ISO 6892-1: Esta norma internacional trata dos ensaios de tração em materiais metálicos. Ela inclui diretrizes para a determinação do módulo de elasticidade durante o ensaio de tração do aço.
  3. EN 10002-1: Essa norma europeia especifica os métodos de ensaio para a determinação das propriedades mecânicas dos produtos de aço.
  4. JIS G 3193: Essa norma japonesa estabelece as dimensões, as formas, os pesos e as tolerâncias dos perfis laminados de aço.
  5. BS EN 10025: Esta norma europeia trata dos produtos laminados a quente de aços estruturais.

Conclusão

O módulo de elasticidade do aço governa o comportamento estrutural do material no regime elástico — deslocamentos, flechas, flambagem —, e não a sua resistência. As duas propriedades respondem a perguntas diferentes e obedecem a mecanismos diferentes: a rigidez vem das ligações atômicas, a resistência vem do movimento de discordâncias. É por isso que ela permanece próxima de 200 GPa em toda a família dos aços estruturais, enquanto o limite de escoamento varia por um fator de sete entre um grau e outro.

Essa constância tem duas consequências práticas. No projeto, quem controla rigidez é a geometria da seção, não a escolha do aço. E no laboratório, um valor de módulo que se afaste muito de 200 GPa quase nunca indica um aço diferente — indica um problema de medição, tipicamente a ausência de extensômetro, com a deformação da própria máquina sendo contabilizada como se fosse do corpo de prova.

Vale seguir as normas nacionais e internacionais que tratam do assunto: elas fixam corpo de prova, velocidade de ensaio e forma de medir a deformação, que são justamente as condições de que o resultado depende.

Perguntas frequentes

Qual é o valor do módulo de elasticidade do aço?

Cerca de 200 GPa, ou 200.000 MPa. A ABNT NBR 8800 adota exatamente esse valor no projeto de estruturas de aço. Aços inoxidáveis austeníticos ficam um pouco abaixo, próximos de 193 GPa.

O que é o módulo de elasticidade do aço?

É a medida da rigidez do material: a relação entre a tensão aplicada e a deformação elástica resultante. Ele descreve a capacidade do aço de se deformar temporariamente sob carga e voltar à forma original quando ela é removida.

O módulo de elasticidade muda com o tratamento térmico ou o teor de carbono?

Muito pouco — e essa é a característica mais útil da propriedade. Têmpera, revenimento e recozimento alteram profundamente a resistência e a dureza do aço, mas praticamente não alteram sua rigidez, porque o módulo depende das forças de ligação atômica e não da microestrutura. Por isso o projeto estrutural pode adotar 200 GPa para aços carbono em geral, enquanto o limite de escoamento precisa ser especificado aço a aço.

Qual a diferença entre módulo de elasticidade e resistência?

Rigidez e resistência respondem a perguntas diferentes. O módulo diz quanto a peça deforma sob determinada carga; a resistência diz em que carga ela falha. Um aço de alta resistência suporta mais antes de escoar, mas deforma praticamente o mesmo que um aço comum sob a mesma tensão dentro do regime elástico.

Como o módulo de elasticidade do aço é determinado em ensaio?

Na máquina universal de ensaios, por ensaio de tração. Prepara-se o corpo de prova conforme norma, posiciona-se de modo que a carga seja axial, aplica-se carga crescente medindo carga e deformação continuamente, e calcula-se o módulo pela inclinação do trecho reto da curva tensão-deformação.

Por que o extensômetro é indispensável nesse ensaio?

Porque medir o alongamento pelo deslocamento da travessa inclui a deformação da própria máquina e das garras, e isso subestima bastante a rigidez. Como o aço é rígido, a deformação elástica que se quer medir é pequena e o erro da máquina pesa muito — a diferença entre medir com e sem extensômetro chega à casa das dezenas de por cento.

Por que o módulo importa no projeto estrutural?

Porque ele governa deslocamentos e flechas, e boa parte dos estados-limite de serviço é de deformação, não de ruptura. Uma viga pode estar longe de romper e ainda assim ser inaceitável por deformar demais. O módulo também entra na verificação de flambagem, em que o que decide é a rigidez.

Quais normas tratam do módulo de elasticidade do aço?

No Brasil, a ABNT NBR 8800, para estruturas de aço; a NBR 7480 e a NBR 7007, para aços de armadura de concreto; a NBR 6323, para fios destinados a cabos; e a NBR 15699, para perfis formados a frio. No exterior, a ASTM E111, específica para determinação do módulo em materiais metálicos, e a ISO 6892-1, do ensaio de tração.

Mardoqueu M. Costa

Escrito por

Mardoqueu M. Costa

Pesquisador em instrumentação e engenharia de materiais

Pós-doutor em Engenharia de Biossistemas (ESALQ/USP) e doutor em Engenharia Elétrica (EESC/USP). Pesquisador da Biopdi desde 2011, com 22 artigos publicados e 3 patentes.

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