Engenharia de Materiais: o que é, o que faz, curso, atribuições e salário

Engenharia de Materiais é a engenharia que relaciona processamento, estrutura, propriedades e desempenho de metais, polímeros, cerâmicas e compósitos para selecionar, desenvolver, fabricar e ensaiar o material certo para cada uso. Veja o que faz o engenheiro, as atribuições do Confea, a grade do curso, onde estudar, o salário no Caged e o piso da Lei 4.950-A/66.

MateriaisPor Mardoqueu M. Costa
22 min de leitura

Engenharia de Materiais é a engenharia que relaciona o processamento, a estrutura, as propriedades e o desempenho de metais, polímeros, cerâmicas, compósitos e biomateriais para selecionar, desenvolver, fabricar e ensaiar o material certo para cada aplicação. No Brasil, a profissão é regulada pelo Confea (Resolução nº 241/1976), exige registro no Crea e o curso tem no mínimo 3.600 horas e 5 anos de integralização.

O engenheiro de materiais trabalha onde a matéria-prima vira produto: siderurgia, plásticos, cerâmica, automotiva, embalagens, dispositivos médicos, laboratórios de ensaio e pesquisa. No Caged dos 12 meses encerrados em julho de 2026, a média salarial da ocupação foi de R$ 11.836,71 por mês (Salario.com.br, atualizado em 03/09/2026).

Na foto, um engenheiro de materiais examina com lupa a superfície de fratura de uma barra de aço rompida, ao lado de amostras metalográficas polidas e do microscópio. A cena resume a profissão: a forma da fratura conta como o material se comportou, a microestrutura explica por quê, e a escolha do material e do processo decide se a peça vai resistir ao uso.

Engenheiro de materiais de jaleco examina com lupa a superfície de fratura de uma barra de aço rompida, com amostras metalográficas e microscópio na bancada
Análise de fratura no laboratório: ler a superfície rompida é parte do trabalho do engenheiro de materiais

O que é engenharia de materiais

A disciplina se organiza em torno de uma cadeia de causa e efeito. O modo como o material é processado (fundido, laminado, injetado, sinterizado, tratado termicamente) define a sua estrutura, do arranjo dos átomos à microestrutura de grãos e fases. A estrutura determina as propriedades (mecânicas, térmicas, elétricas, ópticas), e as propriedades definem o desempenho da peça em serviço. Os quatro elementos formam o chamado tetraedro dos materiais, consagrado pelo relatório Materials Science and Engineering for the 1990s, do National Research Council dos Estados Unidos (1989), e usado como fio condutor por Callister e Rethwisch em Ciência e Engenharia de Materiais: uma introdução.

O nome junta duas atividades. A ciência dos materiais investiga as relações entre estrutura e propriedade; a engenharia de materiais usa essas relações para projetar ou especificar a estrutura que entrega um conjunto de propriedades desejado, a um custo e com um processo viáveis. No centro do tetraedro está a caracterização, que é o conjunto de ensaios e análises que mede cada vértice: sem ela, a relação entre processo e desempenho fica na suposição.

Um exemplo percorre os quatro vértices. Laminar um aço a frio (processamento) multiplica as discordâncias da rede cristalina (estrutura), eleva o limite de escoamento e reduz a ductilidade (propriedades), e a chapa fica mais resistente, mas pode trincar numa dobra severa (desempenho). Esse é o encruamento, quantificado por ensaios de tração antes e depois da laminação. O esquema abaixo mostra o tetraedro com esse exemplo em cada vértice.

Esquema do tetraedro dos materiais com processamento, estrutura, propriedades e desempenho nos vértices e a caracterização por ensaios no centro, exemplificado pela laminação a frio de um aço
Tetraedro dos materiais (esquema): processamento, estrutura, propriedades e desempenho, ligados pela caracterização

O que faz o engenheiro de materiais

A Classificação Brasileira de Ocupações descreve o engenheiro de materiais (CBO 2146-05) como o profissional que projeta estruturas, propriedades e processos de materiais e que, para isso, seleciona materiais e processos, planeja e supervisiona testes e experimentos, caracteriza produtos, desenvolve aplicações e gerencia a qualidade. A CBO reconhece três especializações pelo nome: engenheiro de materiais de cerâmica, de metais e de polímeros. Na prática, o trabalho se divide em frentes que costumam aparecer juntas:

  • Seleção de materiais: escolher, entre as opções que atendem ao esforço, à temperatura e ao ambiente, a de menor custo total, incluindo processo e descarte.
  • Desenvolvimento de material e de produto: formular uma liga, um composto polimérico ou uma massa cerâmica, ou adaptar um material existente a um uso novo.
  • Processamento: definir e ajustar fundição, conformação, injeção, extrusão, sinterização e tratamento térmico, que são as etapas que fixam a estrutura.
  • Caracterização e ensaios: medir propriedades mecânicas, analisar a microestrutura e emitir laudo.
  • Análise de falha: descobrir por que uma peça rompeu, pela fratura, pela metalografia e pelos ensaios do material.
  • Qualidade e certificação: especificar, inspecionar e aprovar matéria-prima e produto, função que se cruza com a engenharia da qualidade.
  • Pesquisa e docência: em universidades, institutos e centros de P&D de empresas.

Um celular resume essas frentes: a placa de circuito junta laminado de fibra de vidro e resina, trilhas metálicas e soldas que não podem trincar com o calor; a tela é vidro tratado contra riscos; a carcaça é polímero ou liga leve. Cada escolha passou por alguém que conhecia a relação entre processo, estrutura e propriedade.

A seleção de material raramente acontece isolada do projeto. Na foto, dois engenheiros discutem o modelo 3D de uma peça: a geometria, as cargas e o material são decididos juntos, e é nessa conversa que o engenheiro de materiais responde se a peça resiste, quanto custa fabricá-la e como vai envelhecer.

Dois engenheiros analisam o modelo 3D de uma peça mecânica em monitores de computador
Engenheiros discutem o modelo 3D de uma peça: a escolha do material entra junto com o projeto

Diferença para a engenharia metalúrgica e a mecânica

A engenharia metalúrgica trata dos metais, da extração do minério ao produto siderúrgico, e tem ocupação própria na CBO (2146-10, engenheiro metalurgista). A engenharia de materiais cobre também polímeros, cerâmicas e compósitos. Já a engenharia mecânica projeta o componente e o sistema partindo de propriedades conhecidas; a de materiais explica de onde vêm essas propriedades e como alterá-las. As três se encontram na seleção de material e na análise de falha.

Atribuições no Confea e registro no Crea

O exercício da profissão depende do registro no Crea do estado onde o engenheiro vai atuar. As atividades que ele pode assinar vêm de três atos do Confea, conferidos na base de normativos do conselho em 30/09/2026:

  • Resolução nº 218, de 29/06/1973: lista as 18 atividades profissionais das engenharias, de supervisão, estudo, projeto e perícia a ensino, pesquisa, ensaio, padronização, controle de qualidade, execução e operação.
  • Resolução nº 241, de 31/07/1976: atribui ao engenheiro de materiais as atividades 01 a 18 da Resolução 218 referentes aos procedimentos tecnológicos na fabricação de materiais para a indústria e às suas transformações. A página do Confea não registra revogação nem alteração.
  • Resolução nº 1.073, de 19/04/2016 (DOU de 22/04/2016, com retificação em 03/05/2016): regulamenta como o Crea atribui título, atividades e campos de atuação a partir do currículo cursado, e permite estender atribuições por formação complementar. Ela é o procedimento geral; a 241 continua sendo a resolução específica da modalidade.

Como ensaio e controle de qualidade estão entre as atividades da Resolução 218, laudos de ensaio e pareceres de análise de falha são documentos que o engenheiro de materiais assina com anotação de responsabilidade técnica. A tabela abaixo resume a base legal citada neste artigo:

AtoO que defineData
Lei nº 4.950-Asalário mínimo profissional de engenheiros22/04/1966
Resolução Confea nº 218as 18 atividades profissionais29/06/1973
Resolução Confea nº 241atribuições do engenheiro de materiais31/07/1976
Resolução CNE/CES nº 2carga horária mínima (3.600 h) e integralização (5 anos)18/06/2007
Resolução Confea nº 1.073atribuição de título e atividades pelo Crea19/04/2016
CBO 2146-05descrição oficial da ocupaçãoCBO 2002 (MTE)

Áreas de atuação e classes de materiais

O engenheiro de materiais costuma se especializar por classe de material, porque cada classe tem estrutura, processos e ensaios próprios. A UFSCar, por exemplo, oferece ênfases em cerâmicas, metais e polímeros. As classes principais são as mesmas do Callister (metais, cerâmicas, polímeros e compósitos), às quais se somam os biomateriais e os materiais para eletrônica e energia; o artigo sobre tipos de materiais detalha cada uma. A tabela abaixo liga cada classe a aplicações e ao ensaio que mais aparece no controle:

ClasseExemplosAplicaçõesEnsaio típico
Metais e ligasaços, ferros fundidos, alumínio, cobre, titânioestruturas, veículos, máquinas, implantestração, dureza, impacto, metalografia
Polímerospolietileno, polipropileno, PVC, poliamida, elastômerosembalagens, peças injetadas, solados, filmestração de plásticos, flexão, análise térmica
Cerâmicas e vidrosalumina, porcelanato, refratários, vidrorevestimentos, isolantes, fornos, telasflexão, compressão, dureza
Compósitosfibra de vidro e de carbono em resina, concretoaeronáutica, pás eólicas, construçãotração, flexão, cisalhamento interlaminar
Biomateriaistitânio, cerâmicas bioativas, polímeros biodegradáveispróteses, implantes, suturastração, compressão, fadiga

Os polímeros biodegradáveis são uma das frentes de pesquisa mais ativas da área. A indústria de transformação é a que mais emprega: siderurgia e metalurgia, petroquímica, plásticos, cerâmica, automotiva, aeroespacial, embalagens e dispositivos médicos. Fora da fábrica, há vagas em laboratórios de ensaio e certificação, institutos de pesquisa, universidades, consultoria e perícia, e no suporte técnico de fornecedores de materiais e equipamentos.

História da engenharia de materiais no Brasil

Até os anos 1960, materiais na indústria brasileira eram assunto da engenharia metalúrgica, porque os metais dominavam. Em 1970, a recém-fundada Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) criou o primeiro curso de graduação em Engenharia de Materiais da América Latina, para formar engenheiros de todas as classes de materiais. O principal mentor foi o físico e químico Sergio Mascarenhas de Oliveira, então professor da USP, e o Departamento de Engenharia de Materiais (DEMa) foi fundado em 1972.

Seis anos depois da criação do curso, a Resolução Confea nº 241/1976 fixou as atribuições do novo profissional. No texto dos 40 anos do DEMa, a Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais (SBPMat) registrava que a UFSCar já havia formado mais de 1.700 engenheiros de materiais e que o país tinha mais de 40 cursos de graduação na área; os números são dessa data e cresceram desde então.

Curso de Engenharia de Materiais: duração, grade e formação

A Resolução CNE/CES nº 2, de 18/06/2007, fixa em 3.600 horas a carga horária mínima dos bacharelados em engenharia e em 5 anos o limite mínimo de integralização para cursos de 3.600 a 4.000 horas. Na prática, o curso tem 10 semestres, como o da Escola de Engenharia de Lorena da USP (EEL-USP), que é integral e oferece 40 vagas por ano: 28 pela Fuvest, 6 pelo Enem-USP e 6 pelo Provão Paulista. O ingresso nas federais é, em geral, pelo Sisu, e a nota de corte muda a cada edição.

Os dois primeiros anos são de ciclo básico, comum às engenharias, e costumam ser a parte mais pesada da formação. A foto abaixo lembra essa fase de sala de aula, com turmas grandes de cálculo, física e química; é depois dela que o curso passa aos laboratórios de materiais.

Sala de aula de universidade com estudantes de engenharia levantando a mão durante a aula
Aula de graduação: o ciclo básico de cálculo, física e química ocupa os dois primeiros anos

Grade curricular típica

Cada instituição tem o seu projeto pedagógico, mas a sequência se repete. No ciclo básico, do 1º ao 4º semestre, entram cálculo, álgebra e geometria analítica, física teórica e experimental, química geral, inorgânica, orgânica e analítica, programação, desenho técnico, estatística e as primeiras disciplinas de ciência dos materiais. No ciclo profissional vêm termodinâmica e diagramas de fases, materiais metálicos, cerâmicos e poliméricos, compósitos, fenômenos de transporte, propriedades mecânicas dos materiais, ensaios e caracterização, tratamentos térmicos, processamento, corrosão e degradação, seleção de materiais, estágio e trabalho de conclusão de curso. As optativas dos últimos semestres direcionam o aluno para a sua ênfase.

Grade da UFSCar e da USP Lorena, semestre a semestre

As tabelas abaixo comparam, semestre a semestre, as disciplinas obrigatórias da UFSCar (em vermelho) e da USP em Lorena (em amarelo), do 1º ao 10º semestre. Elas mostram as duas escolhas de desenho do curso: a UFSCar concentra os três grandes grupos de materiais (metálicos, cerâmicos e poliméricos) já no 5º semestre e reserva o 9º para optativas, enquanto a EEL-USP distribui laboratórios integrados de engenharia de materiais ao longo do curso e deixa o 9º e o 10º semestres para o projeto final e o estágio.

Grade curricular do 1º semestre de Engenharia de Materiais da UFSCar e da USP Lorena

1º semestre

Grade curricular do 2º semestre de Engenharia de Materiais da UFSCar e da USP Lorena

2º semestre

Grade curricular do 3º semestre de Engenharia de Materiais da UFSCar e da USP Lorena

3º semestre

Grade curricular do 4º semestre de Engenharia de Materiais da UFSCar e da USP Lorena

4º semestre

Grade curricular do 5º semestre de Engenharia de Materiais da UFSCar e da USP Lorena

5º semestre

Grade curricular do 6º semestre de Engenharia de Materiais da UFSCar e da USP Lorena

6º semestre

Grade curricular do 7º semestre de Engenharia de Materiais da UFSCar e da USP Lorena

7º semestre

Grade curricular do 8º semestre de Engenharia de Materiais da UFSCar e da USP Lorena

8º semestre

Grade curricular do 9º e do 10º semestre de Engenharia de Materiais da UFSCar e da USP Lorena

9º e 10º semestres

As grades são ilustrativas e mudam com o tempo. A coluna da UFSCar confere com a matriz curricular 2005/1 que a coordenação do curso publica no seu site. A EEL-USP publica no sistema JupiterWeb uma grade nova, com início em 01/01/2027, que reorganiza o ciclo básico (Física Newtoniana, Cálculo Diferencial e Integral, Computação Científica em Python), junta Ensaios Mecânicos e Propriedades Mecânicas em Comportamento Mecânico dos Materiais, no 6º semestre, e acrescenta Fadiga e Mecânica da Fratura, Degradação e Proteção de Materiais e Análise de Falhas de Materiais e Componentes. Antes de escolher, confira o projeto pedagógico vigente de cada instituição.

Pós-graduação, EAD e leituras de referência

Egressos de outras engenharias, da física e da química podem se especializar em materiais por especialização ou por mestrado e doutorado. Há cursos a distância na área, sobretudo de pós-graduação; para a graduação EAD, confira no e-MEC a autorização e o reconhecimento e se há aulas práticas de laboratório. Como leitura, a EdUFSCar publica Engenharia de Materiais para Todos, introdutório, e a referência técnica do curso inteiro é o livro de Callister e Rethwisch.

O laboratório de ensaios na formação

É no laboratório que o tetraedro deixa de ser diagrama: o aluno processa uma amostra, observa a estrutura ao microscópio e mede a propriedade num ensaio normalizado. Os principais ensaios mecânicos e a metalografia são o núcleo desse laboratório e as mesmas ferramentas que o engenheiro usa na indústria para qualificar lote, desenvolver material e investigar falha.

Ensaios mecânicos na máquina universal

A máquina universal de ensaios aplica força com velocidade controlada, mede a força com uma célula de carga e o deslocamento pela travessa ou, com mais precisão, por um extensômetro preso ao corpo de prova. Trocando garras e dispositivos, a mesma máquina faz tração, compressão, flexão e dobramento. O ensaio de tração é o mais importante da formação: dele saem o módulo de elasticidade, o limite de escoamento, o limite de resistência e o alongamento, lidos no diagrama tensão-deformação. O funcionamento da máquina está no artigo sobre a máquina universal de ensaio.

Um exercício típico da primeira aula mostra as contas. Um corpo de prova de aço com 10,0 mm de diâmetro tem área S0 = π × 10,0² / 4 = 78,54 mm². Se ele rompe com força máxima de 31,4 kN, o limite de resistência é 31.400 N / 78,54 mm² = 399,8 MPa, cerca de 400 MPa. Se as marcas de referência estavam a 50,0 mm e ficaram a 61,0 mm depois da ruptura, o alongamento é (61,0 − 50,0) / 50,0 × 100 = 22 %. No trecho elástico, com 7,85 kN e deformação de 0,000500 medida pelo extensômetro, a tensão é 7.850 / 78,54 = 99,95 MPa e o módulo, 99,95 / 0,000500 = 199.900 MPa, ou 200 GPa, o valor que a ABNT NBR 8800 adota para o aço.

Um laboratório de ensino costuma ter as duas configurações de máquina universal. Os modelos de coluna simples, à esquerda, atendem polímeros, elastômeros, filmes e têxteis; na linha M2 da Biopdi, o modelo de coluna simples de bancada vai de 2 a 10 kN. Os de coluna dupla, à direita, atendem metais, chapas, juntas soldadas e compósitos; o primeiro modelo de coluna dupla vai de 5 a 50 kN. A imagem abaixo mostra a linha M2 completa, da menor à maior capacidade.

Linha M2 de máquinas universais de ensaios Biopdi, dos modelos de coluna simples, à esquerda, aos de coluna dupla, à direita
Linha M2 de máquinas universais Biopdi: coluna simples à esquerda e coluna dupla à direita

Os vídeos abaixo mostram dois ensaios de tração em polímeros feitos em máquinas Biopdi: o primeiro numa máquina universal de 100 kN, o segundo num fitilho de plástico reciclado. Nos dois, a travessa afasta as garras com velocidade constante, o corpo de prova alonga e afina, e o software registra a força a cada instante até a ruptura. Para um fitilho, a força de ruptura é o dado de projeto; para o engenheiro de materiais que desenvolve o composto reciclado, é a prova de que a formulação atende à especificação.

O software BioLab converte a curva força × deslocamento em tensão × deformação e calcula as propriedades. As demais capacidades, até 1.000 kN, estão na página da máquina universal de ensaios.

Dureza, impacto e fadiga

Três ensaios completam o laboratório mecânico, cada um em equipamento próprio. O ensaio de dureza (Brinell, Rockwell, Vickers e microdureza) é o controle mais rápido de tratamento térmico. O ensaio de impacto Charpy mede a energia absorvida numa fratura rápida e revela a transição dúctil-frágil dos aços. O ensaio de fadiga mede a vida sob carga cíclica, que é a causa da maior parte das falhas em serviço; para ciclos de carga, a Biopdi tem a cicladora mecânica Biocycle, e a máquina universal pode receber módulo dinâmico, sob consulta.

Metalografia

A metalografia é o vértice "estrutura" do tetraedro visto ao microscópio. A preparação segue uma sequência fixa: a amostra é cortada com disco abrasivo e refrigeração, para não aquecer e alterar a estrutura; é embutida em resina para facilitar o manuseio; é lixada em granulometrias sucessivas e polida até ficar espelhada; recebe um ataque químico que revela contornos de grão e fases; e é observada ao microscópio óptico de luz refletida. A preparação é descrita pela ASTM E3 e a medição do tamanho de grão, pela ASTM E112.

Para essa sequência, a Biopdi fabrica a cortadeira metalográfica, em versões de 600 rpm (corte em baixa velocidade) e de 1.200 rpm (alta velocidade), a politriz metalográfica para desbaste e polimento, também em 600 e 1.200 rpm, e o microscópio metalográfico trinocular, com ocular de 10X, objetivas de 20X, 40X e 100X (esta de imersão em óleo), iluminação Köhler e saída para câmera. Com a dureza e o ensaio de tração, a metalografia é o que confirma se um tratamento térmico deu o resultado esperado.

Normas do laboratório de ensaios

Os ensaios da formação seguem normas que o engenheiro vai encontrar em qualquer especificação de compra ou laudo. A tabela reúne as principais, com a edição vigente conferida em 30/09/2026:

NormaAssuntoEdição
ISO 6892-1tração de metais em temperatura ambiente2019 (ABNT NBR ISO 6892-1:2024)
ASTM E8/E8Mtração de metaisE8/E8M-25
ASTM D638tração de plásticosD638-22
ASTM E3preparação de amostras metalográficasE3-26
ASTM E112tamanho médio de grãoE112-25e1
ASTM E4calibração e verificação de força de máquinas de ensaioE4-24
ISO 7500-1verificação do sistema de força de máquinas de ensaio2018 (ABNT NBR ISO 7500-1:2023)

Onde estudar Engenharia de Materiais

Não existe ranking oficial de cursos de engenharia de materiais, e este artigo não ordena instituições por qualidade. O que existe é a situação regulatória de cada curso, que se confere no e-MEC, o cadastro oficial do Ministério da Educação:

  1. Acesse emec.mec.gov.br e escolha a consulta avançada por curso.
  2. Digite "Engenharia de Materiais" e filtre por UF, município ou modalidade (presencial ou a distância).
  3. Abra o curso e confira a situação (em atividade), o ato de autorização e de reconhecimento e os indicadores de avaliação, como o conceito de curso (CC) e o conceito preliminar (CPC).
  4. No site da instituição, leia o projeto pedagógico e a matriz curricular vigentes, e verifique os laboratórios disponíveis.

A tabela abaixo lista exemplos de instituições públicas que oferecem o curso, em ordem alfabética da sigla. A lista não é completa nem é classificação; o e-MEC é a fonte para a lista inteira, que inclui também instituições privadas, como o Mackenzie e o Centro Universitário Fundação Santo André.

InstituiçãoCidade (UF)
CEFET-MGBelo Horizonte (MG)
EEL-USP (Escola de Engenharia de Lorena)Lorena (SP)
UFABCSanto André (SP)
UFCA (Universidade Federal do Cariri)Juazeiro do Norte (CE)
UFMGBelo Horizonte (MG)
UFPB (Universidade Federal da Paraíba)João Pessoa (PB)
UFPelPelotas (RS)
UFRGSPorto Alegre (RS)
UFRJRio de Janeiro (RJ)
UFSCBlumenau (SC)
UFSCarSão Carlos (SP)
UnespGuaratinguetá (SP)
UnifeiItajubá (MG)
UnifespSão José dos Campos (SP)
UTFPRLondrina (PR)

Salário e mercado de trabalho

O dado público mais atual sobre salário vem do Novo Caged, o registro de admissões e desligamentos com carteira assinada do Ministério do Trabalho. O portal Salario.com.br compila esse dado por ocupação; para o engenheiro de materiais (CBO 2146-05), a tabela mostra a compilação atualizada em 03/09/2026, com dados de agosto de 2025 a julho de 2026:

IndicadorValor
Salário médioR$ 11.836,71 por mês, jornada média de 43 h semanais
MedianaR$ 11.352,00
Menor e maior salário da amostraR$ 3.744,46 e R$ 19.159,82
Amostra257 profissionais
Admissões e desligamentos124 e 133, saldo de −9 postos
Indicador de contratação0,93 (menos admissões que desligamentos)

Três cuidados na leitura. A amostra é de admissões e desligamentos, não de todos os empregados, e mistura recém-formados com experientes: a média não é salário de entrada. O período é móvel, e portais com outro recorte do mesmo Caged publicam médias diferentes. E o saldo negativo indica mercado estável ou em leve retração, sem escassez de profissionais; o diferencial vem da especialização e do domínio de laboratório.

Piso salarial: o que diz a Lei 4.950-A/66

A Lei nº 4.950-A, de 1966, fixa o salário mínimo profissional dos engenheiros diplomados em cursos de 4 anos ou mais. O art. 5º estabelece 6 vezes o maior salário mínimo vigente no país para a jornada de 6 horas diárias. Para jornada maior, o art. 6º manda calcular pelo mesmo valor-hora, com acréscimo de 25 % nas horas que excedem as 6 diárias. Numa jornada de 8 horas, isso dá 6 + 2 × 1,25 = 8,5 salários mínimos, que é o cálculo do manual do Confea. Os sindicatos aplicam às duas horas excedentes o adicional de 50 % da Constituição (art. 7º, XVI) e chegam a 6 + 2 × 1,5 = 9 salários mínimos.

Com o salário mínimo de 2026, de R$ 1.621, as contas ficam assim: 6 × 1.621 = R$ 9.726 para 6 horas; 8,5 × 1.621 = R$ 13.778,50 para 8 horas pelo texto da lei; e 9 × 1.621 = R$ 14.589 para 8 horas pela leitura sindical, que é o valor divulgado pelo Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (SEESP) em 05/01/2026 (o SEESP publicou R$ 9.729 para 6 horas, R$ 3 acima da conta).

Há uma ressalva que muda o valor devido. No julgamento conjunto das ADPFs 53, 149 e 171, concluído em 2022, o Supremo Tribunal Federal manteve a lei, mas proibiu a correção automática pelo salário mínimo e congelou a base de cálculo no salário mínimo vigente na publicação da ata, em 03/03/2022, que era de R$ 1.212. A partir daí, o piso de 6 horas ficou em 6 × 1.212 = R$ 7.272, valor aplicado pela Justiça do Trabalho (TST, 1ª Turma, 2024), e reajustes dependem de negociação coletiva. O piso também não se aplica a servidores públicos estatutários. Na prática, a referência é a convenção coletiva da categoria no seu estado.

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Perguntas frequentes

O que faz um engenheiro de materiais?

Seleciona, desenvolve e processa metais, polímeros, cerâmicas e compósitos, planeja e supervisiona ensaios, caracteriza produtos, analisa falhas e controla a qualidade de matérias-primas e produtos. É a descrição da CBO 2146-05, e a Resolução Confea nº 241/1976 inclui ensaio, padronização e controle de qualidade entre as suas atividades.

Qual o salário de um engenheiro de materiais?

No Caged de agosto de 2025 a julho de 2026, a média foi de R$ 11.836,71 e a mediana de R$ 11.352 por mês, com jornada média de 43 horas semanais e amostra de 257 profissionais (Salario.com.br, atualizado em 03/09/2026). A média mistura profissionais de todos os níveis e não é o salário de entrada.

Qual o piso salarial do engenheiro de materiais?

A Lei 4.950-A/66 fixa 6 salários mínimos para 6 horas diárias, com as horas excedentes acrescidas de 25 % (8,5 salários mínimos para 8 horas). Em 2022, o STF congelou a base de cálculo no salário mínimo de março de 2022 (R$ 1.212), o que dá R$ 7.272 para 6 horas. Os reajustes passaram a depender da convenção coletiva de cada estado.

Quanto tempo dura a faculdade de Engenharia de Materiais?

No mínimo 5 anos e 3.600 horas, pela Resolução CNE/CES nº 2/2007. Em geral são 10 semestres, como na EEL-USP, com estágio supervisionado e trabalho de conclusão de curso.

Quais são as 5 engenharias mais difíceis?

Não existe ranking oficial de dificuldade entre engenharias. Todas têm dois anos pesados de cálculo, física e química; a de materiais acrescenta química do estado sólido, termodinâmica de materiais e muitas horas de laboratório, o que exige gosto por química e por experimento.

Qual foi o primeiro curso de Engenharia de Materiais do Brasil?

O da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), criado em 1970, que foi também o primeiro da América Latina. O idealizador foi o professor Sergio Mascarenhas de Oliveira, e o Departamento de Engenharia de Materiais foi fundado em 1972.

Precisa de registro no Crea?

Sim. O exercício da profissão exige registro no Crea do estado, que atribui título e atividades com base no currículo cursado, conforme a Resolução Confea nº 1.073/2016. As atividades do engenheiro de materiais são as da Resolução 241/1976.

Qual a diferença entre engenharia de materiais e engenharia metalúrgica?

A metalúrgica trata dos metais, da extração ao produto siderúrgico. A de materiais cobre também polímeros, cerâmicas e compósitos. São ocupações distintas na CBO: 2146-10 (engenheiro metalurgista) e 2146-05 (engenheiro de materiais).

Existe Engenharia de Materiais EAD?

Há cursos a distância na área, principalmente de pós-graduação. Para a graduação, confira no e-MEC se o curso está autorizado e reconhecido e se o projeto pedagógico prevê as aulas práticas de laboratório, que são parte central da formação.

Quais laboratórios o curso tem?

Ensaios mecânicos em máquina universal (tração, compressão, flexão e dobramento), dureza, impacto, fadiga, metalografia (corte, embutimento, lixamento, polimento, ataque e microscopia), análise térmica e técnicas de caracterização microestrutural e química.

Onde o engenheiro de materiais trabalha?

Na indústria de transformação (siderurgia, metalurgia, petroquímica, plásticos, cerâmica, automotiva, aeroespacial, embalagens e dispositivos médicos), em laboratórios de ensaio e certificação, institutos de pesquisa, universidades, consultoria e perícia.