Revenimento do aço: o que é, temperatura, curva de dureza e fragilidade do revenido

Revenimento é o reaquecimento do aço temperado abaixo da temperatura crítica, em geral entre 150 e 650 °C, para trocar parte da dureza da martensita por tenacidade e aliviar as tensões da têmpera. Veja o que acontece na martensita, as faixas de temperatura, a curva de dureza e impacto do 4140, o parâmetro de Hollomon-Jaffe, as duas fragilidades, as cores de revenido e como conferir o resultado.

MateriaisPor Mardoqueu M. Costa
22 min de leitura

Revenimento é o reaquecimento do aço temperado a uma temperatura abaixo da crítica, em geral entre 150 e 650 °C, seguido de manutenção e resfriamento, para trocar parte da dureza da martensita por tenacidade e aliviar as tensões deixadas pela têmpera. Quanto mais alta a temperatura, menor a dureza e maior a ductilidade: o aço 4140 temperado em óleo tem cerca de 57 HRC, fica com 54,5 HRC revenido a 200 °C e com 31 HRC revenido a 650 °C (ficha Lucefin do 42CrMo4, barra de 10 mm).

O artigo segue a ordem do processo: o que muda na martensita, as faixas de temperatura e de tempo, a curva de dureza e de energia de impacto do 4140, o parâmetro de Hollomon-Jaffe, as duas faixas de fragilidade, as cores de revenido e os ensaios que conferem o resultado, com exercícios resolvidos no fim.

O que é revenimento

O revenimento só existe depois da têmpera. Na têmpera, o aço é aquecido até virar austenita, a fase de alta temperatura que dissolve o carbono, e resfriado tão depressa que o carbono não tem tempo de sair da rede cristalina. O resultado é a martensita, uma fase supersaturada de carbono, com a rede distorcida em forma tetragonal. Ela é a fase mais dura que o aço pode ter, mas é frágil e sai da têmpera cheia de tensões internas, porque se forma com aumento de volume. Uma parte da austenita pode não se transformar e ficar na peça como austenita retida, instável.

Uma peça nesse estado quebra com facilidade e pode trincar sozinha na prateleira. O revenimento resolve isso aquecendo a peça abaixo da temperatura crítica inferior, a Ac1, em que a austenita começa a se formar (cerca de 745 °C no 4140, pela ficha Lucefin). Nessa faixa não se forma austenita nova: o carbono preso na martensita ganha mobilidade, precipita como carbonetos e alivia as tensões. A dureza cai e a tenacidade sobe, e a temperatura escolhida define até onde vai essa troca.

Por isso o revenimento não pode esperar. Herring (Gear Solutions, "Getting back to basics with tempering") registra que as peças vão ao forno de revenimento, em geral, 60 a 90 minutos depois da têmpera; quando isso não é possível, faz-se um revenimento curto de segurança, a 121 °C por 2 horas por polegada de espessura, antes do revenimento definitivo. O nome em Portugal é "revenido", termo que no Brasil também designa o aço tratado ("aço temperado e revenido"). Em inglês, o processo é tempering, e o aço é quenched and tempered.

Têmpera seguida de revenimento alto, perto de 500 a 650 °C, recebe o nome de beneficiamento: é o estado de fornecimento de eixos, engrenagens e parafusos de aço de médio carbono e baixa liga, como o 1045, o 4140 e o 4340. O ciclo completo, com a austenitização, os meios de têmpera e a comparação entre as duas etapas, está no artigo da têmpera do aço. A visão de conjunto dos processos está em tratamento térmico dos metais.

O que acontece na martensita durante o revenimento

O revenimento não é uma transformação única: conforme a temperatura sobe, a martensita passa por estágios sucessivos, que Krauss (Steels: Processing, Structure, and Performance, ASM) descreve assim. As faixas se sobrepõem e dependem do teor de carbono e dos elementos de liga.

EstágioFaixa aproximadaO que ocorre
I100 a 250 °Co carbono se agrupa e precipita como carbonetos de transição (ε ou η); a martensita perde parte da distorção tetragonal
II200 a 300 °Ca austenita retida se decompõe em ferrita e cementita
III250 a 350 °Ca cementita (Fe3C) substitui os carbonetos de transição; a martensita vira ferrita com cementita
IVacima de cerca de 350 °Ca cementita coalesce e se esferoidiza; a ferrita se recupera e recristaliza; em aços com Cr, Mo, V e W formam-se carbonetos de liga

A leitura prática é a de Herring: até cerca de 200 °C a dureza quase não cai e o ganho é o alívio de tensões; entre 200 e 400 °C a cementita precipita e a austenita retida se transforma; acima de 400 °C a cementita engrossa, a dureza e a resistência caem depressa e a tenacidade sobe de forma marcante.

O último estágio tem uma exceção importante. Nos aços com muito cromo, molibdênio, vanádio ou tungstênio, como os aços-ferramenta e os aços rápidos, os carbonetos de liga que precipitam em temperatura alta, em geral 500 °C ou mais, são finos e numerosos, e a dureza volta a subir num intervalo de temperatura. Esse fenômeno é o endurecimento secundário, e é por causa dele que esses aços são revenidos em temperatura alta sem perder a dureza de trabalho.

Qual a temperatura de revenimento

A temperatura de revenimento se escolhe pela dureza final exigida, e na prática se agrupa em três faixas. Os limites variam entre autores (a Metal Paulista usa 150 a 250, 300 a 450 e 500 a 700 °C; a Wikipédia dá 150 a 600 °C como faixa geral), então devem ser lidos como aproximados. A tabela resume o que cada faixa entrega:

FaixaTemperaturaResultadoAplicações típicas
Baixa150 a 250 °Cdureza quase mantida, alívio de tensõesferramentas de corte, rolamentos, peças cementadas
Média250 a 450 °Ccompromisso entre dureza e tenacidade; exige atenção à fragilidademolas, algumas ferramentas de impacto
Alta500 a 650 °Cdureza baixa, maior tenacidade (beneficiamento)eixos, engrenagens, parafusos de alta resistência

O revenimento baixo é o das peças que precisam de dureza máxima na superfície. Na cementação, por exemplo, o aço 8620 cementado a 925 °C, temperado em óleo e revenido a 230 °C fica com 61 HRC na superfície (tabela da Açovisa). O revenimento alto é o do beneficiamento, e o limite de cima é a Ac1: passar dela forma austenita de novo, e a peça deixaria de estar revenida.

Tempo de patamar e resfriamento

A regra prática de Herring é manter a peça 1 hora por 25 mm de espessura, contada depois que o núcleo atinge a temperatura, com mínimo de 1 hora; a Wikipédia dá 1 a 3 horas como faixa usual. O tempo pesa bem menos que a temperatura, como mostra o parâmetro de Hollomon-Jaffe mais adiante. O resfriamento é em geral ao ar. Nos aços sensíveis à fragilidade ao revenido, explicada adiante, o resfriamento depois de um revenimento alto deve ser rápido, para a peça não permanecer na faixa perigosa.

Revenimento duplo e triplo em aços-ferramenta

Nos aços-ferramenta de alta liga, como o D2 e o H13, a têmpera deixa bastante austenita retida. Durante o resfriamento do primeiro revenimento, essa austenita vira martensita nova, que ainda não foi revenida e é frágil. Um segundo revenimento trata essa martensita; em alguns aços se faz um terceiro. Herring indica o segundo ciclo, em geral, cerca de 10 °C abaixo do primeiro. As durezas de partida são altas: cerca de 63 HRC no D2 e 54 HRC no H13 temperados (fichas thyssenkrupp). A temperatura e o número de ciclos saem da ficha do fabricante, que também aponta faixas a evitar: a Villares Metals recomenda não revenir o H13 entre 450 e 540 °C, por perda excessiva de tenacidade.

Curva de dureza e tenacidade do aço 4140 revenido

A melhor forma de escolher a temperatura é pela curva de revenimento do próprio aço, que o fabricante publica. Para o 4140 (42CrMo4 na designação europeia), a ficha da Lucefin dá as propriedades de uma barra de 10 mm de diâmetro temperada em óleo a 850 °C e revenida de 100 a 700 °C. O gráfico abaixo mostra duas dessas grandezas: a dureza Rockwell C e a energia de impacto Charpy KV, que mede a tenacidade ao entalhe. As faixas coloridas são as de fragilidade de Herring, tratadas na seção seguinte.

Gráfico da dureza HRC e da energia de impacto Charpy KV do aço 42CrMo4 (4140), barra de 10 mm temperada em óleo a 850 °C, em função da temperatura de revenimento de 100 a 700 °C: a dureza cai de 57 a 27 HRC, e a energia fica entre 26 e 27 J de 250 a 450 °C e sobe a 135 J a 700 °C; faixas de fragilidade da martensita revenida (250 a 400 °C) e de fragilidade ao revenido (375 a 575 °C) destacadas
Revenimento do 4140: a dureza cai sempre, mas a energia de impacto só sobe acima de 500 °C (Lucefin; faixas de Herring)

A dureza cai de forma contínua, de 57 HRC a 100 °C até 27 HRC a 700 °C, com a queda mais rápida acima de 500 °C. A energia de impacto conta outra história: fica parada em 26 a 27 J entre 250 e 450 °C e só sobe a partir de 500 °C, chegando a 75 J a 600 °C e a 135 J a 700 °C. Entre 250 e 450 °C o aço perde dureza e não ganha tenacidade, que é exatamente a assinatura das faixas de fragilidade. A tabela traz os 13 pontos da ficha:

Revenimento (°C)Dureza (HRC)Rm (MPa)KV (J)
100572.20024
15056,52.18027
20054,52.03028
25052,51.91027
300511.80026
350491.70026
400471.59026
450451.48027
500421.35031
550391.22042
600361.10075
65031980114
70027880135

A resistência mecânica segue a dureza. O gráfico abaixo, com os mesmos dados da Lucefin, mostra que a resistência à tração Rm cai de 2.200 para 880 MPa, o limite de escoamento Rp0,2 tem um máximo de 1.620 MPa a 200 °C antes de cair para 710 MPa a 700 °C, e o alongamento sobe de 7 % para 21,5 %. É a troca de resistência por ductilidade que define o revenimento.

Gráfico da resistência à tração Rm, do limite de escoamento Rp0,2 e do alongamento do aço 42CrMo4 (4140), barra de 10 mm temperada em óleo a 850 °C, em função da temperatura de revenimento: Rm cai de 2.200 a 880 MPa, Rp0,2 passa por 1.620 MPa a 200 °C e cai a 710 MPa a 700 °C, e o alongamento sobe de 7 % para 21,5 %
Revenimento do 4140: resistência e escoamento caem, alongamento sobe (Lucefin, barra de 10 mm)

Esses números valem para a barra de 10 mm. Numa peça grossa o núcleo não chega a ficar todo martensítico na têmpera e, depois do revenimento, a dureza e a resistência ficam abaixo das da tabela. É por isso que outras compilações dão valores diferentes para o mesmo aço: o ASM Handbook, citado pela UTEC e usado no artigo sobre dureza dos materiais, dá 52 a 54 HRC a 205 °C e 26 a 30 HRC a 650 °C. A tabela de Callister (apêndice B), para o 4140 temperado em óleo e revenido a 315 °C, dá 1.570 MPa de escoamento e 1.720 MPa de Rm, coerente com a curva da Lucefin nessa temperatura. A curva serve para escolher a temperatura; a dureza de cada lote se confirma na peça.

Parâmetro de Hollomon-Jaffe: tempo e temperatura

Temperatura e tempo agem juntos no revenimento: um revenimento curto numa temperatura mais alta dá a mesma dureza que um revenimento longo numa temperatura mais baixa. Hollomon e Jaffe (Transactions AIME, v. 162, 1945) reuniram os dois num único número:

  • P = T · (C + log t), com T em kelvin, t em horas e log na base 10;
  • C é uma constante do aço, que diminui com o teor de carbono: cerca de 19,5 nos aços com 0,25 a 0,4 % de carbono e cerca de 15 nos aços-ferramenta com 0,9 a 1,2 %; na prática usa-se muitas vezes C = 20;
  • o mesmo P dá, para um mesmo aço, aproximadamente a mesma dureza revenida.

Como o tempo entra em logaritmo, ele pesa muito menos que a temperatura. Um exemplo com C = 20: um lote revenido a 540 °C por 2 h tem P = 813,15 × (20 + 0,301) = 16.508. Para repetir esse P a 565 °C (838,15 K), 20 + log t = 16.508 / 838,15 = 19,696, log t = −0,304 e t = 0,50 h. Trinta minutos a 565 °C equivalem a duas horas a 540 °C: 25 °C a mais valem quatro vezes menos tempo. O parâmetro é uma aproximação: não vale sem calibração nos aços com endurecimento secundário, e a constante C precisa ser a do aço em questão.

Fragilidade no revenimento

A curva do 4140 mostrou que revenir mais quente nem sempre dá mais tenacidade. Há duas faixas de temperatura em que o aço revenido fica frágil, por mecanismos diferentes. Muitos textos em português chamam as duas de "fragilidade do revenido", mas elas têm causas, faixas e remédios distintos.

Fragilidade da martensita revenida

A fragilidade da martensita revenida, conhecida em inglês como tempered martensite embrittlement (TME) ou "fragilidade a 350 °C", ocorre com revenimento entre cerca de 250 e 400 °C (Herring, "Embrittlement of Steel", Industrial Heating). Nessa faixa, a austenita retida se decompõe e a cementita precipita em filmes finos nos contornos dos cristais de martensita e dos grãos, caminhos por onde a trinca passa com pouca energia. O efeito é irreversível: a peça revenida nessa faixa precisa ser temperada de novo. A regra é não revenir nela peças sujeitas a impacto; para o 4340, a GGD Metals recomenda não revenir entre 230 e 370 °C.

Fragilidade ao revenido

A fragilidade ao revenido (temper embrittlement, TE) aparece quando o aço é mantido ou resfriado lentamente entre cerca de 375 e 575 °C (Herring). A causa é a segregação de impurezas, principalmente fósforo, antimônio, estanho e arsênio, para os contornos dos grãos austeníticos anteriores, que passam a romper de forma intergranular. Cromo, níquel e manganês intensificam o efeito. Ao contrário da primeira, ela é reversível: revenir de novo acima de 575 °C e resfriar rápido devolve a tenacidade. A Total Materia registra ainda que 0,2 a 0,3 % de molibdênio atenua a fragilidade ao revenido, e que teores maiores voltam a piorá-la. A tabela compara as duas:

CaracterísticaMartensita revenida (TME)Fragilidade ao revenido (TE)
Faixa (Herring)cerca de 250 a 400 °Ccerca de 375 a 575 °C
Causafilmes de cementita nos contornosP, Sb, Sn e As segregados nos contornos
Reversível?nãosim: revenir acima de 575 °C e resfriar rápido
Prevençãonão revenir na faixa peças sob impactoaço limpo, resfriamento rápido, Mo de 0,2 a 0,3 %
Como aparece no ensaioqueda da energia Charpy à temperatura ambienteaumento da temperatura de transição dúctil-frágil

Nenhuma das duas aparece no durômetro: a dureza sai dentro da especificação e a peça está frágil. Quem as revela é o ensaio de impacto Charpy. A fragilidade da martensita revenida se vê como energia baixa à temperatura ambiente, como os 26 J do 4140 entre 300 e 400 °C. A fragilidade ao revenido se vê melhor na curva de energia em função da temperatura de ensaio, que se desloca para a direita: a temperatura de transição dúctil-frágil sobe. O conceito de energia absorvida está no artigo sobre tenacidade.

Cores de revenido

Uma superfície de aço limpa e lixada, aquecida ao ar, cobre-se de uma película muito fina de óxido cuja espessura cresce com a temperatura. A luz refletida nas duas faces da película produz cores de interferência, e os ferreiros e ferramenteiros usavam essas cores para saber quando parar o aquecimento. Na foto, seis talhadeiras de aço temperado revenidas em temperaturas diferentes: a película vai do amarelo-palha, perto de 205 °C, ao azul-claro, perto de 340 °C, passando pelo marrom e pelo roxo, e por isso as cores serviam de termômetro na oficina.

Seis talhadeiras de aço temperado lado a lado, cada uma com uma cor de óxido diferente, de amarelo-palha a azul
Cores de revenido: a película de óxido muda de amarelo-palha a azul conforme a temperatura

A tabela tradicional, reproduzida pela Wikipédia em inglês ("Tempering (metallurgy)"), associa cada cor a uma temperatura e a um uso de oficina:

CorTemperaturaUso tradicional
Amarelo-claro176 °Cburis, navalhas, raspadores
Palha-claro205 °Cbrocas de rocha, alargadores, serras para metal
Palha-escuro226 °Criscadores, lâminas de plaina
Marrom260 °Cmachos, cossinetes, brocas, martelos, talhadeiras
Roxo282 °Cinstrumentos cirúrgicos, punções
Azul-escuro310 °Cchaves de fenda e de boca
Azul-claro337 °Cmolas, serras para madeira
Cinza-azulado371 °C ou maisaço estrutural

A cor é um indicador grosseiro. Ela depende também do tempo de aquecimento, do acabamento e da atmosfera, e um forno com atmosfera protetora ou a vácuo não produz cor nenhuma. Serve na forja e na afiação; em produção, o controle é feito com termopar no forno e com ensaio de dureza na peça.

Revenimento e recozimento: a diferença

Os dois reaquecem o aço, mas em pontos opostos do processo. O revenimento vem sempre depois da têmpera, fica abaixo da Ac1 e ajusta a dureza da martensita. O recozimento pleno aquece o aço acima da temperatura crítica, forma austenita e resfria devagar dentro do forno, para amolecer o material antes da usinagem ou da conformação. A normalização também austenitiza, mas resfria ao ar; a comparação entre recozimento, normalização e têmpera está no artigo da normalização.

Como conferir o revenimento: dureza, impacto, tração e metalografia

O revenimento se especifica pelo resultado, por exemplo "4140 temperado e revenido, 28 a 32 HRC", e se aceita por ensaio. São quatro verificações, da mais rápida à mais completa.

  • Dureza: é o controle de todo lote. Mede-se em Rockwell C (ISO 6508-1 ou ASTM E18) na peça ou num corpo de prova testemunha que passou pelo forno junto, e compara-se com a faixa especificada. O procedimento está no artigo ensaio de dureza, que também traz o perfil de microdureza usado nas peças cementadas.
  • Impacto Charpy: é o único dos quatro que revela as duas fragilidades, porque a dureza pode estar certa e a peça frágil. Para peças sujeitas a choque, a especificação traz a energia mínima e a temperatura de ensaio.
  • Tração: dá Rm, Rp0,2 e alongamento, os valores de projeto. Um corpo de prova usinado da peça ou do testemunho é ensaiado numa máquina universal com extensômetro, conforme a ISO 6892-1 ou a ASTM E8/E8M, e o resultado se compara com a curva do aço, como no exercício 4.
  • Metalografia: mostra a martensita revenida, os carbonetos, a eventual austenita retida e a descarbonetação da superfície. A amostra passa pela cortadeira metalográfica, pela politriz metalográfica e pelo microscópio metalográfico.

No ensaio de tração, a capacidade da máquina se escolhe pela força máxima prevista, e o aço revenido baixo pede força alta: um corpo de prova de 10 mm de diâmetro de 4140 revenido a 200 °C, com Rm de 2.030 MPa, rompe perto de 160 kN. A máquina universal de ensaios Biopdi da linha M2 é eletromecânica, vai de 200 N a 1.000 kN e traz células de carga classe 1 e extensômetros. Para aços beneficiados, o modelo de coluna dupla de 100 a 200 kN (MBIOII-200-M2) cobre a maior parte dos corpos de prova, e o software BioLab traça o diagrama tensão-deformação e calcula Rp0,2, Rm e alongamento no relatório. A máquina atende à NR-10 e à NR-12, com botão de emergência no painel e parada automática por perda de comunicação.

Exercícios resolvidos

Os exercícios usam os dados da Lucefin para o 4140 e as regras apresentadas nas seções anteriores.

Exercício 1: temperatura para 40 HRC num eixo de 4140

Um eixo de 4140, temperado em óleo, precisa de 40 HRC. Qual temperatura de revenimento usar, e que cuidado tomar?

  1. Na tabela, 500 °C dá 42 HRC e 550 °C dá 39 HRC; 40 HRC fica entre as duas.
  2. Interpolando: T = 500 + (42 − 40) / (42 − 39) × 50 = 500 + 33 = cerca de 530 °C.
  3. Risco: 530 °C está acima da fragilidade da martensita revenida, mas dentro da faixa de fragilidade ao revenido (375 a 575 °C). O resfriamento depois do patamar deve ser rápido, e a energia de impacto deve ser conferida se o eixo sofre choque. Pela ficha, a 550 °C a energia já é de 42 J, contra 26 J a 400 °C.
  4. Os dados são de barra de 10 mm. Num eixo mais grosso a dureza sai menor na mesma temperatura, então a temperatura final se ajusta com a dureza medida no primeiro lote.

Exercício 2: tempo de patamar

Qual o tempo de patamar de um eixo de 4140 com 75 mm de diâmetro?

  1. Regra de Herring: 1 h por 25 mm de espessura.
  2. t = 75 / 25 × 1 h = 3 h, contadas depois que o núcleo atinge a temperatura de revenimento.

Exercício 3: Hollomon-Jaffe com C = 19,5

Um revenimento a 480 °C por 1 h precisa ser refeito num forno que só aceita ciclos de 4 h. Que temperatura dá o mesmo P, com C = 19,5?

  1. T1 = 480 + 273,15 = 753,15 K; P = 753,15 × (19,5 + log 1) = 753,15 × 19,5 = 14.686.
  2. Para 4 h: 19,5 + log 4 = 19,5 + 0,602 = 20,102.
  3. T2 = 14.686 / 20,102 = 730,6 K = cerca de 457 °C.
  4. Quadruplicar o tempo equivale a baixar só 23 °C na temperatura.

Exercício 4: ensaio de tração do 4140 revenido a 550 °C

Um corpo de prova de 4140 revenido a 550 °C, com d0 = 8 mm e L0 = 40 mm (5 d0), registra na máquina Fp0,2 = 55,8 kN e Fmáx = 61,3 kN; depois da ruptura, Lf = 45,4 mm. O revenimento está correto?

  1. S0 = π × 4² = 50,27 mm².
  2. Rp0,2 = 55.800 / 50,27 = 1.110 MPa; Rm = 61.300 / 50,27 = 1.219 MPa.
  3. Alongamento A = (45,4 − 40) / 40 × 100 = 13,5 %.
  4. A ficha da Lucefin dá 1.110 MPa, 1.220 MPa e 13,5 % a 550 °C: o resultado confere. Com cerca de 61 kN de força máxima, uma máquina de 50 kN não rompe o corpo de prova; o escoamento exige extensômetro, pelo método do deslocamento de 0,2 %.

Normas ligadas ao revenimento

Não há norma que fixe a temperatura de revenimento de cada aço: ela vem da ficha do fabricante e da especificação do projeto. As normas tratam do aço fornecido para têmpera e revenimento e dos ensaios que conferem o resultado. A tabela reúne as citadas neste artigo:

NormaO que trataEdição
ISO 683-2aços ligados para têmpera e revenimento, inclusive o 42CrMo4 (equivalente ao 4140)2016
ISO 6508-1dureza Rockwell, método de ensaio2023
ASTM E18dureza Rockwell e Rockwell superficialE18-25
ISO 148-1ensaio de impacto Charpy em metais2016
ABNT NBR ISO 148-1ensaio de impacto Charpy em metais2021
ASTM E23ensaio de impacto em barra entalhada (Charpy e Izod)não indicada
ISO 6892-1ensaio de tração de metais à temperatura ambiente2019
ABNT NBR ISO 6892-1ensaio de tração de metais à temperatura ambiente2024
ASTM E8/E8Mensaio de tração de metaisE8/E8M-25
ASTM A255temperabilidade Jominy: serve para escolher o aço, não trata do revenimentonão indicada

Outros ensaios e referências técnicas

Recozimento do aço: o que é, tipos, temperaturas e efeitos nas propriedades

Recozimento é o tratamento térmico que aquece o metal, mantém a temperatura e resfria devagar, em geral dentro do forno, para reduzir a dureza e as tensões internas e recuperar a ductilidade e a usinabilidade. No aço, o recozimento pleno austenitiza cerca de 30 a 50 °C acima de Ac3, e os tipos subcríticos ficam abaixo de Ac1 (alívio de tensões de 550 a 650 °C, esferoidização de 700 a 720 °C). Veja os tipos, as temperaturas, a microestrutura, os efeitos com números e como conferir o resultado.

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Têmpera do aço: o que é, temperatura, meios de resfriamento, tipos e ciclo com revenimento

Têmpera do aço é aquecer a peça até formar austenita, em geral 30 a 50 °C acima de Ac3, e resfriá-la rápido em água, óleo, polímero ou gás para formar martensita. O carbono define a dureza máxima e a liga define a profundidade temperada. Veja temperaturas por aço (1045 a 820 a 850 °C), a severidade H de Grossmann, martensita e Ms, Jominy, tipos de têmpera, inox, trincas e o ciclo com revenimento.

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Normalização do aço (tratamento térmico): temperatura, resfriamento ao ar e diferença para o recozimento e a têmpera

Normalização do aço é o tratamento térmico em que o aço é aquecido acima da temperatura crítica superior (Ac3, ou Acm no aço hipereutetoide), mantido até virar austenita e resfriado ao ar calmo. O resultado é grão refinado e perlita fina, com mais resistência que no recozido e muito menos dureza que no temperado. No aço 1045, normaliza-se a cerca de 850 a 880 °C.

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Cementação do aço: o que é, tipos, temperatura, profundidade de camada e controle

Cementação é o tratamento termoquímico que enriquece de carbono a superfície de um aço de baixo carbono, em geral entre 900 e 930 °C, antes da têmpera e do revenimento. A peça fica com superfície de 58 a 62 HRC e núcleo tenaz. Veja os tipos (gasosa, sólida, líquida e a vácuo), a fórmula de Harris para o tempo (cerca de 0,63·√t mm a 925 °C), os aços usados, a profundidade efetiva de camada a 550 HV pela ISO 18203:2026, os defeitos e exercícios resolvidos.

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Perguntas frequentes

O que é revenimento?

É o tratamento térmico feito logo depois da têmpera: o aço é reaquecido abaixo da temperatura crítica, em geral entre 150 e 650 °C, mantido cerca de 1 hora por 25 mm de espessura e resfriado, geralmente ao ar. A martensita frágil vira martensita revenida, as tensões da têmpera são aliviadas e parte da dureza é trocada por tenacidade.

Qual a temperatura para revenimento?

Depende da dureza desejada. De forma aproximada: 150 a 250 °C para manter a dureza e aliviar tensões (ferramentas, peças cementadas), 250 a 450 °C para o compromisso de molas e 500 a 650 °C para o beneficiamento de eixos e parafusos. No 4140, 200 °C dá 54,5 HRC e 600 °C dá 36 HRC (Lucefin, barra de 10 mm).

Por que o revenimento é feito depois da têmpera?

Porque a martensita da têmpera é dura, frágil e cheia de tensões internas, e a peça pode trincar mesmo parada. O revenimento precipita o carbono como carbonetos e alivia as tensões. Por isso a peça deve ir ao forno de revenimento em até 60 a 90 minutos depois da têmpera (Herring).

Quanto tempo dura o revenimento?

A regra prática é 1 hora por 25 mm de espessura, com mínimo de 1 hora, contada depois que o núcleo atinge a temperatura. Um eixo de 75 mm fica 3 horas no patamar. Aços-ferramenta de alta liga recebem dois ou três ciclos.

Qual a diferença entre revenimento e recozimento?

O revenimento vem depois da têmpera e fica abaixo da temperatura crítica, para ajustar a dureza da martensita. O recozimento aquece o aço acima da temperatura crítica e resfria devagar no forno, para amolecê-lo antes da usinagem ou da conformação.

O revenimento diminui a resistência do aço?

Sim. No 4140 de 10 mm, a resistência à tração cai de 2.030 MPa, revenido a 200 °C, para 1.100 MPa a 600 °C, enquanto o alongamento sobe de 9,5 % para 15,8 % e a energia de impacto de 28 J para 75 J (Lucefin). A troca de resistência por tenacidade é o objetivo do processo.

O que é fragilidade ao revenido?

É a perda de tenacidade do aço mantido ou resfriado devagar entre cerca de 375 e 575 °C, causada por fósforo, antimônio, estanho e arsênio segregados nos contornos de grão. É reversível: revenir acima de 575 °C e resfriar rápido. Diferente dela, a fragilidade da martensita revenida, entre cerca de 250 e 400 °C, é irreversível (Herring).

O que é revenimento duplo?

É repetir o revenimento para tratar a martensita nova que se forma da austenita retida durante o resfriamento do primeiro ciclo. É usado em aços-ferramenta de alta liga, como D2, H13 e aços rápidos; o segundo ciclo costuma ficar cerca de 10 °C abaixo do primeiro.

Para que servem as cores de revenido?

São películas finas de óxido que indicam a temperatura de forma aproximada: palha-claro perto de 205 °C, marrom perto de 260 °C e azul-escuro perto de 310 °C. Servem na forja e na afiação, mas não substituem o termopar e o ensaio de dureza, porque dependem também do tempo e da atmosfera.

Como saber se o revenimento foi bem feito?

Medindo a dureza Rockwell C da peça ou de um testemunho e comparando com a especificação. Em peças críticas, somam-se o ensaio de impacto Charpy, que revela as fragilidades que a dureza não mostra, o ensaio de tração, que dá os valores de projeto, e a metalografia da microestrutura.