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Ensaios mecânicos: o que são, tipos, o que cada um mede e normas

Ensaios mecânicos aplicam um esforço controlado a um corpo de prova e medem a resposta do material. Veja os tipos (destrutivos, não destrutivos, estáticos e dinâmicos), o que cada ensaio mede, as normas e a máquina de cada um.

Ensaios MecânicosPor Mardoqueu M. Costa23 min de leitura

Ensaios mecânicos são procedimentos padronizados que aplicam um esforço controlado a um corpo de prova e medem a resposta do material. O esforço pode ser tração, compressão, flexão, torção, impacto ou carga cíclica. Com eles se obtêm propriedades como resistência, rigidez, ductilidade, dureza e tenacidade. Os principais são os ensaios de tração, compressão, flexão, dobramento, cisalhamento, torção, embutimento, arrancamento, aderência, dureza, impacto, fadiga e fluência. Normas como a ISO 6892-1 e a ASTM E8/E8M fixam o corpo de prova, a velocidade e a temperatura para que o resultado seja comparável entre laboratórios.

Este guia é o mapa da área. Ele mostra como os ensaios se classificam, o que cada um mede, qual norma e qual equipamento usar e como escolher o ensaio certo para uma peça. Cada ensaio tem um resumo aqui e um artigo próprio, com fórmulas, exercícios e erros comuns, no link.

Na foto, corpos de prova de aço depois de quatro ensaios diferentes, e cada esforço deixa uma marca própria: o de tração rompeu em duas partes, o cilindro de compressão embarrigou sem romper, a barra de dobramento virou um U e a barra entalhada partiu com o golpe do pêndulo no ensaio de impacto.

Corpos de prova metálicos sobre a bancada após ensaios mecânicos: um de tração rompido em duas partes, um cilindro embarrigado pela compressão, uma barra dobrada em U e uma barra entalhada rompida no impacto
Corpos de prova depois do ensaio: tração, compressão, dobramento e impacto Charpy

O que são ensaios mecânicos e para que servem

Um ensaio mecânico coloca um corpo de prova, com forma e dimensões definidas pela norma, numa máquina que aplica força e registra força e deformação. O resultado é um número (uma resistência em MPa, uma energia em joules, uma dureza) ou uma curva, como a curva tensão × deformação do ensaio de tração. A terminologia comum da área (força, tensão, deformação, escoamento, resistência) está na ASTM E6.

A ASTM E8/E8M, norma de tração de metais, resume bem a utilidade: o ensaio dá informação sobre resistência e ductilidade que serve para comparar materiais, desenvolver ligas, controlar a qualidade e projetar. Na prática, os ensaios mecânicos servem para:

  • Selecionar o material certo para uma peça.
  • Validar o projeto, conferindo se o material atende às especificações de resistência e durabilidade.
  • Controlar a qualidade e aceitar lotes de aço, vergalhão, chapa, concreto, plástico ou fixadores.
  • Prevenir e investigar falhas, descobrindo por que uma peça quebrou.

Tipos de ensaios mecânicos

Há duas classificações, e elas se cruzam. A primeira é pela integridade da peça: destrutivos e não destrutivos. A segunda é pelo modo de aplicação da carga: quase-estáticos, dinâmicos e de longa duração.

Por baixo das duas classificações estão os cinco esforços básicos, e a maioria dos ensaios reproduz um deles. O esquema abaixo mostra cada esforço com as setas de carga e a forma que a peça assume: na tração ela se alonga, na compressão encurta, na flexão se curva, no cisalhamento uma seção desliza sobre a vizinha e na torção uma ponta gira em relação à outra.

Tipos de ensaios mecânicos: esquema dos cinco esforços básicos dos ensaios mecânicos: tração, compressão, flexão, cisalhamento e torção, com as setas de carga e a forma deformada
Os cinco esforços básicos e a deformação que cada um provoca

Pelo modo de aplicação da carga, o ensaio quase-estático aplica carga crescente, devagar e sem choque, até a ruptura ou até o valor que se quer medir; é o caso da tração e da maioria dos ensaios feitos na máquina universal. O dinâmico aplica a carga de uma vez, num golpe, como no impacto, ou em ciclos repetidos abaixo da resistência estática, como na fadiga. O de longa duração mantém a carga constante por horas ou milhares de horas, em geral a alta temperatura, como na fluência. A tabela resume as categorias e os ensaios de cada uma.

CategoriaComo a carga ageEnsaios
Quase-estáticoscarga crescente, lenta e contínua, sem choquetração, compressão, flexão, dobramento, cisalhamento, torção, embutimento, arrancamento, aderência, dureza
Dinâmicos por impactoum golpe em alta velocidadeCharpy, Izod, queda de peso
Dinâmicos cíclicosciclos repetidos de carga, abaixo da resistência estáticafadiga axial, flexão rotativa, torção alternada
Longa duraçãocarga constante por horas ou milhares de horas, em geral a alta temperaturafluência, fluência-ruptura, relaxação

A diferença importa porque o mesmo material se comporta de outro jeito conforme a velocidade da carga. Um aço que alonga bastante na tração lenta pode quebrar de forma frágil sob impacto a baixa temperatura, e uma peça que aguenta a carga estática pode trincar depois de milhões de ciclos bem abaixo dessa carga.

Ensaios destrutivos e não destrutivos

Ensaios destrutivos deformam, rompem ou marcam o corpo de prova, que não volta ao uso. A apostila de ensaios de materiais do Telecurso 2000 (SENAI) usa um critério amplo: é destrutivo todo ensaio que deixa algum sinal na peça, mesmo sem inutilizá-la. Tração, compressão, flexão, dobramento, cisalhamento, torção, embutimento, arrancamento, aderência, impacto, fadiga e fluência são destrutivos.

Ensaios não destrutivos (END) inspecionam a peça sem comprometer o uso. Os mais comuns são a inspeção visual, o ultrassom, o líquido penetrante, as partículas magnéticas, a radiografia, as correntes parasitas e a emissão acústica. Um ponto que quase ninguém explica: os END não são, a rigor, ensaios mecânicos. Eles procuram defeitos (trincas, poros, falta de fusão) e não medem propriedades como resistência ou alongamento. Os dois se completam: o ensaio mecânico qualifica o material e o procedimento, e o END confere cada peça produzida.

Na foto, um END por ultrassom: o técnico apoia o cabeçote, com gel acoplante, ao lado do cordão de solda, e o aparelho ao fundo mostra os ecos da onda sonora que atravessou a chapa. Um eco fora do lugar indica uma descontinuidade na solda, e a peça segue inteira para o uso.

Técnico com luva apoiando um cabeçote de ultrassom com gel acoplante sobre uma chapa de aço ao lado do cordão de solda, com o aparelho de ultrassom ao fundo mostrando os ecos
Ensaio não destrutivo por ultrassom: procura defeitos na solda sem inutilizar a peça

O ensaio de dureza é destrutivo ou não destrutivo?

As fontes divergem, e vale entender por quê. Pela definição estrita, é destrutivo: o penetrador deixa uma impressão permanente, e o Telecurso 2000 e as aulas da UFSM o colocam entre os destrutivos. Fabricantes de equipamento, como a ZwickRoell, o classificam como não destrutivo, porque a marca é pequena e a peça muitas vezes segue em serviço. Na prática industrial o termo mais preciso é semidestrutivo. As próprias normas admitem a deformação: a ISO 6508-1:2023 (Rockwell) exige espessura de pelo menos 10 vezes a profundidade da impressão com penetrador de diamante e 15 vezes com esfera. Em superfície funcional polida ou camada fina, a impressão pode reprovar a peça. Veja o artigo sobre dureza.

Os principais ensaios, um a um

Cada resumo abaixo diz como a carga é aplicada, o que se mede e onde o ensaio é usado. Fórmulas, corpos de prova, passo a passo e exercícios ficam no artigo próprio de cada ensaio, no link.

Ensaio de tração

O corpo de prova recebe uma força de tração axial, crescente, até a ruptura, e a máquina registra força e alongamento, que viram a curva tensão × deformação. É o ensaio mecânico mais executado, ao lado da dureza, porque de uma só curva saem o módulo de elasticidade, o limite de escoamento, o limite de resistência, o alongamento e a estricção. Serve para aceitar lotes e para projetar o que trabalha tracionado, como cabos de aço, parafusos, vergalhões e componentes estruturais, da construção civil às indústrias automotiva, aeroespacial e biomédica. Detalhes em ensaio de tração e diagrama tensão-deformação.

Ensaio de compressão

O corpo de prova é colocado entre dois pratos e comprimido com carga crescente; a máquina registra força e encurtamento, e deles sai a resistência à compressão. É o ensaio de referência do concreto (a resistência característica fck), de cerâmicas, blocos, argamassas, espumas e embalagens, materiais que em serviço sustentam carga comprimidos, como pilares e fundações. Em metais dúcteis o corpo de prova embarriga sem romper, então não há carga de ruptura a registrar. Veja ensaio de compressão.

Ensaio de flexão

Uma barra apoiada em dois pontos recebe carga no meio (flexão em três pontos) ou em dois pontos entre os apoios (quatro pontos). A carga curva a barra: a face de baixo fica tracionada e a de cima, comprimida, e a resistência à flexão é a maior tensão na face tracionada. O ensaio mede também o módulo em flexão de plásticos, compósitos, cerâmicas, madeira e concreto, materiais que em serviço trabalham como vigas, lajes, placas e prateleiras. Veja ensaio de flexão.

Ensaio de dobramento

O corpo de prova é dobrado sobre um pino até 90° ou 180°, e depois se examina a face externa, a que ficou tracionada, à procura de trincas. O resultado não é uma força: o ensaio é qualitativo, aprovado ou reprovado, e verifica se o material aguenta ser dobrado sem trincar, como se exige de vergalhões, tubos, chapas e soldas. É muito usado no controle de vergalhões e na qualificação de soldadores. Veja ensaio de dobramento.

Ensaio de cisalhamento

O esforço de cisalhamento faz uma seção do material deslizar sobre a vizinha, como num pino cortado por duas chapas. O ensaio reproduz esse corte e mede a tensão de cisalhamento τ na ruptura, o dado de projeto de pinos, rebites, parafusos, adesivos e juntas soldadas ou coladas. Veja ensaio de cisalhamento. O cisalhamento direto de solos é outro ensaio, da geotecnia.

Ensaio de torção

Uma ponta da barra gira em relação à outra enquanto a máquina mede o torque e o ângulo de giro. Do ensaio saem o torque máximo, a resistência à torção, o ângulo de torção e o módulo de cisalhamento G de eixos, molas e parafusos, em metais, polímeros e compósitos. Veja ensaio de torção.

Ensaio de embutimento

Uma chapa fina é presa e um punção esférico a empurra até aparecer a primeira trinca; a profundidade atingida, em milímetros, é o índice Erichsen (IE). O resultado mede a estampabilidade: indica se a chapa aguenta ser conformada em peças como latas, utensílios e componentes automotivos sem rachar. Veja ensaio de embutimento.

Ensaios de arrancamento e de aderência

Os dois avaliam a união entre materiais, e não o material isolado. No arrancamento se traciona um elemento embutido (ancoragem, parafuso, barra no concreto) até ele sair, e o resultado é a força máxima de arrancamento. Na aderência se traciona um revestimento, uma pintura, uma argamassa ou um adesivo até ele descolar da base, e o resultado é a tensão de aderência. Veja ensaio de arrancamento e ensaio de aderência.

Ensaio de dureza

Um penetrador é pressionado contra a superfície com carga definida, e o tamanho ou a profundidade da impressão dá a dureza. Cada método tem o seu penetrador: no Brinell, uma esfera de metal duro; no Vickers, uma pirâmide de diamante de base quadrada; no Rockwell, um cone de diamante ou uma esfera. A dureza mede a resistência à penetração localizada na superfície, e não a carga que a seção inteira suporta; nos aços as duas costumam andar juntas, mas não são a mesma propriedade. É rápido e serve para controlar tratamento térmico e resistência ao desgaste. Veja ensaio de dureza.

Ensaio de impacto

Um pêndulo rompe com um golpe um corpo de prova entalhado, e a energia absorvida na fratura, em joules, mede a tenacidade do material. No Charpy o corpo de prova fica deitado, biapoiado, e recebe o golpe no lado oposto ao entalhe; no Izod fica em pé, engastado em balanço. No Charpy da ISO 148-1:2016, o corpo de prova tem 10 × 10 × 55 mm e entalhe em V de 2 mm. Ensaiado em várias temperaturas, revela a transição dúctil-frágil dos aços. Veja ensaio de impacto e tenacidade.

Ensaio de fadiga

O corpo de prova recebe ciclos repetidos de carga, abaixo da resistência estática, até romper. Cada nível de tensão dá um número de ciclos até a falha, e o conjunto forma a curva S-N (tensão × número de ciclos), a curva de vida em fadiga do material. É o ensaio de eixos, bielas, molas, engrenagens, estruturas de aeronaves e implantes, que falham por ciclos muito abaixo da resistência estática. Veja ensaio de fadiga.

Ensaio de fluência

O corpo de prova fica sob carga constante, em geral a alta temperatura, por horas ou milhares de horas, e se mede o alongamento ao longo do tempo. É o ensaio dos materiais de caldeiras, turbinas, tubulações quentes e reatores. Fadiga e fluência são falhas que dependem do tempo, mas por causas diferentes: a fadiga vem da repetição da carga, a fluência vem da permanência dela. Uma é questão de quantas vezes; a outra, de por quanto tempo. Veja ensaio de fluência.

Outros ensaios: rasgamento e desgaste

Certos produtos têm ensaios próprios, cada um com norma própria. O de rasgamento mede a resistência à propagação de um rasgo em filmes plásticos, embalagens, tecidos e elastômeros. Os de desgaste medem a perda de material por contato e movimento relativo com outra superfície, por abrasão ou por deslizamento, e orientam a escolha de materiais, revestimentos e tratamentos superficiais para engrenagens, rolamentos e outras partes de máquinas.

Os ensaios mecânicos e o que cada um mede

A tabela abaixo reúne, para consulta rápida, o resultado que cada ensaio entrega e a norma principal. As unidades mostram a natureza de cada resultado: MPa para tensões, joules para energia, milímetros para o índice Erichsen, horas para a fluência e, no dobramento, só aprovado ou reprovado.

EnsaioO que medeNorma principal
Traçãomódulo E (GPa), escoamento e resistência (MPa), alongamento e estricção (%)ISO 6892-1:2019; ASTM E8/E8M; plásticos ISO 527-1, ASTM D638
Compressãoresistência à compressão (MPa), móduloconcreto ABNT NBR 5739:2018
Flexãoresistência à flexão (MPa), módulo em flexãoplásticos ISO 178, ASTM D790
Dobramentoaprovado ou reprovado: trinca na face tracionadaISO 7438:2020
Cisalhamentotensão de cisalhamento τ (MPa)conforme o produto (pinos, fixadores, adesivos)
Torçãomódulo de cisalhamento G (GPa), τ, ângulo de torçãoconforme o produto
Embutimentoíndice Erichsen IE (mm até a trinca)ISO 20482:2013
Arrancamentoforça de arrancamento (kN)conforme o produto (ancoragens, parafusos)
Aderênciatensão de aderência (MPa)conforme o produto (argamassas, revestimentos)
DurezaHBW, HV, HRC (escalas)ISO 6506-1:2014, ISO 6507-1:2023, ISO 6508-1:2023
Impactoenergia absorvida KV ou KU (J)ISO 148-1:2016; ASTM E23
Fadigacurva S-N, resistência à fadiga (MPa a N ciclos)ISO 1099:2017; ASTM E466-21
Fluênciataxa de fluência, tempo até a ruptura (h)ASTM E139-24

Os nove primeiros da tabela, da tração à aderência, são feitos na mesma máquina universal de ensaios, trocando garras e dispositivos. Os equipamentos dos demais estão na seção sobre a máquina, no fim do artigo.

O que não é ensaio: resiliência, deformação e fratura

Muitos textos (inclusive a versão anterior deste artigo) listam "ensaio de resiliência", "ensaio de deformação" e "ensaio de estampabilidade" ao lado da tração. Não são métodos normalizados, e sim grandezas ou propriedades:

  • Resiliência é a energia armazenada no trecho elástico, calculada da curva do ensaio de tração.
  • Deformação (ε = ΔL/L0) é medida em quase todos os ensaios; veja deformação elástica e deformação plástica.
  • Estampabilidade é a propriedade da chapa que o ensaio de embutimento avalia.
  • "Ensaio de fratura" é vago. Quando se fala em fratura frágil, em geral é o Charpy. A tenacidade à fratura (KIC) da mecânica da fratura tem norma própria, a ASTM E399.

Propriedades mecânicas obtidas nos ensaios

Cada propriedade mecânica sai de um ensaio específico, e algumas de mais de um. A tabela abaixo faz o caminho inverso da tabela de ensaios: parte da propriedade que a especificação pede e chega ao ensaio que a fornece.

PropriedadeEnsaio
Módulo de elasticidadetração, compressão, flexão
Limite de escoamentotração
Limite de resistênciatração
Ductilidade (alongamento e estricção)tração, dobramento
Durezadureza
Tenacidadeimpacto, tração
Resistência à fadigafadiga
Resistência à fluênciafluência

O conjunto completo, com definições e valores típicos, está em propriedades mecânicas dos materiais.

Por que a norma fixa corpo de prova, temperatura e velocidade

O resultado de um ensaio mecânico depende das condições, e por isso a norma as fixa:

  • Geometria: na ASTM E8/E8M, a principal diferença entre os corpos de prova E8 e E8M é o comprimento de medida (4D contra 5D), o que muda o alongamento medido. A ISO 148-1 avisa que resultados Charpy com cutelos de 2 mm e de 8 mm podem não ser comparáveis.
  • Temperatura: a ASTM E8 considera ambiente de 10 °C a 38 °C. O Charpy padrão da ISO 148-1 é a 23 °C ± 5 °C, e perto da transição dúctil-frágil alguns graus mudam tudo.
  • Velocidade: a ASTM D638 afirma que as propriedades de tração dos plásticos variam com a velocidade e o ambiente, e que dados obtidos em outras condições não valem para outras escalas de tempo.

Por isso um relatório de ensaio sempre informa a norma e a edição, o corpo de prova, a temperatura e a velocidade.

Calibração e rastreabilidade: máquina, extensômetro e laboratório

Fixar as condições não basta se os instrumentos medem errado. Numa máquina de ensaios, a força é medida pela célula de carga, e o alongamento, pelo extensômetro, um sensor preso ao próprio corpo de prova; a travessa é a parte móvel que desloca uma das garras. Cada um desses elementos tem norma de calibração, e o laboratório tem norma de competência:

  • Máquina: a ISO 7500-1:2018 (no Brasil, ABNT NBR ISO 7500-1) especifica a calibração do sistema de medição de força das máquinas de tração e compressão e as classifica em classes 0,5, 1, 2 e 3. Na classe 1, o erro relativo de indicação admitido é de ±1 %.
  • Extensômetro: a ISO 9513 classifica os extensômetros em classes 0,2, 0,5, 1 e 2. O equivalente americano é a ASTM E83. O módulo de elasticidade exige extensômetro: o deslocamento da travessa inclui folgas e a deformação das garras e da estrutura.
  • Laboratório: a ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 define os requisitos de competência de laboratórios de ensaio e calibração. No Brasil, a acreditação é dada pela Cgcre/Inmetro, e a norma exige rastreabilidade das medições ao Sistema Internacional por uma cadeia de calibrações.

Como escolher o ensaio pela solicitação da peça

A escolha parte do esforço que a peça vai sofrer em serviço, e não do material em si. Uma peça que trabalha tracionada pede ensaio de tração; uma que sofre carga repetida pede fadiga; uma que fica sob carga constante a alta temperatura pede fluência. Ensaiar no esforço errado produz um número correto que não responde à pergunta do projeto. A tabela abaixo cruza a solicitação em serviço com o ensaio principal e, quando há, o complementar.

A peça em serviço sofre…Ensaio principalComplementar
tração axial (cabo, parafuso, vergalhão)traçãodobramento (vergalhão)
esmagamento (pilar, bloco, concreto)compressão
carga transversal (viga, prateleira, laminado)flexão
conformação de chapa (estampagem)embutimentotração (coeficientes r e n)
corte de pino ou rebitecisalhamento
giro (eixo, mola helicoidal)torçãofadiga torcional
choque, baixa temperaturaimpacto Charpy
vibração, ciclos (eixo, biela, implante)fadiga
alta temperatura por muito tempofluência
desgaste, controle de tratamento térmicodureza
suspeita de trinca interna em peça prontaEND (ultrassom, radiografia)

Exercícios resolvidos de ensaios mecânicos

Exercício 1: limite de resistência. Um corpo de prova cilíndrico de aço com d0 = 10,0 mm rompe com força máxima de 36,0 kN.

A0 = π × 10,0² / 4 = 78,54 mm². Rm = 36.000 N / 78,54 mm² = 458 MPa.

Exercício 2: módulo de elasticidade com extensômetro. No mesmo corpo de prova, com extensômetro de L0 = 50 mm, a força de 20,0 kN (trecho elástico) produz ΔL = 0,0615 mm.

σ = 20.000 / 78,54 = 254,6 MPa. ε = 0,0615 / 50 = 0,00123. E = 254,6 / 0,00123 = 207 GPa, valor típico do aço. O alongamento é de centésimos de milímetro: por isso o módulo se mede com extensômetro, e não pelo deslocamento da travessa.

Exercício 3: kgf para kN. Uma máquina antiga indica 5.000 kgf.

F = 5.000 × 9,80665 = 49.033 N ≈ 49,0 kN. Usar g = 10 dá 50 kN, um erro de cerca de 2 %.

Exercício 4: compressão de concreto. Um corpo de prova cilíndrico de 100 × 200 mm (relação altura/diâmetro de 2,0, dentro do limite da NBR 5739) rompe com 235,6 kN.

A = π × 100² / 4 = 7.854 mm². fc = 235.600 / 7.854 = 30,0 MPa.

Exercício 5: capacidade da máquina. Um vergalhão de 16 mm (área nominal de 201,1 mm²) com resistência real de 650 MPa, valor ilustrativo, porque a NBR 7480 fixa mínimos e não o valor real.

F = 650 × 201,1 = 130.700 N ≈ 131 kN. A máquina precisa de folga acima disso, como a faixa de 200 kN.

Erros comuns em ensaios mecânicos

  1. Chamar propriedade de ensaio: resiliência, deformação e estampabilidade são grandezas, não ensaios.
  2. Tratar a dureza como END sem ressalva: ela deixa impressão permanente e exige espessura mínima.
  3. Listar END como ensaio mecânico sem explicar: END procuram defeitos, não medem propriedades.
  4. Comparar resultados de normas diferentes: E8 (4D) e E8M (5D) dão alongamentos diferentes; a ASTM D638 e a ISO 527-1 tratam do mesmo assunto com conteúdo técnico diferente.
  5. Medir o módulo pelo deslocamento da travessa em vez do extensômetro.
  6. Usar dado de plástico fora da velocidade e da temperatura do ensaio.
  7. Ensaiar em máquina sem calibração vigente ou fora da faixa de classe: o resultado perde a rastreabilidade.
  8. Confundir kgf com kN ou arredondar g para 10 sem avisar.
  9. Citar a norma sem a edição: um relatório com a edição errada pode ser recusado.
  10. Misturar com ensaios de solos: triaxial, CBR e adensamento são da geotecnia, com normas e equipamentos próprios (veja ensaios para solos).

Normas dos ensaios mecânicos

A tabela abaixo reúne, para consulta rápida, as normas citadas ao longo do artigo e o assunto de cada uma: métodos de ensaio, requisitos de produto, calibração e competência de laboratório.

NormaAssunto
ASTM E6terminologia dos métodos de ensaio mecânico
ISO 6892-1:2019 e ABNT NBR ISO 6892-1:2024tração de metais à temperatura ambiente
ASTM E8/E8Mtração de metais
ISO 527-1:2019 e ASTM D638-22tração de plásticos
ABNT NBR 5739:2018compressão de corpos de prova cilíndricos de concreto
ABNT NBR 7480requisitos do aço para concreto armado (tração e dobramento)
ISO 7438:2020dobramento de metais
ISO 20482:2013embutimento Erichsen
ISO 6506-1:2014, ISO 6507-1:2023, ISO 6508-1:2023dureza Brinell, Vickers e Rockwell
ISO 148-1:2016 e ASTM E23impacto Charpy (e Izod na ASTM)
ISO 1099:2017 e ASTM E466-21fadiga axial
ASTM E139-24fluência e fluência-ruptura
ISO 7500-1:2018calibração de máquinas de tração e compressão
ISO 9513calibração de extensômetros
ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017competência de laboratórios de ensaio e calibração

Máquina para ensaios mecânicos

A máquina universal de ensaios é o equipamento central: faz tração, compressão, flexão, cisalhamento, dobramento, embutimento, arrancamento e aderência, trocando apenas garras e dispositivos. Com a força da célula de carga e o alongamento do extensômetro, o software calcula tensão, deformação, módulo, escoamento e resistência e gera o relatório pela norma escolhida.

A linha da Biopdi vai de 200 N a 1.000 kN, com exatidão de força classe 1 (ABNT NBR ISO 7500-1:2023). A capacidade se escolhe pelo material:

A máquina universal Biopdi também recebe um módulo dinâmico, para ensaios cíclicos, e um módulo de torção associado à tração, para ensaios combinados; a configuração é definida sob consulta. Para torção pura, a Biopdi tem a máquina de ensaio de torque, e para compressão pesada, a prensa elétrica e hidráulica. Impacto e dureza usam equipamentos próprios (pêndulo Charpy e durômetro); fadiga de alta frequência e fluência a alta temperatura costumam usar máquinas dedicadas. Para dispositivos e ensaios fora do padrão, veja os projetos especiais ou peça um orçamento.

Outros ensaios e referências técnicas

Referências técnicas relacionadas

Perguntas frequentes

O que são ensaios mecânicos?

São procedimentos padronizados que aplicam um esforço controlado a um corpo de prova e medem a resposta, para obter propriedades como resistência, rigidez, ductilidade, dureza e tenacidade. A norma fixa o corpo de prova, a velocidade e a temperatura para que o resultado seja comparável.

Quais são os ensaios mecânicos?

Os principais são tração, compressão, flexão, dobramento, cisalhamento, torção, embutimento, arrancamento, aderência, dureza, impacto (Charpy e Izod), fadiga e fluência. O de tração é o mais executado, ao lado da dureza.

Quais são os tipos de ensaios mecânicos?

Pela integridade da peça, destrutivos e não destrutivos. Pelo modo de carga, quase-estáticos (carga lenta e crescente), dinâmicos (impacto e fadiga) e de longa duração (fluência).

O que são ensaios mecânicos destrutivos?

São os que deformam, rompem ou marcam o corpo de prova, que não volta ao uso, como tração, impacto e fadiga. Pelo critério do Telecurso 2000, é destrutivo todo ensaio que deixa algum sinal na peça.

O ensaio de dureza é destrutivo ou não destrutivo?

Deixa uma impressão permanente, então é destrutivo pela definição estrita. Como a marca é pequena e a peça muitas vezes segue em uso, fabricantes o chamam de não destrutivo, e na prática o termo mais preciso é semidestrutivo.

Quais são três tipos de ensaios não destrutivos?

Ultrassom, líquido penetrante e partículas magnéticas. Também são END a radiografia, as correntes parasitas, a inspeção visual e a emissão acústica. Eles procuram defeitos e não medem propriedades mecânicas.

Quais são os tipos de ensaio de impacto?

Charpy, com o corpo de prova biapoiado e entalhe em V ou U, e Izod, com o corpo de prova engastado em balanço. O resultado é a energia absorvida em joules.

Qual a diferença entre ensaio estático e dinâmico?

No quase-estático a carga cresce devagar e sem choque, como na tração. No dinâmico ela vem de um golpe (impacto) ou de ciclos repetidos (fadiga), o que revela a fratura frágil e a trinca por fadiga.

Que máquina faz ensaios mecânicos?

A máquina universal de ensaios faz tração, compressão, flexão, cisalhamento, dobramento, embutimento, arrancamento e aderência, trocando garras e dispositivos; com os módulos dinâmico e de torção, também faz ensaios cíclicos e de tração combinada com torção. Impacto e dureza usam equipamentos próprios.

Por que a máquina de ensaio precisa ser calibrada?

Para que a força medida seja rastreável e confiável. A ISO 7500-1 classifica o sistema de força em classes 0,5, 1, 2 e 3; na classe 1, o erro admitido é de ±1 %. Laboratórios acreditados seguem a ABNT NBR ISO/IEC 17025.

Quais normas regem os ensaios mecânicos de metais?

Tração: ISO 6892-1 (ABNT NBR ISO 6892-1:2024) e ASTM E8/E8M. Impacto: ISO 148-1 e ASTM E23. Dureza: ISO 6506-1, 6507-1 e 6508-1. Dobramento: ISO 7438. Fadiga: ISO 1099 e ASTM E466. Fluência: ASTM E139.

Qual a diferença entre ensaio mecânico e ensaio não destrutivo?

O ensaio mecânico mede propriedades do material, em geral destruindo o corpo de prova. O ensaio não destrutivo procura defeitos numa peça pronta sem inutilizá-la. Um qualifica o material; o outro confere cada peça.

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