Ensaio de materiais é o procedimento padronizado que mede propriedades mecânicas, físicas, químicas ou microestruturais de uma amostra representativa, ou que inspeciona uma peça sem danificá-la, para qualificar o material, controlar a qualidade, desenvolver produtos e investigar falhas. O resultado é um número ou uma aceitação, obtido pelo procedimento de uma norma e comparado com a especificação do material ou do produto.
Os ensaios se agrupam em cinco famílias: mecânicos, não destrutivos, metalográficos, químicos e físicos ou térmicos. Não existe uma fórmula única do ensaio de materiais: cada método tem as suas grandezas e a sua norma. Este guia mostra o que cada família mede, a diferença entre ensaio destrutivo e não destrutivo, como a amostra e a calibração da máquina decidem se o resultado vale, uma tabela que liga a pergunta de engenharia ao ensaio certo e dois casos práticos, um de recebimento de lote e um de análise de falha.
Na foto, o ensaio mais conhecido da família mecânica sendo montado: o corpo de prova de tração já está preso nas garras da máquina universal, e o extensômetro, o sensor de braços finos encostado no trecho central, vai medir o alongamento diretamente no material.

O que é ensaio de materiais e para que serve
Ensaiar é determinar uma característica de um material, componente ou produto seguindo um procedimento definido, em condições controladas. A palavra-chave é definido: a norma do ensaio fixa a forma da amostra, a temperatura, a velocidade, o equipamento e o cálculo. Só assim dois laboratórios chegam ao mesmo número para o mesmo material, e só assim o número pode ser comparado com um mínimo de especificação. A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017, que trata da competência dos laboratórios, parte justamente dessa ideia: o ensaio é a atividade técnica do laboratório, e o que se avalia é se ele a executa de forma reprodutível e rastreável.
O ensaio pode ser feito num corpo de prova, que é uma amostra com geometria definida pela norma, numa peça inteira ou num protótipo. Alguns ensaios destroem a amostra para medir um limite, como a tração, que leva o corpo de prova até a ruptura; outros examinam a peça e a devolvem ao uso, como o ultrassom. Essa diferença, que organiza boa parte da área, é tratada numa seção própria mais adiante.
Ensaio e teste: qual a diferença
No uso técnico brasileiro, ensaio é o procedimento normalizado, com resultado mensurável e rastreável, que pode entrar num laudo. Teste é o termo coloquial e costuma designar uma verificação funcional, do tipo passa ou não passa: ligar a máquina para ver se funciona é um teste; tracionar um corpo de prova pela ABNT NBR ISO 6892-1:2024 e calcular a resistência é um ensaio. Em inglês as duas ideias usam a mesma palavra, test, e daí vem a confusão nas traduções. Nenhuma norma brasileira define "teste" como termo técnico; as normas de método usam "ensaio".
As cinco finalidades do ensaio
Os mesmos métodos servem a objetivos diferentes, e o objetivo muda quantas amostras se ensaiam e com que rigor:
- Qualificação e homologação: aprovar um material, um fornecedor ou um processo, como um procedimento de soldagem, antes de entrar em produção.
- Controle de qualidade: no recebimento e na produção, lote a lote, conforme a norma do produto, que diz quais ensaios fazer e quais mínimos cumprir.
- Pesquisa e desenvolvimento: caracterizar um material novo ou medir o efeito de um tratamento térmico.
- Análise de falha: descobrir por que uma peça quebrou em serviço, o que em geral combina várias famílias de ensaio.
- Certificação e conformidade: emitir laudo de laboratório acreditado ou certificado de material para cliente, licitação ou órgão regulador.
Tipos de ensaios de materiais: as cinco famílias
A forma mais útil de classificar os ensaios é pelo que eles medem. Mecânicos medem a resposta a uma força: resistência, rigidez, ductilidade, dureza, tenacidade. Não destrutivos (END) procuram descontinuidades, como trincas, poros e inclusões, sem comprometer a peça. Metalográficos mostram a estrutura do metal numa seção cortada e preparada. Químicos determinam a composição. Físicos e térmicos medem densidade, dilatação e as transições que o material sofre ao ser aquecido.
Uma segunda forma de classificar, que cruza a primeira, é pelo dano que o ensaio causa. O esquema abaixo junta as duas: cada linha é o que se mede e cada coluna é quanto a amostra sofre. Os END ocupam sozinhos o canto de "nenhum dano", a dureza e a espectrometria deixam só uma marca local, e a maior parte dos ensaios mecânicos, metalográficos e térmicos consome a amostra.

A posição na coluna decide a estratégia de controle. O que fica na coluna da esquerda pode ser aplicado a todas as peças produzidas; o que fica na da direita só pode ser feito por amostragem, em peças ou corpos de prova sacrificados que representam o lote. A tabela resume as famílias, com os métodos de cada uma descritos nas seções seguintes:
| Família | O que mede | Métodos típicos | Dano à amostra |
|---|---|---|---|
| Mecânicos | resposta a força: resistência, rigidez, ductilidade, dureza, tenacidade | tração, compressão, flexão, dureza, impacto, fadiga | marca local (dureza) ou ruptura |
| Não destrutivos | descontinuidades e espessura | visual, líquido penetrante, partículas magnéticas, ultrassom, radiografia, correntes parasitas | nenhum |
| Metalográficos | macro e microestrutura: fases, grão, inclusões, camadas | macrografia, micrografia | corte da amostra |
| Químicos | composição química | espectrometria de emissão óptica, combustão | marca local ou consumo da amostra |
| Físicos e térmicos | densidade, dilatação, transições térmicas, perda de massa | densidade, dilatometria, DSC, TGA | em geral, consumo de uma pequena amostra |
Ensaios mecânicos
Os ensaios mecânicos aplicam um esforço controlado e registram a resposta do material. Os principais são tração, compressão, flexão, dobramento, cisalhamento, torção, embutimento, dureza, impacto, fadiga e fluência. Pela velocidade de carregamento, dividem-se em quase estáticos, em que a força cresce devagar (tração, compressão, flexão), dinâmicos ou de impacto, em que a carga é aplicada num golpe (Charpy), e cíclicos, em que a carga se repete milhões de vezes (fadiga).
O de tração é o mais usado para caracterizar metais porque, sozinho, dá o limite de escoamento, o limite de resistência, o alongamento e, com extensômetro, o módulo de elasticidade. Cada ensaio mecânico tem o seu artigo, e o guia dos principais ensaios mecânicos reúne todos, com o que cada um mede, a norma e a máquina. As grandezas que eles medem estão no artigo sobre propriedades mecânicas dos materiais.
Ensaios não destrutivos
Ensaio não destrutivo (END) é o exame que avalia uma peça sem prejudicar o seu uso posterior; a terminologia da área está na ASTM E1316. O END procura e dimensiona descontinuidades, ou mede espessura, e por isso pode ser feito em 100 % das peças, inclusive em equipamentos em operação. Cada método se baseia num fenômeno físico diferente, e cada fenômeno impõe um limite: nenhum método serve para tudo. Os seis mais usados, do mais simples ao mais elaborado:
- Visual: é sempre o primeiro. Exige boa iluminação e acesso à superfície, e pode usar lupa, espelho ou câmera. Em soldas, o procedimento está na ISO 17637. Só vê o que chega à superfície.
- Líquido penetrante: um líquido de baixa viscosidade, vermelho ou fluorescente, entra por capilaridade nas descontinuidades; depois de remover o excesso, um revelador traz o líquido de volta à superfície e marca a trinca. Só encontra descontinuidades abertas à superfície e não serve para material poroso (ASTM E165/E165M).
- Partículas magnéticas: a peça é magnetizada, e uma trinca desvia o campo e acumula as partículas de ferro aplicadas a seco ou em suspensão. Detecta descontinuidades superficiais e próximas da superfície, mas só em material ferromagnético: não funciona em aço inoxidável austenítico, alumínio ou cobre (ASTM E709). A peça é desmagnetizada no fim.
- Ultrassom: um cabeçote emite ondas mecânicas de alta frequência, que refletem na parede oposta e em qualquer descontinuidade interna. Detecta defeitos no volume e mede espessura com acesso por um só lado (ASTM E797/E797M, pulso-eco por contato). Exige acoplante entre o cabeçote e a peça e operador qualificado para interpretar os ecos.
- Radiografia: raios X ou gama atravessam a peça e registram, em filme ou detector digital, as diferenças de espessura e densidade. É volumétrica e deixa registro permanente, o que a faz comum em soldas e fundidos (ASTM E1742/E1742M). Exige proteção radiológica.
- Correntes parasitas: uma bobina induz correntes elétricas na peça, e trincas superficiais, variações de condutividade ou de espessura de revestimento alteram essas correntes (García-Martín, Gómez-Gil e Vázquez-Sánchez, Sensors, 2011). Só funciona em material condutor e é muito usada em tubos (ASTM E426).
Outros métodos, como emissão acústica, termografia e ensaio de estanqueidade, completam a lista, principalmente em compósitos, onde ultrassom e termografia são os mais estudados (Gholizadeh, Procedia Structural Integrity, 2016).
Dois pontos costumam ser mal entendidos. Primeiro, o END não mede resistência: ele diz se há uma trinca e de que tamanho, mas não dá o limite de resistência nem a tenacidade. Segundo, o resultado depende de quem executa. Por isso o pessoal de END é certificado por método e por nível pela ABNT NBR NM ISO 9712:2025, idêntica à ISO 9712:2021. No Brasil, a certificação é feita pela ABENDI, organismo acreditado pelo Inmetro para certificação de pessoas segundo a ABNT NBR ISO/IEC 17024.
Ensaios metalográficos
A metalografia examina a estrutura do metal numa seção preparada, e é ela que explica por que duas peças do mesmo aço têm propriedades diferentes. Tem dois níveis de aumento.
A macrografia é feita numa seção lixada e atacada quimicamente, observada a olho nu ou com pouco aumento. Mostra segregação, o fluxo de fibras de uma peça forjada, as zonas de uma solda e porosidade grosseira (ASTM E340). A micrografia usa o microscópio e segue uma sequência fixa: corte, embutimento em resina, lixamento com granulometria cada vez mais fina, polimento até o espelhamento e ataque químico, que revela os contornos de grão e as fases (ASTM E3 para a preparação e ASTM E407 para o ataque). Ao microscópio aparecem as fases, como ferrita, perlita e martensita, as inclusões, a camada de uma peça cementada e o tamanho de grão, medido pela ASTM E112.
Como exige cortar, a metalografia é destrutiva para a amostra. Ela é o elo entre o processo e a propriedade: é na micrografia que se confirma se um tratamento térmico deu a estrutura esperada, se a camada de uma cementação tem a profundidade pedida ou se os grãos estão alongados pelo encruamento. Cada etapa tem o seu equipamento: a cortadeira metalográfica corta a amostra sem aquecê-la a ponto de alterar a estrutura, a politriz metalográfica faz o lixamento e o polimento com controle de velocidade e pressão, e o microscópio metalográfico faz a análise microestrutural.
Ensaios químicos
O ensaio químico responde a uma pergunta simples e decisiva: o material é o que o certificado diz? Nos aços, o método mais usado é a espectrometria de emissão óptica por centelha (OES): uma faísca vaporiza um ponto da superfície, e a luz emitida por cada elemento é separada e medida. A ASTM E415 determina assim, ao mesmo tempo, 21 elementos de liga e residuais em aços carbono e de baixa liga. A amostra precisa de uma face plana que vede a abertura do suporte do espectrômetro, e a faísca deixa só uma pequena queima.
Para carbono e enxofre com mais exatidão, usa-se a combustão de cavacos da amostra num forno de indução, com análise dos gases. Os métodos químicos são o primeiro passo quando uma peça se comporta mal e a suspeita é de troca de material.
Ensaios físicos e térmicos
Esta família mede propriedades que não dependem de força e que interessam principalmente em polímeros, cerâmicas e compósitos:
- Densidade: por imersão, pelo princípio de Arquimedes; revela porosidade e confirma a identidade de plásticos.
- Dilatometria: mede o coeficiente de dilatação térmica linear com um dilatômetro de haste (ASTM E228).
- DSC (calorimetria exploratória diferencial): mede o calor absorvido ou liberado ao aquecer, o que dá a transição vítrea, a fusão, a cristalização e a cura de polímeros (ISO 11357-1:2023).
- TGA (termogravimetria): mede a perda de massa com a temperatura, tipicamente da ambiente até 1.000 °C, e com ela o teor de voláteis, de carga e de cinzas (ASTM E1131).
- Condutividade elétrica e térmica: completam a caracterização quando a peça conduz corrente ou calor.
Ensaios destrutivos e não destrutivos
O ensaio destrutivo inutiliza a amostra, ou a deforma a ponto de ela não voltar ao uso, e em troca mede um limite do material: até onde ele resiste, quanta energia absorve, qual é a sua composição exata. O não destrutivo mantém a peça em condição de uso e em troca só encontra defeitos. Um não substitui o outro: o destrutivo qualifica o material e o processo por amostragem, e o END confere cada peça produzida. A tabela compara os dois:
| Critério | Destrutivo | Não destrutivo (END) |
|---|---|---|
| A peça depois do ensaio | rompida, cortada ou deformada; não volta ao uso | inteira, em condição de uso |
| O que mede | propriedades: resistência, tenacidade, composição, microestrutura | descontinuidades e espessura |
| Quantas peças | amostras por lote | até 100 % das peças, inclusive em serviço |
| Exemplos | tração, impacto, fadiga, micrografia, combustão | visual, líquido penetrante, partículas magnéticas, ultrassom, radiografia, correntes parasitas |
| Referência | a norma de cada método, como a ABNT NBR ISO 6892-1:2024 | ASTM E1316 (termos) e ABNT NBR NM ISO 9712 (pessoal) |
A dureza é o caso de fronteira. O penetrador deixa só uma pequena impressão, e Callister e Rethwisch (Materials Science and Engineering, 10ª ed., cap. 6) a descrevem como ensaio relativamente não destrutivo, porque a peça não rompe nem deforma de modo apreciável. Mesmo assim, a dureza não é um método de END na ISO 9712, e a marca pode reprovar uma superfície funcional polida. O guia dos ensaios mecânicos discute essa classificação, e o artigo sobre o ensaio de dureza traz a espessura mínima que cada método exige.
Corpo de prova, amostragem e confiabilidade do resultado
Um ensaio perfeito sobre a amostra errada, numa máquina descalibrada, dá um número sem valor. Três condições tornam o resultado confiável: a amostra representa o lote, o instrumento mede certo e o laboratório demonstra competência.
Amostra e corpo de prova
O ensaio destrutivo não mede o lote, mede a amostra, e por isso ela precisa representar o lote. A ISO 377:2017 fixa a identificação, a localização e a preparação de amostras e corpos de prova para ensaios mecânicos de perfis, barras, fio-máquina, produtos planos e tubos de aço. A posição importa: numa barra grossa, o núcleo resfriou mais devagar que a superfície e tem outra microestrutura, e numa chapa laminada a direção longitudinal dá resultado diferente da transversal. Quando a norma do produto indica posição e direção, ela prevalece.
Depois de retirada, a amostra vira um corpo de prova com a geometria da norma do ensaio, como a ABNT NBR ISO 6892-1:2024 ou a ASTM E8/E8M para tração de metais. A usinagem precisa ser cuidadosa: aquecer demais o material ao cortar ou tornear altera a microestrutura e, com ela, o resultado.
Máquina calibrada
A força medida pela máquina tem de ser rastreável a um padrão. A ABNT NBR ISO 7500-1:2023, equivalente à ISO 7500-1:2018, verifica o sistema de medição de força com um instrumento de referência e classifica a máquina em classes 0,5, 1, 2 e 3. O critério principal é o erro relativo de exatidão, q = (Fi − F) / F × 100, em que Fi é a força indicada pela máquina e F a força de referência; em cada classe, |q| não pode passar do número da classe, em %. Na classe 1, portanto, o erro admitido é de ±1,0 %. A ASTM E4, usada nos Estados Unidos, adota o critério de ±1 % da força aplicada, sem escada de classes.
Um exemplo: com a força de referência de 50,00 kN, a máquina indica 50,30 kN. Então q = (50,30 − 50,00) / 50,00 × 100 = +0,60 %. A máquina passa na classe 1 (±1,0 %) e não passa na classe 0,5 (±0,5 %). A maioria das normas de ensaio exige classe 1 ou melhor, e a verificação se repete periodicamente e sempre depois de reparo, troca de célula de carga ou mudança de local da máquina.
Laboratório acreditado e pessoal certificado
A ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 reúne os requisitos de competência, imparcialidade e operação consistente de laboratórios de ensaio e calibração. No Brasil, quem avalia e acredita os laboratórios é a Cgcre, do Inmetro: os laboratórios de ensaio acreditados formam a RBLE (Rede Brasileira de Laboratórios de Ensaio), os de calibração a RBC (Rede Brasileira de Calibração), e a consulta é pública. Três certificações diferentes costumam ser confundidas: a acreditação do laboratório (ISO/IEC 17025), a certificação de pessoas, como os inspetores de END (ISO/IEC 17024 e ISO 9712), e a certificação de produto, que atesta que um produto cumpre a sua norma.
Como escolher o ensaio
O ponto de partida não é o equipamento disponível, é a pergunta de engenharia. Quando existe uma norma de produto (a de um vergalhão, de um tubo, de um perfil), ela já diz quais ensaios fazer e quais valores cumprir. Quando não existe, como numa investigação ou num desenvolvimento, a tabela abaixo liga as perguntas mais comuns ao ensaio que as responde:
| Pergunta | Ensaio | Norma de referência |
|---|---|---|
| Qual é a resistência e a ductilidade? | tração | ABNT NBR ISO 6892-1:2024, ASTM E8/E8M |
| Tem trinca na superfície? | líquido penetrante; partículas magnéticas se for ferromagnético | ASTM E165/E165M; ASTM E709 |
| Tem defeito interno? | ultrassom ou radiografia | ASTM E797/E797M; ASTM E1742/E1742M |
| O aço é o especificado? | espectrometria de emissão óptica | ASTM E415 |
| O tratamento térmico ficou certo? | micrografia e perfil de dureza | ASTM E3, ASTM E407; ensaio de dureza |
| Resiste a choque em baixa temperatura? | impacto Charpy | ASTM E23, ISO 148-1 |
| Aguenta carga repetida? | fadiga | norma do material ou do componente |
| Em que temperatura o polímero amolece? | DSC | ISO 11357-1:2023 |
Duas regras completam a tabela. Escolha o método compatível com o material, porque partículas magnéticas não funcionam em inox austenítico e correntes parasitas não funcionam em material isolante. E, quando a amostra é única, como numa peça que falhou, comece pelo método menos destrutivo, para não perder a evidência que um ensaio posterior precisaria.
Dois casos práticos
Os dois casos mostram como as famílias se combinam. Os números são didáticos e hipotéticos: não correspondem a um grau de aço específico.
Caso 1: receber ou recusar um lote de barras
Chega um lote de barras redondas de aço com o certificado do fornecedor, e a especificação de compra, hipotética, pede Rm de pelo menos 520 MPa e alongamento de pelo menos 20 %. O plano de ensaios confere o certificado em quatro passos:
- Composição: espectrometria de emissão óptica (ASTM E415) para confirmar que o grau é o do certificado.
- Triagem por dureza: a barra dá 168 HB. Nos aços, Callister e Rethwisch dão a correlação aproximada Rm (MPa) ≈ 3,45 × HB, então Rm ≈ 3,45 × 168 ≈ 580 MPa. É só uma estimativa, que indica que vale a pena seguir; ela não substitui a tração no laudo.
- Tração: corpo de prova retirado conforme a ISO 377 e ensaiado pela ABNT NBR ISO 6892-1:2024, com diâmetro d0 = 10,0 mm.
- Micrografia: só se a especificação pedir tamanho de grão (ASTM E112).
O cálculo da tração parte da área da seção, S0 = π × 10,0² / 4 = 78,54 mm². Num corpo de prova proporcional, o comprimento de medida é L0 = 5,65 × √S0 = 5,65 × 8,862 = 50,07 mm, arredondado para 50 mm. A máquina registra força máxima Fm = 45,6 kN, e o comprimento final entre as marcas, juntando as duas metades rompidas, é Lu = 61,5 mm:
- Resistência à tração: Rm = Fm / S0 = 45.600 / 78,54 = 580,6 MPa, acima de 520 MPa e coerente com a estimativa pela dureza.
- Alongamento após a ruptura: A = (Lu − L0) / L0 × 100 = (61,5 − 50) / 50 × 100 = 23,0 %, acima de 20 %.
Com a composição conferida e os dois requisitos de tração atendidos, o lote é aceito. O artigo sobre o ensaio de tração detalha o escoamento, a velocidade e a leitura da curva.
Caso 2: investigar um eixo que quebrou
Um eixo rompeu em serviço, e há só uma peça fraturada. A regra é a da seção anterior: começar pelo que não destrói e avançar para o que corta e rompe, guardando a evidência. A sequência abaixo mostra as sete etapas típicas, com a família de cada uma e a barra de dano crescente embaixo:

- Inspeção visual e fotografia da fratura. Marcas de praia concêntricas partindo de um ponto indicam trinca que cresceu aos poucos, típica de fadiga.
- END nas peças irmãs ainda em serviço, por partículas magnéticas se o aço for ferromagnético, para achar trincas antes que outra peça quebre.
- Macrografia de uma seção, para ver o fluxo de fibras, a origem da trinca e eventuais defeitos de fabricação.
- Micrografia para conferir a microestrutura e a profundidade da camada endurecida.
- Perfil de microdureza na mesma amostra, da superfície para o núcleo; o procedimento está no artigo sobre o ensaio de dureza.
- Análise química para saber se o material era o especificado.
- Tração num corpo de prova retirado da própria peça, se houver material suficiente.
A análise de falha é o caso em que as cinco famílias trabalham juntas, e é também o melhor argumento a favor do ensaio de recebimento: boa parte das falhas investigadas assim termina num material, num tratamento ou numa camada que um ensaio de lote teria rejeitado.
Normas dos ensaios de materiais
Quem decide quais ensaios são obrigatórios é a norma do produto; as normas de método dizem como executar cada um. A tabela reúne as normas citadas neste artigo, por família, com a edição vigente conferida em setembro de 2026:
| Família | Norma | O que trata | Edição |
|---|---|---|---|
| Geral | ABNT NBR ISO/IEC 17025 | competência de laboratórios de ensaio e calibração | 2017 |
| Geral | ISO/IEC 17025 | competência de laboratórios de ensaio e calibração | 2017 |
| Geral | ISO 377 | localização e preparação de amostras e corpos de prova de aço | 2017 (confirmada em 2022) |
| Geral | ABNT NBR ISO 7500-1 | verificação da força de máquinas de tração e compressão | 2023 |
| Geral | ISO 7500-1 | verificação da força de máquinas de tração e compressão | 2018 |
| Geral | ASTM E4 | calibração e verificação de força de máquinas de ensaio | E4-24 |
| Mecânicos | ABNT NBR ISO 6892-1 | tração de metais em temperatura ambiente | 2024 |
| Mecânicos | ASTM E8/E8M | tração de metais | E8/E8M-25 |
| END | ASTM E1316 | terminologia de ensaios não destrutivos | E1316-26c |
| END | ABNT NBR NM ISO 9712 | qualificação e certificação de pessoas em END | 2025 |
| END | ISO 9712 | qualificação e certificação de pessoas em END | 2021 |
| END | ISO 17637 | ensaio visual de juntas soldadas por fusão | 2016 |
| END | ASTM E165/E165M | líquido penetrante, indústria em geral | E165/E165M-23 |
| END | ASTM E709 | guia de partículas magnéticas | E709-21 |
| END | ASTM E797/E797M | medição de espessura por ultrassom pulso-eco de contato | E797/E797M-21 |
| END | ASTM E1742/E1742M | exame radiográfico | E1742/E1742M-23 |
| END | ASTM E426 | correntes parasitas em tubos com e sem costura | E426-16(2021) |
| Metalográficos | ASTM E3 | preparação de amostras metalográficas | E3-26 |
| Metalográficos | ASTM E340 | macroataque de metais e ligas | E340-23 |
| Metalográficos | ASTM E407 | microataque de metais e ligas | E407-23 |
| Metalográficos | ASTM E112 | tamanho médio de grão | E112-25e1 |
| Químicos | ASTM E415 | aço carbono e de baixa liga por emissão atômica por centelha | E415-21 |
| Físicos e térmicos | ASTM E228 | dilatação térmica linear com dilatômetro de haste | E228-22 |
| Físicos e térmicos | ISO 11357-1 | DSC de plásticos, princípios gerais | 2023 |
| Físicos e térmicos | ASTM E1131 | análise de composição por termogravimetria | E1131-25 |
As normas de dureza, impacto e fadiga estão nos artigos de cada ensaio, a partir do guia dos ensaios mecânicos.
Equipamentos Biopdi para ensaio de materiais
A Biopdi fabrica equipamentos para duas das cinco famílias. Nos ensaios mecânicos, a máquina universal de ensaios da linha M2 tem 15 capacidades, de 200 N a 1.000 kN, com medição de força classe 1 pela ABNT NBR ISO 7500-1:2023. Nela, a célula de carga mede a força, o extensômetro mede a deformação no comprimento de medida, e o software BioLab converte a curva força × deslocamento em tensão × deformação e emite o relatório. Trocando garras e dispositivos, a mesma máquina faz tração, compressão, flexão, cisalhamento, embutimento, arrancamento e aderência, e há módulos de torção e dinâmico, sob consulta; o funcionamento está no artigo sobre a máquina universal de ensaio. Para carga repetida, há a ciclagem mecânica.
Na metalografia, a Biopdi fabrica a cortadeira, a politriz e o microscópio metalográfico citados na seção de metalografia, que cobrem a preparação e a análise da amostra. E, fora dos metais, os equipamentos de ensaios de solos, como triaxial, CBR e Marshall, adensamento e cisalhamento direto, mostram que ensaio de materiais vale também para solos e misturas asfálticas.
Outros ensaios e referências técnicas
Ensaios realizados na máquina universal Biopdi
Referências técnicas relacionadas
Ensaios mecânicos: o que são, tipos, o que cada um mede e normas
Ensaios mecânicos aplicam um esforço controlado a um corpo de prova e medem a resposta do material. Veja os tipos (destrutivos, não destrutivos, estáticos e dinâmicos), o que cada ensaio mede, as normas e a máquina de cada um.
Corpo de prova: o que é, tipos por ensaio e material, normas e dimensões
Corpo de prova é a amostra com forma e dimensões definidas pela norma do ensaio. Veja tipos, normas e medidas em metal, plástico, concreto, madeira e solda.
Ensaios destrutivos e não destrutivos: diferenças, tipos e quando usar cada um
Ensaios destrutivos rompem ou marcam a amostra para medir propriedades; os não destrutivos (END) acham trincas e poros sem inutilizar a peça. Tipos e normas.
Perguntas frequentes
Quais são os tipos de ensaios de materiais?
São cinco famílias: mecânicos (tração, compressão, flexão, dureza, impacto, fadiga), não destrutivos (visual, líquido penetrante, partículas magnéticas, ultrassom, radiografia, correntes parasitas), metalográficos (macrografia e micrografia), químicos (espectrometria de emissão óptica, combustão) e físicos ou térmicos (densidade, dilatometria, DSC, TGA). Pelo dano causado, os ensaios também se dividem em destrutivos e não destrutivos.
Quais são os métodos de ensaio?
Cada família tem métodos normalizados, e cada método tem a sua norma. Exemplos: tração de metais pela ABNT NBR ISO 6892-1:2024, espessura por ultrassom pela ASTM E797/E797M, preparação e ataque metalográfico pelas ASTM E3 e E407, composição de aços pela ASTM E415 e transições térmicas de polímeros pela ISO 11357-1:2023. A norma do produto diz quais desses métodos são obrigatórios.
Qual a diferença entre ensaio e teste?
Ensaio é o procedimento normalizado, com resultado mensurável e rastreável, que pode entrar num laudo, como a tração de um corpo de prova pela ABNT NBR ISO 6892-1:2024. Teste é o termo coloquial, em geral para uma verificação funcional do tipo passa ou não passa. Em inglês as duas ideias são "test", o que explica a confusão nas traduções.
Qual a diferença entre ensaios destrutivos e não destrutivos?
O destrutivo inutiliza ou deforma a amostra e, em troca, mede propriedades como resistência, tenacidade e composição; por isso é feito por amostragem, lote a lote. O não destrutivo mantém a peça em condição de uso e procura descontinuidades, podendo ser aplicado a todas as peças, inclusive em serviço. Os dois se completam: um qualifica o material, o outro confere cada peça.
Quais são os ensaios não destrutivos?
Os seis mais usados são o visual, o líquido penetrante (ASTM E165/E165M), as partículas magnéticas (ASTM E709), o ultrassom (ASTM E797/E797M), a radiografia (ASTM E1742/E1742M) e as correntes parasitas (ASTM E426). Emissão acústica, termografia e estanqueidade completam a lista. Os inspetores são certificados pela ABNT NBR NM ISO 9712.
O ensaio de dureza é destrutivo?
Fica na fronteira. Deixa só uma pequena impressão, e Callister e Rethwisch o descrevem como relativamente não destrutivo. Mas não é um método de END pela ISO 9712, e a marca pode reprovar uma superfície funcional, por isso ele não substitui a inspeção não destrutiva.
O que é ensaio metalográfico?
É o exame da estrutura do metal numa seção preparada. A macrografia usa uma seção atacada, vista a olho nu ou com pouco aumento (ASTM E340). A micrografia usa microscópio depois de corte, embutimento, lixamento, polimento e ataque (ASTM E3 e E407), e mostra fases, inclusões, camadas e tamanho de grão.
O que é um corpo de prova?
É a amostra com geometria e preparação definidas pela norma do ensaio, retirada de uma posição específica do produto. Para produtos de aço, a ISO 377:2017 define onde e como retirar a amostra; a geometria vem da norma do ensaio, como a ABNT NBR ISO 6892-1:2024 na tração.
O que é laboratório acreditado?
É o laboratório cuja competência foi reconhecida pela Cgcre/Inmetro segundo a ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017. Os laboratórios de ensaio acreditados formam a RBLE, os de calibração a RBC, e a lista é pública.
Por que a máquina de ensaio precisa estar calibrada?
Porque sem rastreabilidade da força o resultado não vale para qualificação. A ABNT NBR ISO 7500-1:2023 classifica a máquina em classes 0,5, 1, 2 e 3; na classe 1, o erro de exatidão admitido é de ±1,0 %. A verificação se repete periodicamente e depois de reparo, troca de célula de carga ou mudança de local.
Quais normas regem os ensaios de materiais?
Cada método tem a sua: ABNT NBR ISO 6892-1:2024 para tração de metais, ASTM E415 para composição de aços, ASTM E3 para preparação metalográfica, ISO 11357-1:2023 para DSC, entre outras. Quem define quais ensaios são exigidos e os valores mínimos é a norma do produto.