Tenacidade dos materiais: o que é, como calcular e unidade

Tenacidade é a energia que um material absorve antes de fraturar. Veja como calcular, unidades, ensaio Charpy, tenacidade à fratura e valores de referência.

Propriedades MecânicasPor Mardoqueu M. Costa
22 min de leitura

No sentido figurado, tenacidade quer dizer firmeza e perseverança. Em engenharia de materiais, é outra coisa: tenacidade é a capacidade de um material absorver energia e se deformar plasticamente antes de fraturar. Um material tenaz "avisa" antes de romper: estica, entorta, estrangula. Um material frágil quebra de repente, quase sem deformar.

Em uma frase: tenacidade é a energia que um material absorve até fraturar, medida como área sob a curva tensão-deformação (em J/m³), como energia de impacto no ensaio Charpy (em joules) ou como tenacidade à fratura KIC (em MPa√m).

Na foto, um corpo de prova de aço depois do ensaio de tração. Antes de romper, a seção afinou num "pescoço" (a estricção) e a fratura ficou com a forma de taça e cone: as duas marcas mostram que o aço se deformou plasticamente e absorveu energia antes de fraturar, que é justamente o que define um material tenaz.

Corpo de prova de aço rompido no ensaio de tração, com estricção e fratura dúctil do tipo taça e cone
Corpo de prova de aço rompido no ensaio de tração: a estricção mostra a energia absorvida antes da fratura

A palavra "tenacidade" cobre três medidas diferentes, feitas em ensaios diferentes. Confundir as três é o erro mais comum sobre o tema:

MedidaO que medeUnidadeEnsaio
Módulo de tenacidade (tenacidade em tração)Energia por volume absorvida até a rupturaJ/m³ (MJ/m³)Ensaio de tração
Tenacidade ao impactoEnergia para romper um corpo de prova entalhado com um golpeJCharpy ou Izod (pêndulo)
Tenacidade à fratura (KIC)Resistência à propagação de uma trinca que já existeMPa√mCorpo de prova pré-trincado (ASTM E399)

O que é tenacidade dos materiais

Para ser tenaz, um material precisa de duas coisas ao mesmo tempo: resistência, para suportar tensão alta, e ductilidade, para se deformar bastante antes de romper. Faltando uma das duas, a energia absorvida cai.

  • Material tenaz: absorve muita energia antes de romper, e a falha é visível (estricção, dobramento). Exemplos: aços estruturais e de baixo carbono, ligas de titânio, aço inoxidável austenítico, cobre e polímeros como o policarbonato à temperatura ambiente.
  • Material frágil: rompe com pouca ou nenhuma deformação plástica. Exemplos: vidro, cerâmicas, ferro fundido cinzento e concreto sem armadura.

A tenacidade pesa mais na escolha do material quando a peça pode receber impacto ou choque, ou quando uma sobrecarga não pode virar ruptura súbita. A estrutura de um automóvel precisa absorver a energia de uma colisão deformando-se, e não se partindo; pontes e estruturas metálicas precisam suportar sobrecargas e baixas temperaturas sem fratura frágil; engrenagens e correntes recebem choques a cada ciclo de trabalho. Em textos técnicos aparece também a expressão "tenacidade mecânica": é a mesma propriedade, a resistência do material à fratura sob esforço mecânico, e não uma quarta medida.

Tenacidade não é o mesmo que dureza. O diamante é o material mais duro que existe e é pouco tenaz: risca quase tudo, mas estilhaça com um golpe. Também não é o mesmo que resistência: resistência é a tensão máxima que o material suporta, e tenacidade é a energia que ele absorve até romper. Essas diferenças, junto com a resiliência, estão resumidas numa tabela mais adiante e no artigo sobre propriedades mecânicas dos materiais.

Tenacidade na curva tensão-deformação

No diagrama tensão-deformação do ensaio de tração, a tenacidade é a área total sob a curva, da origem até a ruptura. Tensão vezes deformação dá energia por unidade de volume, e somar essa área é somar a energia que o material absorveu em cada instante do ensaio.

Dentro dessa área existe um pedaço pequeno: o triângulo do trecho elástico, até o escoamento. Essa é a resiliência, a energia que o material devolve quando a carga é retirada, o trecho em que vale a Lei de Hooke. O resto da área vem da deformação plástica, e é por isso que a tenacidade de um metal dúctil é centenas de vezes maior que a sua resiliência.

O gráfico abaixo mostra as duas áreas na curva de um aço 1020: a área inteira até a ruptura, que é a tenacidade (cerca de 97 MJ/m³), e o triângulo do trecho elástico, que é a resiliência (cerca de 0,30 MJ/m³). O triângulo é tão estreito que só aparece no detalhe ampliado; a diferença entre as duas áreas é a energia absorvida pela deformação plástica.

Curva tensão-deformação de um aço 1020 com a área total sob a curva (tenacidade) e o triângulo elástico (resiliência) destacados
Tenacidade é a área total sob a curva; resiliência é só a área do trecho elástico

Comparar curvas de materiais diferentes mostra por que a tenacidade exige resistência e deformação juntas. O ferro fundido resiste a uma tensão razoável, mas rompe com menos de 1% de deformação e absorve quase nada. O cobre recozido se deforma muito, mas a tensão é baixa. Os aços combinam as duas coisas, e um aço de alta resistência que ainda se alonga bem, como o 4340 temperado e revenido, tem a maior área da lista. O gráfico abaixo sobrepõe as curvas desses quatro materiais, com a energia absorvida por cada um até a ruptura.

Curvas tensão-deformação de aço 4340 temperado e revenido, aço 1020, cobre recozido e ferro fundido, com a energia absorvida de cada um
Tenacidade exige resistência e deformação ao mesmo tempo

Isso não quer dizer que "mais resistente é sempre mais tenaz". Um aço muito resistente e pouco dúctil, como um aço de mola ou um aço temperado sem revenimento, tem curva alta e curta, e pode absorver menos energia que um aço estrutural de curva mais baixa e longa. Na simulação abaixo, escolha o material e veja as duas áreas calculadas.

Simulação interativa

Experimente o ensaio no navegador e acompanhe os resultados sendo calculados.

Como calcular a tenacidade

O módulo de tenacidade é a integral da tensão em relação à deformação, do início do ensaio até a ruptura:

UT = ∫ σ dε (de 0 até εf)

Na prática, o software da máquina de ensaio calcula essa área somando pequenos trapézios ao longo da curva. Sem a curva completa, existe uma estimativa para metais dúcteis que usa três valores do ensaio de tração: a média entre o limite de escoamento e o limite de resistência, multiplicada pela deformação na ruptura. É como trocar a área sob a curva por um retângulo com a altura da tensão média; funciona bem em metais dúcteis, em que o trecho elástico é curto e a curva plástica é quase plana, e perde a precisão em materiais cuja curva tem outra forma, como os frágeis e muitos polímeros.

Há ainda um terceiro caminho, direto dos dados brutos da máquina: a área sob a curva força × deslocamento é o trabalho W, em joules, gasto para romper o corpo de prova. Dividir esse trabalho pelo volume útil, área inicial vezes comprimento útil, dá a energia por unidade de volume. A tabela resume as fórmulas, com o módulo de resiliência junto para comparação:

GrandezaFórmulaUnidade
Módulo de tenacidadeUT = ∫ σ dεJ/m³
Estimativa para metais dúcteisUT ≈ (σe + σu) / 2 × εfJ/m³
Módulo de resiliência (para comparar)Ur = σe² / (2E)J/m³
A partir da curva força × deslocamentoUT ≈ W / (A0 · L0)J/m³

Nas fórmulas, σe é o limite de escoamento, σu é o limite de resistência à tração, εf é a deformação na ruptura, E é o módulo de elasticidade, W é o trabalho (a área sob a curva força × deslocamento), A0 é a área inicial e L0 é o comprimento útil do corpo de prova.

Exercício 1: módulo de tenacidade de um aço estrutural

Um aço tem σe = 250 MPa, σu = 400 MPa, deformação na ruptura εf = 0,25 e E = 200 GPa. Estime o módulo de tenacidade e compare com o de resiliência.

Resolução. UT ≈ (250 + 400) / 2 × 0,25 = 325 × 0,25 = 81,3 MJ/m³. Resiliência: Ur = 250² / (2 × 200.000) = 62.500 / 400.000 = 0,156 MJ/m³. A tenacidade é cerca de 520 vezes a resiliência: quase toda a energia vem da deformação plástica.

Exercício 2: tenacidade a partir de um ensaio de tração

Um corpo de prova cilíndrico com diâmetro de 10 mm e comprimento útil de 50 mm é ensaiado até a ruptura, e o software informa que a área sob a curva força × deslocamento (o trabalho) é de 320 J. Qual é o módulo de tenacidade?

Resolução. Área: A0 = π × 10² / 4 = 78,54 mm². Volume útil: 78,54 × 50 = 3.927 mm³. Trabalho: 320 J = 320.000 N·mm. Módulo: UT ≈ 320.000 / 3.927 = 81,5 MJ/m³. Depois da estricção, a deformação se concentra no "pescoço", então o valor por volume é uma média de engenharia: serve para comparar materiais ensaiados com a mesma geometria de corpo de prova.

Unidade de medida da tenacidade

A unidade depende de qual tenacidade se está medindo:

  • Módulo de tenacidade: joule por metro cúbico (J/m³), geralmente em MJ/m³. Como 1 MJ/m³ = 1 J/cm³ = 1 N·mm/mm³, ele tem a mesma dimensão que o MPa, mas escrever só "MPa" confunde com tensão.
  • Energia de impacto (Charpy ou Izod): joule (J). Em normas americanas antigas aparece em ft·lbf; 1 ft·lbf ≈ 1,356 J, então 20 ft·lbf ≈ 27 J.
  • Tenacidade à fratura: MPa√m (megapascal vezes raiz de metro). Em literatura americana aparece em ksi√in; 1 ksi√in ≈ 1,099 MPa√m.

Ensaio Charpy: tenacidade ao impacto

O ensaio de tração é lento. Muitas falhas reais acontecem com carga rápida e na presença de um entalhe (um canto vivo, um cordão de solda, um furo). Para isso existe o ensaio Charpy, proposto pelo francês Georges Charpy em 1901 e normalizado hoje pela ISO 148-1 e pela ASTM E23. Mais detalhes estão no artigo sobre ensaio de impacto.

  • Corpo de prova: barra de 10 × 10 × 55 mm com um entalhe no meio do comprimento, geralmente em V (2 mm de profundidade, 45°, raio de fundo de 0,25 mm).
  • Ensaio: a barra fica apoiada nas duas pontas, com o entalhe voltado para trás, e um martelo pendular solto de uma altura conhecida golpeia a face oposta ao entalhe.
  • Resultado: a energia absorvida para romper a barra, calculada pela diferença de altura do martelo antes e depois do golpe: E = m · g · (h0 − h1). Em aços, costuma-se registrar também o aspecto da fratura.

A superfície rompida conta a história do ensaio. Na fratura dúctil, a superfície é fibrosa e fosca, com bordas deformadas: o material escoou antes de romper e absorveu muita energia. Na fratura frágil, a superfície é plana, brilhante e cristalina: a trinca atravessou os grãos quase sem deformação plástica. A foto abaixo põe as duas lado a lado, em corpos de prova de aço, e mostra por que o aspecto da fratura acompanha o valor em joules no relatório.

Superfícies de fratura de corpos de prova de aço: à esquerda fratura dúctil fibrosa com bordas deformadas, à direita fratura frágil plana e cristalina
Fratura dúctil (à esquerda) e fratura frágil (à direita)

A temperatura muda tudo: transição dúctil-frágil

Os aços de estrutura cristalina cúbica de corpo centrado (os aços ferríticos comuns) têm uma temperatura de transição dúctil-frágil. Acima dela, rompem de forma dúctil e absorvem muita energia; abaixo, a mesma chapa rompe de forma frágil, com poucos joules. Por isso as normas de aço estrutural pedem energia Charpy numa temperatura definida. Na EN 10025-2, por exemplo, o sufixo do grau indica a temperatura em que se exigem 27 J: JR a +20 °C, J0 a 0 °C e J2 a −20 °C.

O caso mais conhecido é o do Titanic. Ensaios Charpy em chapas do casco recuperadas do fundo do mar mediram cerca de 4 J a −2 °C, a temperatura da água na noite da colisão, contra centenas de joules num aço naval moderno na mesma temperatura. Felkins, Leighly e Jankovic (revista JOM, 1998) encontraram a transição do aço do casco acima de +30 °C, contra cerca de −27 °C num aço ASTM A36 atual, e uma relação manganês:enxofre de 6,8:1, contra 14,9:1 no A36. O aço era provavelmente o melhor aço-carbono disponível em 1911: o que faltava era o conhecimento sobre tenacidade a baixa temperatura.

O gráfico abaixo traça a energia Charpy em função da temperatura para os dois aços. Cada curva tem um patamar alto, dúctil, um patamar baixo, frágil, e a faixa de transição entre eles; a curva do aço do Titanic está deslocada para temperaturas bem mais altas, e por isso a −2 °C ele já estava no patamar frágil.

Curva de transição dúctil-frágil da energia Charpy em função da temperatura para o aço do Titanic e para o aço ASTM A36
Transição dúctil-frágil: o aço do Titanic a −2 °C estava no patamar frágil

Um cuidado com o vocabulário: em francês e em alguns textos técnicos antigos, a energia Charpy é chamada de "resiliência". No português técnico atual, resiliência é a energia elástica, e a energia Charpy é tenacidade ao impacto.

Exercício 3: energia absorvida no Charpy

Um martelo de 20 kg é solto de 1,50 m de altura e, depois de romper o corpo de prova, sobe até 0,90 m. Qual é a energia absorvida (g = 9,81 m/s², desprezando o atrito)?

Resolução. Energia inicial: 20 × 9,81 × 1,50 = 294,3 J. Energia final: 20 × 9,81 × 0,90 = 176,6 J. Energia absorvida: 294,3 − 176,6 = 117,7 J. Se esse corpo de prova fosse de um aço S355J2 ensaiado a −20 °C, o resultado passaria com folga no mínimo de 27 J que o grau J2 exige nessa temperatura. (Valores didáticos: pêndulos reais descontam atrito e resistência do ar.)

Tenacidade à fratura (KIC) e mecânica da fratura

Peças reais têm defeitos: poros, inclusões, trincas de fadiga, falhas de solda. A tenacidade à fratura mede a resistência de um material à propagação de uma trinca que já existe. Em 1921, Griffith mostrou que a resistência de sólidos frágeis como o vidro é governada por trincas microscópicas; em 1957, Irwin definiu o fator de intensidade de tensão K, que combina a tensão aplicada e o tamanho da trinca:

KI = Y · σ · √(π · a)

onde Y é um fator de geometria, σ é a tensão aplicada e a é o tamanho da trinca (a meia-trinca, no caso de uma trinca interna). A peça fratura quando KI atinge o valor crítico do material, a tenacidade à fratura KIC. A ASTM E399 mede KIC em corpos de prova com uma trinca pré-produzida por fadiga.

Um material com KIC alto tolera trincas maiores antes de a fratura se tornar instável. É a propriedade que manda em peças sujeitas a tensões cíclicas, como as asas de aeronaves: trincas de fadiga crescem aos poucos em serviço, e o projeto precisa garantir que elas sejam encontradas na inspeção antes de chegar ao tamanho crítico. A tabela abaixo reúne valores de KIC de ligas metálicas e mostra que resistência alta não garante tenacidade à fratura alta: o aço 300-M revenido a 300 °C tem o maior escoamento da lista e um KIC menor que o de aços bem menos resistentes.

MaterialKIC (MPa√m)Limite de escoamento (MPa)
Aço ASTM A517-F187760
Aço 18Ni maraging1761.290
Aço 300-M revenido a 650 °C1521.070
Aço AISI 41301101.090
Aço AISI 114466540
Titânio Ti-6Al-4V recozido66925
Aço 300-M revenido a 300 °C651.740
Alumínio 7475-T735152435
Alumínio 2024-T35134325
Alumínio 7075-T65129505

Valores à temperatura ambiente de Dowling, Mechanical Behavior of Materials (Tabela 8.1). Nos não metais, os valores são muito menores: vidro soda-cal cerca de 0,76, concreto de 0,2 a 1,4, alumina cerca de 4, policarbonato cerca de 2,2 e ABS cerca de 3,0 MPa√m (Dowling, Tabela 8.2). O KIC varia com a orientação da chapa, a espessura e o lote, então o valor de projeto sai de ensaio.

Exercício 4: tamanho crítico de trinca

Uma placa de alumínio 7075-T651 (KIC = 29 MPa√m) tem uma trinca interna passante e trabalha sob 250 MPa. Com Y = 1, qual é o comprimento crítico da trinca?

Resolução. ac = (1/π) × (KIC / σ)² = (1/π) × (29 / 250)² = 0,00428 m = 4,3 mm. Como a é a meia-trinca, o comprimento total crítico é cerca de 8,6 mm. Uma trinca maior que isso se propaga de forma instável.

Exercício 5: por que não se mede KIC em aços muito tenazes

Para o resultado valer, a ASTM E399 exige espessura B ≥ 2,5 × (KIC / σe)². Qual a espessura mínima para o alumínio 7075-T651 e para o aço A517-F?

Resolução. Alumínio: 2,5 × (29 / 505)² = 8,2 mm. Aço A517-F: 2,5 × (187 / 760)² = 151 mm. Para aços muito tenazes, um corpo de prova tão grosso é inviável, e usam-se métodos elastoplásticos, como a integral J da ASTM E1820.

Tenacidade do aço

A tenacidade de um aço depende da composição (carbono, manganês, enxofre, fósforo), do tamanho de grão, da direção de laminação, da temperatura de serviço e, sobretudo, do tratamento térmico.

Têmpera e revenimento. A têmpera aumenta a dureza e a resistência, mas deixa o aço frágil: a martensita recém-formada é dura e tensionada. Quem devolve a tenacidade é o revenimento, que alivia as tensões e transforma a martensita em martensita revenida. A temperatura de revenimento regula a troca entre dureza e tenacidade: o aço 300-M revenido a 300 °C tem escoamento de 1.740 MPa e KIC de 65 MPa√m; revenido a 650 °C, o escoamento cai para 1.070 MPa e o KIC sobe para 152 MPa√m (Dowling). Por isso ferramentas e peças temperadas passam por um ou mais revenimentos antes de entrar em serviço. Veja também tratamento térmico dos metais.

No outro extremo da escala está o recordista atual: a liga CrCoNi (cromo, cobalto e níquel em partes iguais), que a 20 kelvin registrou tenacidade à fratura de 459 MPa√m no início da trinca e mais de 540 MPa√m durante o crescimento (Liu et al., revista Science, 2022). Para comparar, os bons aços ficam na casa de 100 MPa√m.

Diferença entre dureza, resistência, ductilidade, resiliência e tenacidade

Dureza e resistência já foram separadas da tenacidade no início do artigo. As duas propriedades que mais se confundem com ela são a ductilidade e a resiliência, porque as três aparecem na mesma curva do ensaio de tração.

Ductilidade é quanto o material se deforma plasticamente antes de romper, medida pelo alongamento e pela estricção. É o que permite trefilar ouro, prata ou cobre em fios finos, ou dobrar e estampar uma chapa. A ductilidade é só metade da tenacidade: na comparação de curvas vista antes, o cobre recozido se alonga quase o dobro do aço 1020 e, mesmo assim, absorve menos energia, porque trabalha sob tensão bem mais baixa.

Resiliência é a energia absorvida só no trecho elástico, e o material a devolve quando a carga é retirada, voltando à forma original. Na tenacidade entra também a energia da deformação plástica, que fica no material como deformação permanente. Ter resiliência alta não garante tenacidade alta: um aço de mola tem escoamento alto e, por isso, resiliência alta, mas ductilidade limitada, e não é o material mais tenaz. A mola precisa devolver a energia e voltar à forma; a peça tenaz precisa absorver um choque sem partir.

A tabela resume as cinco propriedades:

PropriedadeO que medeUnidade usualEnsaio
DurezaResistência à penetração ou ao riscoHB, HV, HRCEnsaio de dureza
ResistênciaTensão máxima suportadaMPaEnsaio de tração
DuctilidadeQuanto o material se deforma antes de romper% de alongamentoEnsaio de tração
ResiliênciaEnergia elástica, devolvida ao descarregarJ/m³Ensaio de tração (trecho elástico)
TenacidadeEnergia total absorvida até a fraturaJ/m³, J ou MPa√mTração, Charpy ou KIC

Como medir a tenacidade no laboratório

  • Módulo de tenacidade: numa máquina universal de ensaios, a célula de carga mede a força, o extensômetro mede o alongamento e o software traça a curva tensão-deformação, de onde se calcula a área até a ruptura. O ensaio segue a ABNT NBR ISO 6892-1 ou a ASTM E8 para metais. O software BioLab gera a curva completa do ensaio e exporta os dados para o cálculo.
  • Energia de impacto: pêndulo Charpy ou Izod, conforme a ISO 148-1 ou a ASTM E23, com banho térmico quando o ensaio é em baixa temperatura.
  • Tenacidade à fratura: corpos de prova pré-trincados por fadiga e medição da abertura da trinca, conforme a ASTM E399 ou a E1820.
  • Análise da fratura: a superfície rompida, vista em lupa ou num microscópio metalográfico, confirma se a falha foi dúctil ou frágil.

A Biopdi, fabricante brasileira de máquinas universais de ensaios sediada em São Carlos (SP), tem modelos de 200 N a 1.000 kN. Para metais, chapas e juntas soldadas, a máquina de coluna dupla de 5 a 50 kN é o ponto de partida; para vergalhões e perfis, a de 100 a 200 kN. Para montar o ensaio de tração do seu laboratório, solicite um orçamento.

Referências

  • CALLISTER, W. D.; RETHWISCH, D. G. Materials Science and Engineering: An Introduction. 10. ed. Wiley.
  • DOWLING, N. E. Mechanical Behavior of Materials. Pearson. Tabelas 8.1 e 8.2.
  • GRIFFITH, A. A. The phenomena of rupture and flow in solids. Philosophical Transactions of the Royal Society A, v. 221, 1921. DOI: 10.1098/rsta.1921.0006.
  • IRWIN, G. R. Analysis of stresses and strains near the end of a crack traversing a plate. Journal of Applied Mechanics, v. 24, 1957. DOI: 10.1115/1.4011547.
  • FELKINS, K.; LEIGHLY, H. P.; JANKOVIC, A. The Royal Mail Ship Titanic: did a metallurgical failure cause a night to remember? JOM, v. 50, n. 1, p. 12-18, 1998.
  • FOECKE, T. Metallurgy of the RMS Titanic. NIST IR 6118, 1998. DOI: 10.6028/NIST.IR.6118.
  • LIU, D. et al. Exceptional fracture toughness of CrCoNi-based medium- and high-entropy alloys at 20 kelvin. Science, v. 378, 2022. DOI: 10.1126/science.abp8070.
  • ISO 148-1:2016. Metallic materials: Charpy pendulum impact test, Part 1: Test method.
  • ASTM E23. Standard Test Methods for Notched Bar Impact Testing of Metallic Materials.
  • ASTM E399. Standard Test Method for Linear-Elastic Plane-Strain Fracture Toughness of Metallic Materials.

Outros ensaios e referências técnicas

Propriedades mecânicas dos materiais: o que são, quais são, ensaios, normas e valores do aço

Propriedades mecânicas dos materiais definem como um material responde a forças: quanto deforma, se volta à forma, quanta carga suporta, quanta energia absorve e como rompe. Veja cada propriedade com unidade, ensaio e norma, os valores do aço (NBR 8800, ASTM A36, CA-50), os pares que se confundem e exercícios resolvidos.

18 min

Resiliência dos materiais: módulo de resiliência, fórmula Ur = σe²/2E, unidade e diferença para tenacidade

Resiliência é a capacidade de um material absorver energia ao se deformar elasticamente e devolvê-la no descarregamento. Veja o módulo de resiliência (Ur = σe²/2E), a dedução, a unidade J/m³, valores calculados por material e condição, a diferença para tenacidade, os materiais para mola, o módulo de resiliência de pavimentos e exercícios resolvidos.

18 min

Ductilidade: o que é, como calcular, material dúctil e frágil e exemplos

Ductilidade é quanto um material se deforma plasticamente antes de romper. Veja as fórmulas de alongamento e redução de área, material dúctil e frágil e valores reais.

20 min

Estricção no ensaio de tração: o que é, quando começa, coeficiente Z e fratura taça-cone

Estricção é a redução localizada da seção do corpo de prova que começa na força máxima do ensaio de tração. Veja o critério de Considère, o coeficiente de estricção Z = (S0 − Su)/S0 × 100 pela ISO 6892-1, valores por material, a fratura taça-cone, a correção de Bridgman, o estiramento a frio dos polímeros e exercícios resolvidos.

15 min

Perguntas frequentes

O que é tenacidade?

Em engenharia de materiais, tenacidade é a capacidade de um material absorver energia e se deformar plasticamente antes de fraturar. Ela é medida pela área sob a curva tensão-deformação (J/m³), pela energia de impacto Charpy (J) ou pela tenacidade à fratura KIC (MPa√m). No sentido figurado, a palavra quer dizer perseverança.

O que é um material tenaz?

É o material que absorve muita energia antes de romper, porque combina resistência e ductilidade. Aços estruturais, ligas de titânio e o policarbonato são tenazes. Vidro, cerâmicas e ferro fundido cinzento são frágeis: rompem quase sem deformar.

Como calcular a tenacidade?

O módulo de tenacidade é a área sob a curva do ensaio de tração, U = ∫σ dε. Para metais dúcteis, uma estimativa é U ≈ (σe + σu) / 2 × εf. Com escoamento de 250 MPa, resistência de 400 MPa e deformação de ruptura de 0,25, a tenacidade fica em torno de 81 MJ/m³.

Qual é a unidade de medida da tenacidade?

Depende da medida. O módulo de tenacidade é dado em J/m³ (ou MJ/m³, igual a J/cm³). A energia de impacto Charpy é dada em joules. A tenacidade à fratura KIC é dada em MPa√m.

Qual é a diferença entre dureza e tenacidade?

Dureza é a resistência à penetração ou ao risco, medida em escalas como HB, HV e HRC. Tenacidade é a energia absorvida até a fratura. Num mesmo aço, revenir menos aumenta a dureza e reduz a tenacidade: o aço 300-M revenido a 300 °C tem KIC de 65 MPa√m, e revenido a 650 °C, de 152 MPa√m.

Qual é a diferença entre resiliência e tenacidade?

Resiliência é a energia absorvida no regime elástico, devolvida quando a carga é retirada, e vale σe² / 2E. Tenacidade é a energia total até a ruptura, incluindo a deformação plástica. Num aço estrutural, a tenacidade é centenas de vezes maior que a resiliência.

O que é tenacidade do aço?

É a capacidade do aço de absorver energia antes de fraturar, normalmente especificada pela energia Charpy numa temperatura, como 27 J a −20 °C no aço S355J2. Ela depende da composição, do tratamento térmico e da temperatura de serviço.

A têmpera aumenta a tenacidade do aço?

Não. A têmpera aumenta a dureza e a resistência, mas deixa o aço frágil. Quem recupera a tenacidade é o revenimento, feito depois da têmpera; quanto maior a temperatura de revenimento, maior a tenacidade e menor a dureza.

O que é tenacidade à fratura?

É a resistência de um material à propagação de uma trinca que já existe, expressa pelo valor crítico KIC em MPa√m. A trinca cresce de forma instável quando Y·σ·√(πa) atinge KIC. É medida pela ASTM E399 em corpos de prova pré-trincados.

O que é o ensaio Charpy?

É o ensaio em que um martelo pendular rompe um corpo de prova de 10 × 10 × 55 mm com entalhe em V, e a energia absorvida, em joules, mede a tenacidade ao impacto. Foi proposto por Georges Charpy em 1901 e hoje segue a ISO 148-1 e a ASTM E23.

Por que o aço do Titanic foi frágil?

Ensaios Charpy em chapas do casco mediram cerca de 4 J a −2 °C, a temperatura da água na colisão, porque a transição dúctil-frágil desse aço ficava acima de +30 °C. O aço tinha enxofre e fósforo altos e relação manganês:enxofre de 6,8:1 (Felkins et al., 1998).

Qual é o material mais tenaz conhecido?

A liga CrCoNi, de cromo, cobalto e níquel em partes iguais, que a 20 kelvin registrou tenacidade à fratura de 459 MPa√m e mais de 540 MPa√m durante o crescimento da trinca (Liu et al., Science, 2022). Os bons aços ficam na casa de 100 MPa√m.