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Encruamento: o que é, mecanismo, lei de Hollomon (expoente n), recozimento e como medir

Encruamento é o endurecimento de um metal por deformação plástica a frio: sobem o escoamento, a resistência e a dureza, cai a ductilidade e o módulo de elasticidade não muda. Veja o mecanismo das discordâncias, o grau de trabalho a frio (%TF), a lei de Hollomon e o expoente n, a medição pela ISO 10275 e pela ASTM E646, o recozimento e exercícios resolvidos.

Propriedades MecânicasPor Mardoqueu M. Costa28 min de leitura

Encruamento é o fenômeno metalúrgico em que um metal se torna mais duro e resistente após sofrer uma deformação plástica a frio. A deformação multiplica as discordâncias, defeitos lineares do cristal, que passam a travar umas às outras; com isso sobem o limite de escoamento, o limite de resistência e a dureza, e cai a ductilidade. O módulo de elasticidade não muda.

O encruamento se quantifica pelo grau de trabalho a frio (%TF), a redução percentual de área que a peça sofreu, e pelo expoente de encruamento n da lei de Hollomon, medido em ensaio de tração pela ISO 10275:2020 ou pela ASTM E646-16(2024). O artigo vai do mecanismo à medição, ao recozimento e a exercícios resolvidos.

O que é encruamento

Acima do limite de escoamento, parte da deformação de um metal deixa de ser recuperável: é a deformação plástica. Nos metais dúcteis, quanto mais o metal é deformado, mais tensão é preciso para deformá-lo um pouco mais. Esse aumento da resistência à deformação plástica, causado pela própria deformação, é o encruamento, também chamado de endurecimento por deformação ou trabalho a frio (em inglês, strain hardening ou work hardening; Callister e Rethwisch, Ciência e Engenharia de Materiais, cap. 7).

Na foto, bobinas de arame de aço trefilado e uma bobina de tira laminada a frio: a trefilação e a laminação a frio são os processos em que o encruamento aumenta a resistência do produto.

Encruamento do aço: bobinas de arame de aço trefilado e uma bobina de tira de aço laminada a frio
Bobinas de arame trefilado e de tira laminada a frio, produtos encruados

O "frio" do nome não se refere à temperatura ambiente, e sim à temperatura de recristalização do metal, aquela em que ele forma grãos novos e perde o encruamento (assunto da seção sobre recozimento). Deformar abaixo dela é trabalho a frio, e o encruamento se acumula; deformar acima dela é trabalho a quente, e o encruamento é desfeito à medida que se forma. Para o chumbo e o estanho, que recristalizam perto da temperatura ambiente (Callister, Tabela 7.2), deformar a 20 °C já é trabalho a quente, e por isso eles praticamente não encruam em uso.

Um clipe dobrado várias vezes no mesmo ponto fica mais duro a cada dobra e acaba trincando. Na indústria o efeito é usado de propósito. O aço AISI 1020 laminado a quente tem escoamento típico de 205 MPa, Rm de 380 MPa e alongamento de 25 %; trefilado a frio, passa a 350 MPa de escoamento e 420 MPa de Rm, com alongamento de cerca de 15 % (valores típicos da tabela ASM). O escoamento subiu 71 %, a resistência 11 %, e a ductilidade caiu: é a troca que todo encruamento faz. No diagrama tensão-deformação, o encruamento é o trecho entre o fim do escoamento e o limite de resistência, em que a curva sobe porque o metal endurece enquanto se deforma.

Por que o metal endurece: o papel das discordâncias

Um cristal metálico real contém discordâncias, defeitos lineares em que uma fileira de átomos fica fora do lugar. A deformação plástica dos metais acontece por escorregamento, o deslizamento de planos de átomos, e ele não ocorre de uma vez: avança pelo movimento das discordâncias, que rompem e refazem poucas ligações por vez. A teoria foi proposta em 1934, de forma independente, por G. I. Taylor, E. Orowan e M. Polanyi.

O encruamento nasce do próprio escorregamento: as discordâncias se multiplicam enquanto se movem. As novas vêm das existentes, dos contornos de grão e de irregularidades da superfície, e a distância média entre elas diminui. Cada uma distorce a rede ao redor, e esses campos se repelem, se cruzam e se emaranham. Mover uma discordância através do emaranhado exige mais tensão, e por isso o escoamento sobe conforme o metal se deforma.

A tabela abaixo dá a ordem de grandeza, em comprimento de discordâncias por unidade de volume (Callister e Rethwisch): a deformação intensa multiplica a densidade por um milhão ou mais, e o tratamento térmico desfaz boa parte disso.

Estado do metalDensidade (mm⁻²)Densidade (cm⁻²)
Cristal cuidadosamente solidificadocerca de 10³cerca de 10⁵
Metal muito deformado10⁹ a 10¹⁰10¹¹ a 10¹²
Metal deformado e depois tratado termicamente10⁵ a 10⁶10⁷ a 10⁸

O encruamento é um dos quatro mecanismos clássicos de endurecimento dos metais, todos baseados em dificultar o movimento das discordâncias; os outros são a redução do tamanho de grão, a solução sólida e a precipitação. O que o distingue é que basta deformar a peça, sem mudar a composição nem aquecer. Ele também não se confunde com a têmpera, que endurece o aço por resfriamento rápido e formação de martensita. A visão de conjunto das propriedades está em propriedades mecânicas dos materiais.

O mecanismo explica também por que o encruamento é um fenômeno dos metais. Nas cerâmicas as discordâncias praticamente não se movem à temperatura ambiente, e elas rompem sem deformação plástica. Nos polímeros há endurecimento sob grande deformação, mas por outro mecanismo: a orientação das cadeias moleculares.

O que o encruamento muda nas propriedades

O encruamento sobe todas as propriedades ligadas ao início e à continuação da deformação plástica. O limite de escoamento é o que mais sobe, porque é exatamente a tensão necessária para mover as discordâncias. O limite de resistência à tração também sobe, em proporção menor, como no 1020 trefilado. A dureza, que é resistência à deformação plástica localizada, acompanha o escoamento. No aço de baixo carbono, o patamar de escoamento em geral desaparece.

O preço é a ductilidade. O alongamento e a redução de área caem, porque o metal já gastou parte da deformação plástica que suportaria antes de romper, e a tenacidade em tração cai quando essa perda pesa mais que o ganho de resistência. Um metal muito encruado não aceita nova conformação sem trincar.

O que não muda é o módulo de elasticidade. O módulo depende das ligações entre os átomos, e o encruamento só muda a quantidade de defeitos. Por isso é errado dizer que o metal encruado fica "mais rígido": ele fica mais resistente e mais duro, com a mesma rigidez. Em menor escala, a resistividade elétrica sobe um pouco, e o metal passa a guardar energia de deformação e tensões residuais. Essa energia é a força motriz da recristalização, e são as tensões residuais, não a perda de ductilidade, que podem favorecer a corrosão sob tensão. A tabela resume os efeitos:

PropriedadeEfeito do encruamentoMotivo
Limite de escoamento (Re, Rp0,2)sobe muitomais tensão para mover discordâncias emaranhadas
Limite de resistência (Rm)sobemesmo mecanismo, em proporção menor
Durezasoberesistência à deformação plástica localizada
Alongamento e redução de áreacaemparte da capacidade de deformar já foi usada
Módulo de elasticidade Enão mudadepende das ligações atômicas, não dos defeitos
Resistividade elétricasobe um poucodiscordâncias espalham os elétrons
Energia armazenada e tensões residuaissobemdistorção da rede em torno das discordâncias

O encruamento visto no ensaio de tração: descarga e recarga

O ensaio de tração mostra o encruamento diretamente. Descarregado no meio do trecho plástico, o corpo de prova desce por uma reta paralela ao trecho elástico, com a mesma inclinação E, e fica com deformação permanente. Recarregado, sobe pela mesma reta e só volta a escoar na tensão em que foi descarregado.

O gráfico abaixo mostra isso num aço de baixo carbono recozido. A curva foi calculada em tensão e deformação verdadeiras pela lei de Hollomon, com K = 600 MPa e n = 0,21 de Callister; as duas coisas são explicadas na seção sobre a lei de Hollomon, e aqui basta ler a forma da curva. O metal recozido escoa em cerca de 163 MPa. Descarregado com 10 % de deformação plástica, em 370 MPa, fica com 10 % de alongamento permanente e, na recarga, só escoa de novo em 370 MPa: o escoamento mais que dobrou, e a reta de descarga paralela ao trecho elástico mostra que o módulo não mudou.

Curva tensão verdadeira × deformação verdadeira de um aço de baixo carbono recozido pela lei de Hollomon, K de 600 MPa e n de 0,21: escoamento inicial Rp0,2 de cerca de 163 MPa, descarga em deformação plástica de 0,10 e 370 MPa por uma reta paralela ao trecho elástico, 10 % de deformação permanente, 428 MPa em 0,20 e início da estricção em εv igual a n, 432 MPa
Encruamento visto no ensaio: descarregado em 370 MPa, o aço recozido só volta a escoar em 370 MPa, e a descarga segue o mesmo módulo E

Numa peça conformada a frio, a laminação ou a trefilação fazem o papel da primeira carga, e a peça pronta escoa no nível em que a conformação parou. Uma ressalva: o metal encruado em tração escoa com tensão menor se a carga for invertida para compressão. É o efeito Bauschinger, que importa em carregamento alternado.

Grau de trabalho a frio (%TF)

Na indústria, a quantidade de encruamento de uma peça conformada se expressa pelo grau de trabalho a frio, a redução percentual da área da seção transversal:

  • Fórmula geral: %TF = (A0 − Ad) / A0 × 100, com A0 a área original e Ad a área depois da deformação (Callister, Eq. 7.8).
  • Barra ou fio redondo: %TF = (d0² − dd²) / d0² × 100, porque a área é proporcional ao quadrado do diâmetro.
  • Chapa laminada com largura constante: %TF = (t0 − td) / t0 × 100, porque a área é proporcional à espessura.

O erro mais comum é aplicar a fórmula aos diâmetros: uma barra trefilada de 15,2 para 12,2 mm tem 35,6 %TF, e a conta com diâmetros daria 19,7 % (exercício 1).

Para cada liga, curvas levantadas em ensaio ligam o %TF às propriedades: o escoamento e o Rm sobem, e o alongamento cai depressa já nos primeiros graus de trabalho a frio. Callister e Rethwisch as apresentam para o aço 1040, o latão e o cobre (Fig. 7.19); o cobre com 35,6 %TF passa a ter Rm de cerca de 340 MPa e alongamento de cerca de 7 %. É por essas curvas que o %TF especifica a condição de fornecimento de um produto trabalhado a frio.

Lei de Hollomon e expoente de encruamento n

O %TF diz quanto uma peça foi deformada, não quanto o material endurece a cada incremento de deformação. Essa informação é uma propriedade do material, o expoente de encruamento n, e sai da curva do ensaio de tração.

Tensão e deformação verdadeiras

A lei de Hollomon usa a curva verdadeira: a tensão σv divide a força pela área instantânea, e a deformação εv = ln(L / L0) soma os alongamentos divididos pelo comprimento de cada instante. Como a deformação plástica não muda o volume, as duas saem da curva de engenharia enquanto a deformação é uniforme: σv = R·(1 + e) e εv = ln(1 + e), com R a tensão de engenharia e e a deformação de engenharia. As conversões só valem até a força máxima, onde começa a estricção; a comparação entre as duas curvas está no artigo do diagrama tensão-deformação.

A equação de Hollomon

Em 1945, J. H. Hollomon ("Tensile Deformation", Transactions of the AIME, v. 162, p. 268-290) propôs descrever a curva verdadeira no trecho plástico uniforme por σv = K·εvn, simplificando a lei de potência que Ludwik havia publicado em 1909. Os dois parâmetros têm significado físico:

  • n, expoente de encruamento: adimensional, entre 0 e 1. Com n = 0 o material escoaria sem endurecer; com n = 1, a tensão cresceria em proporção à deformação. A maioria dos metais fica entre 0,10 e 0,50, e quanto maior o n, mais o metal endurece ao se deformar.
  • K, coeficiente de resistência: em MPa, é a tensão verdadeira que a lei daria em εv = 1. Não se atinge no ensaio: indica o nível de resistência da curva.

Com logaritmos, a lei vira uma reta de inclinação n: ln σv = ln K + n·ln εv. É a forma que as normas usam para medir o n, e com dois pontos da curva verdadeira já se estima o expoente: n = ln(σ2/σ1) / ln(ε2/ε1). A tabela reúne essas fórmulas e a do %TF:

GrandezaFórmulaObservação
Grau de trabalho a frio%TF = (A0 − Ad) / A0 × 100usar áreas, não diâmetros
Tensão verdadeiraσv = R·(1 + e)válida até a força máxima
Deformação verdadeiraεv = ln(1 + e)válida até a força máxima
Lei de Hollomonσv = K·εvnK em MPa, n adimensional
Forma logarítmicaln σv = ln K + n·ln εvn é a inclinação da reta
n de dois pontosn = ln(σ2/σ1) / ln(ε2/ε1)pontos no regime uniforme

Valores de n e K por material

O n e o K dependem do material e da condição dele. A tabela traz os valores de Callister (Fundamentals of Materials Science and Engineering, 2ª ed., 2005):

MaterialCondiçãonK (MPa)
Aço de baixo carbonorecozido0,21600
Aço-liga 4340revenido a 315 °C0,122.650
Aço inoxidável 304recozido0,43 a 0,451.400
Cobrerecozido0,44530
Latão navalrecozido0,21585
Liga de alumínio 2024T30,17780
Liga de magnésio AZ31Brecozida0,16450

O gráfico abaixo põe quatro desses materiais em escala log-log: cada reta tem a inclinação do seu n, o quadrado em εv = 1 marca o K, o círculo marca o fim do regime uniforme (critério de Considère, a seguir) e a faixa verde é a faixa de ajuste de 10 % a 20 % usada na medição. Ele desfaz uma confusão comum: o cobre recozido tem o maior n e a menor tensão do gráfico. O n diz quanto o metal ganha de resistência ao se deformar, e o nível de tensão vem do K; o aço 4340 revenido, com o menor n, é o mais resistente.

Encruamento de metais: lei de Hollomon em escala log-log para quatro materiais da tabela de Callister: aço 4340 revenido a 315 °C (n 0,12, K 2.650 MPa), liga de alumínio 2024-T3 (n 0,17, K 780 MPa), aço de baixo carbono recozido (n 0,21, K 600 MPa) e cobre recozido (n 0,44, K 530 MPa), com a faixa de ajuste de 10 % a 20 % destacada
Na escala log-log a lei de Hollomon vira reta: a inclinação é o n, e o valor em εv = 1 é o K

Outras compilações dão números diferentes. Uma tabela que reúne Kalpakjian e o ASM Handbook traz n = 0,26 e K = 530 MPa para o aço de baixo carbono recozido, n = 0,54 para o cobre recozido e n = 0,45 para o inox 304 recozido (para o inox, as edições de Callister variam entre 0,43 e 0,45). Não é erro: n e K dependem da composição, do tamanho de grão, da faixa de ajuste e de a deformação ser total ou plástica, e só são comparáveis com a condição e a faixa declaradas. A mesma compilação mostra o ponto mais importante para a conformação: o aço de baixo carbono trabalhado a frio tem n de cerca de 0,08, contra 0,26 no recozido. O metal encruado já gastou boa parte da capacidade de encruar. Há também um padrão por estrutura: os metais cúbicos de face centrada recozidos, como o cobre, o latão e o inox 304, têm n alto e encruam muito.

O n e a estricção: critério de Considère

Pelo critério de Considère (1885), a estricção começa quando o encruamento deixa de compensar a perda de área, isto é, quando dσv/dεv = σv. Aplicado à lei de Hollomon, o critério dá εu = n: a deformação verdadeira uniforme é igual ao expoente de encruamento. O aço recozido do primeiro gráfico, com n = 0,21, começa a formar pescoço em εv ≈ 0,21, o que equivale a cerca de 23 % de deformação de engenharia.

Numa chapa, n alto significa que a deformação se espalha em vez de se concentrar num ponto, o que faz dele o número mais olhado na estampagem. A ASTM E646 declara que o valor n serve para estimar a deformação no início da estricção e para comparar a estampabilidade por estiramento de metais semelhantes. Na estampagem profunda pesa mais outro coeficiente, o de anisotropia r (ISO 10113); os dois são tratados no artigo do ensaio de embutimento.

Como medir o expoente n: ISO 10275 e ASTM E646

O n se mede num ensaio de tração comum, registrado com precisão no trecho plástico uniforme. As normas são a ISO 10275:2020, para chapas e tiras metálicas, e a ASTM E646-16(2024), para chapas de 0,13 a 6,4 mm (outras formas só por acordo). O procedimento tem estes passos:

  1. Preparar o ensaio: corpo de prova de chapa conforme a ISO 6892-1 ou a ASTM E8/E8M, ensaiado entre 10 °C e 35 °C (ISO 10275).
  2. Garantir a medição: a ISO 10275 exige máquina com força de classe 1 ou melhor (ISO 7500-1) e extensômetro de classe 2 ou melhor (ISO 9513), de classe 1 se o valor r for medido no mesmo ensaio. O deslocamento da travessa não serve, porque inclui a folga das garras e a deformação da máquina.
  3. Controlar a velocidade: no trecho plástico, a taxa de deformação não deve passar de 0,008 s⁻¹ (ISO 10275).
  4. Converter a curva: passar força e alongamento para tensão e deformação verdadeiras. Na edição de 2020 da ISO 10275 o n é o expoente da deformação verdadeira plástica, εp: a parcela elástica é descontada da total. A edição de 2007 dispensava a subtração quando a parcela elástica era menor que 10 % da total.
  5. Escolher a faixa: só vale o trecho plástico contínuo e uniforme, depois do fim do patamar de escoamento, se houver, e antes da força máxima. A Nota 4 da ASTM E646 registra que a faixa de 10 % a 20 % de deformação de engenharia é usada com frequência em aços de baixo carbono para estampagem.
  6. Ajustar e relatar: fazer a regressão linear de ln σv contra ln εp na faixa escolhida; a inclinação é o n. O resultado se relata com a faixa, por exemplo n10-20 = 0,22.

Uma única lei de potência pode não descrever a curva inteira: a ASTM E646 admite relatar mais de um n, e há outros modelos, como os de Ludwik, Swift e Voce. Ligas de alumínio-magnésio com escoamento serrilhado (efeito Portevin-Le Chatelier) pedem a regressão automática da ISO 10275. O exercício 4 faz o cálculo completo.

Encruamento e recozimento: recuperação, recristalização e crescimento de grão

O encruamento é permanente à temperatura ambiente, mas um tratamento térmico o desfaz. Aquecido, o metal libera a energia guardada nas discordâncias em três etapas, que juntas formam o recozimento (Callister, seções 7.11 a 7.13):

  1. Recuperação: com a difusão atômica ativada pelo calor, parte das discordâncias se reorganiza em arranjos de menor energia e parte se aniquila. As tensões internas e a resistividade caem, mas a resistência mecânica cai pouco.
  2. Recristalização: formam-se grãos novos, equiaxiais e com poucas discordâncias, que consomem o metal deformado. A resistência e a ductilidade voltam aos valores de antes do trabalho a frio.
  3. Crescimento de grão: se o aquecimento continua depois da recristalização, os grãos maiores crescem à custa dos menores e a resistência cai mais um pouco, pelo efeito do tamanho de grão.

A recristalização, portanto, não é uma alternativa ao recozimento, e sim a etapa dele que desfaz o encruamento. As etapas se confirmam por metalografia, com cortadeira, politriz e microscópio metalográfico. A visão geral dos tratamentos está em tratamento térmico dos metais.

Temperatura de recristalização

A temperatura de recristalização é aquela em que a recristalização se completa em 1 hora, tipicamente entre 1/3 e 1/2 da temperatura absoluta de fusão, isto é, de 0,3 a 0,5 Tf em kelvin (Callister). Não é uma constante do metal: cai quando o %TF aumenta, porque há mais energia armazenada, e sobe com impurezas e elementos de liga. A tabela traz os valores de Callister e Rethwisch (Tabela 7.2) e a razão em kelvin:

Metal ou ligaRecristalização, 1 h (°C)Fusão (°C)Razão em kelvin
Alumínio (99,999 %)806600,38
Cobre (99,999 %)1201.0850,29
Latão (60Cu-40Zn)475funde numa faixanão calculada
Níquel (99,99 %)3701.4550,37
Ferro4501.5380,40

A linha do latão mostra o efeito da liga: o cobre puro recristaliza a 120 °C, e a adição de 40 % de zinco leva essa temperatura a 475 °C.

Trabalho a frio e trabalho a quente

A escolha entre as duas conformações definidas no início do artigo é de processo. A frio, a peça ganha resistência, acabamento e precisão dimensional, mas a ductilidade se esgota e as reduções por passe são limitadas. A quente, a recristalização acontece durante a deformação (recristalização dinâmica), e o metal aceita reduções grandes com forças menores. Por isso não existe "encruamento a quente": o termo correto é trabalho, ou conformação, a quente. Laminação, forjamento e extrusão podem ser feitos das duas formas.

Encruamento na indústria

O encruamento é ao mesmo tempo recurso e limite da conformação a frio. As aplicações mais comuns são estas:

  • Trefilação de arames e barras: fieiras de diâmetro decrescente elevam o escoamento, como no 1020 trefilado.
  • Laminação a frio de chapas e fitas: dá espessura precisa e a resistência especificada; a chapa das latas de bebida é laminada a frio.
  • Estampagem: as regiões mais deformadas saem mais resistentes, e o n alto evita a estricção localizada.
  • Recozimento intermediário: quando a redução total esgotaria a ductilidade, o processo é dividido em etapas com recozimento entre elas.
  • Endurecimento superficial por deformação: o jateamento com granalha (shot peening) e o roleteamento encruam só a superfície e deixam nela tensões residuais de compressão.

O encruamento também aparece onde não foi planejado: toda dobra a frio encrua a região dobrada, e o ensaio de dobramento verifica se o material aceita essa deformação sem trincar.

Exercícios resolvidos

Os cinco exercícios seguem a ordem do artigo, do %TF à temperatura de recristalização.

Exercício 1: grau de trabalho a frio de uma barra de cobre

Uma barra de cobre de 15,2 mm de diâmetro é trefilada para 12,2 mm. Calcule o %TF.

  1. Como a área é proporcional a d², basta usar os quadrados: d0² = 15,2² = 231,04 e dd² = 12,2² = 148,84.
  2. %TF = (231,04 − 148,84) / 231,04 × 100 = 82,20 / 231,04 × 100 = 35,6 %.
  3. Pelas curvas de Callister (Fig. 7.19), o cobre com esse %TF tem Rm de cerca de 340 MPa e alongamento de cerca de 7 %.
  4. Conta errada, com diâmetros: (15,2 − 12,2) / 15,2 = 19,7 %.

Exercício 2: tensão verdadeira pela lei de Hollomon

Aço de baixo carbono recozido, K = 600 MPa e n = 0,21 (Callister). Calcule σv em εv = 0,10 e 0,20 e compare com o escoamento do metal recozido.

  1. εv = 0,10: 0,100,21 = e0,21 × ln 0,10 = e−0,4835 = 0,6166, logo σv = 600 × 0,6166 = 370 MPa.
  2. εv = 0,20: 0,200,21 = e−0,3380 = 0,7132, logo σv = 428 MPa. Dobrar a deformação eleva a tensão em cerca de 16 %.
  3. Escoamento do recozido, na deformação plástica de 0,2 %: 600 × 0,0020,21 = 163 MPa. A peça deformada até 0,10 e descarregada passa a escoar em 370 MPa, 2,3 vezes esse valor, como no primeiro gráfico.

Exercício 3: n e K a partir de dois pontos

Na curva verdadeira de um metal: σ1 = 400 MPa em ε1 = 0,05 e σ2 = 520 MPa em ε2 = 0,20. Calcule n e K.

  1. n = ln(520/400) / ln(0,20/0,05) = ln 1,30 / ln 4 = 0,2624 / 1,3863 = 0,19.
  2. K = σ1 / ε1n = 400 / 0,050,1893 = 400 / 0,5672 = 705 MPa.
  3. Conferência: 705 × 0,200,1893 = 705 × 0,7374 = 520 MPa.

Exercício 4: n de uma chapa ensaiada com extensômetro

Corpo de prova de chapa com seção de 12,5 mm × 1,0 mm (S0 = 12,5 mm²) e extensômetro de L0 = 50 mm. A célula de carga registra F = 4,00 kN com ΔL = 5,0 mm (e = 0,10) e F = 4,40 kN com ΔL = 10,0 mm (e = 0,20). Adote E = 200 GPa. Calcule n, K e a deformação uniforme.

  1. Tensões de engenharia: R1 = 4.000 / 12,5 = 320 MPa; R2 = 4.400 / 12,5 = 352 MPa.
  2. Tensões verdadeiras: σ1 = 320 × 1,10 = 352,0 MPa; σ2 = 352 × 1,20 = 422,4 MPa.
  3. Parcela plástica, descontando a elástica R/E: ep1 = 0,10 − 320/200.000 = 0,0984; ep2 = 0,20 − 352/200.000 = 0,1982.
  4. Deformações verdadeiras plásticas: εp1 = ln 1,0984 = 0,0939; εp2 = ln 1,1982 = 0,1809.
  5. n = ln(422,4/352,0) / ln(0,1809/0,0939) = 0,1823 / 0,6559 = 0,28. Sem descontar a parcela elástica, o resultado seria 0,281: a correção pesa pouco aqui, mas é o que a ISO 10275:2020 manda fazer.
  6. K = 352,0 / 0,09390,278 ≈ 679 MPa.
  7. Considère: εu ≈ n = 0,28, o que equivale a uma deformação de engenharia uniforme de e0,28 − 1 ≈ 32 %.

Os dados são didáticos: num ensaio real a regressão usa todos os pontos entre 10 % e 20 %, e o resultado se relata como n10-20.

Exercício 5: estimativa da temperatura de recristalização

Estime a temperatura de recristalização do ferro e do cobre pela regra de 0,3 a 0,5 Tf e compare com a tabela.

  1. Ferro: Tf = 1.538 °C = 1.811 K. Com 0,4·Tf: 0,4 × 1.811 = 724 K = 451 °C, praticamente os 450 °C da tabela.
  2. Cobre: Tf = 1.085 °C = 1.358 K. A faixa de 0,3 a 0,5·Tf dá 407 a 679 K, ou 134 a 406 °C.
  3. A tabela dá 120 °C para o cobre 99,999 %, abaixo da faixa: metal muito puro recristaliza abaixo da regra geral, porque são as impurezas que elevam essa temperatura.

Normas do encruamento e do expoente n

O expoente n tem normas próprias de método, que se apoiam nas normas do ensaio de tração e da calibração dos instrumentos. A tabela reúne as citadas neste artigo:

NormaO que trataEdição
ISO 10275expoente de encruamento n de chapas e tiras metálicas2020
ASTM E646valor n de chapas metálicas de 0,13 a 6,4 mmE646-16(2024)
ABNT NBR ISO 6892-1ensaio de tração de metais à temperatura ambiente2024
ISO 6892-1ensaio de tração de metais à temperatura ambiente2019
ASTM E8/E8Mensaio de tração de metaisE8/E8M-25
ISO 9513calibração de extensômetros (classe 2 ou melhor para o n)2012
ABNT NBR ISO 7500-1verificação da força da máquina (classe 1 para o n)2023
ISO 10113coeficiente de anisotropia plástica r de chapasnão indicada

Máquina para medir o encruamento e o expoente n

Medir o n exige registrar em contínuo, com velocidade controlada, a força, numa célula de carga de classe 1, e o alongamento, num extensômetro fixado no trecho útil. A máquina universal Biopdi da linha M2 é eletromecânica e atende a isso: tem modelos de 200 N a 1.000 kN, células de carga classe 1, extensômetros clip-on e o software BioLab, que traça a curva e monta o relatório. O painel abaixo mostra a máquina, o papel de cada parte na medição do encruamento e as garras usadas.

A máquina universal no ensaio de tração

A linha M2 tem modelos de coluna simples, de 200 N a 10 kN, e de coluna dupla, de 5 kN a 1.000 kN. Cada parte da máquina tem uma função na medição do encruamento e do n:

Máquinas universais de ensaios M2 da Biopdi de coluna simples (MBIOI-10-M2, 10 kN) e coluna dupla (MBIOII-50-M2, 50 kN)
  1. Travessa móvel traciona o corpo de prova com a taxa de deformação da norma
  2. Célula de carga mede a força F, classe 1
  3. Garras de cunha, pneumáticas, para roscados ou fios
  4. Extensômetro mede ΔL no trecho L0, do escoamento até a força máxima
  5. Software BioLab divide por S0 e L0, traça a curva e monta o relatório
  6. Painel e emergência posiciona e para o ensaio

Dispositivos para o ensaio de tração

Os dispositivos abaixo são montados na mesma máquina, conforme o corpo de prova e a norma:

Garra cunha Biopdi para ensaio de traçãoGarra cunha5, 20 e 200 kN
Garra cunha pneumática BiopdiGarra cunha pneumática50 e 200 kN
Garra Biopdi para corpos de prova roscados e parafusosGarra para roscadosparafusos e corpos de prova roscados

Para chapas metálicas como a do exercício 4, a faixa indicada é a da máquina universal de 5 a 50 kN (MBIOII-50-M2), de coluna dupla, feita para metais, chapas, compósitos e fixadores. Para vergalhões, perfis e cabos trabalhados a frio, o modelo é a máquina universal de 100 a 200 kN (MBIOII-200-M2). No software BioLab, as fórmulas de cálculo personalizadas permitem criar grandezas próprias a partir de força, posição e extensômetro, como a tensão e a deformação verdadeiras até o Rm, que são a base do cálculo do n. As demais capacidades estão na página da máquina universal de ensaios.

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Perguntas frequentes

O que melhor define o encruamento?

É o aumento da resistência e da dureza de um metal quando ele é deformado plasticamente abaixo da temperatura de recristalização. A deformação multiplica as discordâncias, que passam a travar umas às outras; o escoamento sobe e a ductilidade cai (Callister e Rethwisch).

O que é um aço encruado?

É um aço deformado a frio, por laminação, trefilação ou dobramento, cujo limite de escoamento e dureza subiram e cujo alongamento caiu em relação ao estado recozido ou laminado a quente. O 1020 trefilado, por exemplo, escoa em cerca de 350 MPa, contra 205 MPa laminado a quente, e alonga cerca de 15 % em vez de 25 %.

Qual é a equação de Hollomon?

σv = K·εv^n: a tensão verdadeira é igual ao coeficiente de resistência K, em MPa, vezes a deformação verdadeira elevada ao expoente de encruamento n. Foi publicada por J. H. Hollomon em 1945 e vale do fim do escoamento até a força máxima.

O que é o expoente de encruamento n?

É o expoente da lei de Hollomon, um número adimensional entre 0 e 1 que mede quanto o metal endurece ao se deformar. Nos metais fica em geral entre 0,10 e 0,50: cerca de 0,21 no aço de baixo carbono recozido e 0,44 no cobre recozido, pelos valores de Callister.

Como se mede o expoente n?

Por ensaio de tração em chapa, com extensômetro, conforme a ISO 10275:2020 ou a ASTM E646-16(2024). Os dados passam para tensão e deformação verdadeiras, e o n é a inclinação da reta de ln σ contra ln ε no regime uniforme. Em aço de baixo carbono para estampagem, a faixa de 10 % a 20 % é a mais usada.

Qual a relação entre o n e a estricção?

Pelo critério de Considère, num material que segue a lei de Hollomon a deformação verdadeira uniforme é igual a n. Uma chapa com n = 0,28 deforma de modo uniforme até cerca de 32 % de deformação de engenharia antes de formar pescoço.

Como se calcula o grau de encruamento?

Pelo grau de trabalho a frio, %TF = (A0 − Ad)/A0 × 100, com as áreas da seção antes e depois da deformação. Uma barra trefilada de 15,2 para 12,2 mm de diâmetro tem 35,6 %TF.

O encruamento altera o módulo de elasticidade?

Não. O módulo depende das ligações entre os átomos e praticamente não muda com o trabalho a frio. O que muda é a tensão em que o metal começa a escoar.

Como é o processo de recozimento?

O metal encruado é aquecido acima da temperatura de recristalização, em geral entre 1/3 e 1/2 da temperatura absoluta de fusão, e passa por recuperação (alívio de tensões), recristalização (grãos novos) e, se o aquecimento continuar, crescimento de grão. No ferro, a recristalização se completa em 1 hora a cerca de 450 °C (Callister).

O encruamento é reversível?

À temperatura ambiente ele é permanente, mas o recozimento o elimina: a recristalização devolve a resistência e a ductilidade de antes do trabalho a frio. Na indústria, isso é feito entre passes de trefilação ou laminação quando a redução total é grande.

Qual a diferença entre trabalho a frio e trabalho a quente?

No trabalho a frio a deformação ocorre abaixo da temperatura de recristalização e o encruamento se acumula. No trabalho a quente ocorre acima dela: o encruamento é desfeito durante a deformação, e o metal continua dúctil e aceita grandes reduções.

O encruamento acontece em polímeros e cerâmicas?

Não no mesmo sentido. As cerâmicas praticamente não se deformam plasticamente à temperatura ambiente. Os polímeros podem endurecer sob grande deformação, mas pela orientação das cadeias moleculares, que é outro mecanismo.

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