Ensaios mecânicos são procedimentos padronizados que aplicam um esforço controlado a um corpo de prova e medem a resposta do material. O esforço pode ser tração, compressão, flexão, torção, impacto ou carga cíclica. Com eles se obtêm propriedades como resistência, rigidez, ductilidade, dureza e tenacidade. Os principais são os ensaios de tração, compressão, flexão, dobramento, cisalhamento, torção, embutimento, arrancamento, aderência, dureza, impacto, fadiga e fluência. Normas como a ISO 6892-1 e a ASTM E8/E8M fixam o corpo de prova, a velocidade e a temperatura para que o resultado seja comparável entre laboratórios.
Este guia é o mapa da área. Ele mostra como os ensaios se classificam, o que cada um mede, qual norma e qual equipamento usar e como escolher o ensaio certo para uma peça. Cada ensaio tem um resumo aqui e um artigo próprio, com fórmulas, exercícios e erros comuns, no link.
Na foto, corpos de prova de aço depois de quatro ensaios diferentes, e cada esforço deixa uma marca própria: o de tração rompeu em duas partes, o cilindro de compressão embarrigou sem romper, a barra de dobramento virou um U e a barra entalhada partiu com o golpe do pêndulo no ensaio de impacto.

O que são ensaios mecânicos e para que servem
Um ensaio mecânico coloca um corpo de prova, com forma e dimensões definidas pela norma, numa máquina que aplica força e registra força e deformação. O resultado é um número (uma resistência em MPa, uma energia em joules, uma dureza) ou uma curva, como a curva tensão × deformação do ensaio de tração. A terminologia comum da área (força, tensão, deformação, escoamento, resistência) está na ASTM E6.
A ASTM E8/E8M, norma de tração de metais, resume bem a utilidade: o ensaio dá informação sobre resistência e ductilidade que serve para comparar materiais, desenvolver ligas, controlar a qualidade e projetar. Na prática, os ensaios mecânicos servem para:
- Selecionar o material certo para uma peça.
- Validar o projeto, conferindo se o material atende às especificações de resistência e durabilidade.
- Controlar a qualidade e aceitar lotes de aço, vergalhão, chapa, concreto, plástico ou fixadores.
- Prevenir e investigar falhas, descobrindo por que uma peça quebrou.
Tipos de ensaios mecânicos
Há duas classificações, e elas se cruzam. A primeira é pela integridade da peça: destrutivos e não destrutivos. A segunda é pelo modo de aplicação da carga: quase-estáticos, dinâmicos e de longa duração.
Por baixo das duas classificações estão os cinco esforços básicos, e a maioria dos ensaios reproduz um deles. O esquema abaixo mostra cada esforço com as setas de carga e a forma que a peça assume: na tração ela se alonga, na compressão encurta, na flexão se curva, no cisalhamento uma seção desliza sobre a vizinha e na torção uma ponta gira em relação à outra.

Pelo modo de aplicação da carga, o ensaio quase-estático aplica carga crescente, devagar e sem choque, até a ruptura ou até o valor que se quer medir; é o caso da tração e da maioria dos ensaios feitos na máquina universal. O dinâmico aplica a carga de uma vez, num golpe, como no impacto, ou em ciclos repetidos abaixo da resistência estática, como na fadiga. O de longa duração mantém a carga constante por horas ou milhares de horas, em geral a alta temperatura, como na fluência. A tabela resume as categorias e os ensaios de cada uma.
| Categoria | Como a carga age | Ensaios |
|---|---|---|
| Quase-estáticos | carga crescente, lenta e contínua, sem choque | tração, compressão, flexão, dobramento, cisalhamento, torção, embutimento, arrancamento, aderência, dureza |
| Dinâmicos por impacto | um golpe em alta velocidade | Charpy, Izod, queda de peso |
| Dinâmicos cíclicos | ciclos repetidos de carga, abaixo da resistência estática | fadiga axial, flexão rotativa, torção alternada |
| Longa duração | carga constante por horas ou milhares de horas, em geral a alta temperatura | fluência, fluência-ruptura, relaxação |
A diferença importa porque o mesmo material se comporta de outro jeito conforme a velocidade da carga. Um aço que alonga bastante na tração lenta pode quebrar de forma frágil sob impacto a baixa temperatura, e uma peça que aguenta a carga estática pode trincar depois de milhões de ciclos bem abaixo dessa carga.
Ensaios destrutivos e não destrutivos
Ensaios destrutivos deformam, rompem ou marcam o corpo de prova, que não volta ao uso. A apostila de ensaios de materiais do Telecurso 2000 (SENAI) usa um critério amplo: é destrutivo todo ensaio que deixa algum sinal na peça, mesmo sem inutilizá-la. Tração, compressão, flexão, dobramento, cisalhamento, torção, embutimento, arrancamento, aderência, impacto, fadiga e fluência são destrutivos.
Ensaios não destrutivos (END) inspecionam a peça sem comprometer o uso. Os mais comuns são a inspeção visual, o ultrassom, o líquido penetrante, as partículas magnéticas, a radiografia, as correntes parasitas e a emissão acústica. Um ponto que quase ninguém explica: os END não são, a rigor, ensaios mecânicos. Eles procuram defeitos (trincas, poros, falta de fusão) e não medem propriedades como resistência ou alongamento. Os dois se completam: o ensaio mecânico qualifica o material e o procedimento, e o END confere cada peça produzida.
Na foto, um END por ultrassom: o técnico apoia o cabeçote, com gel acoplante, ao lado do cordão de solda, e o aparelho ao fundo mostra os ecos da onda sonora que atravessou a chapa. Um eco fora do lugar indica uma descontinuidade na solda, e a peça segue inteira para o uso.

O ensaio de dureza é destrutivo ou não destrutivo?
As fontes divergem, e vale entender por quê. Pela definição estrita, é destrutivo: o penetrador deixa uma impressão permanente, e o Telecurso 2000 e as aulas da UFSM o colocam entre os destrutivos. Fabricantes de equipamento, como a ZwickRoell, o classificam como não destrutivo, porque a marca é pequena e a peça muitas vezes segue em serviço. Na prática industrial o termo mais preciso é semidestrutivo. As próprias normas admitem a deformação: a ISO 6508-1:2023 (Rockwell) exige espessura de pelo menos 10 vezes a profundidade da impressão com penetrador de diamante e 15 vezes com esfera. Em superfície funcional polida ou camada fina, a impressão pode reprovar a peça. Veja o artigo sobre dureza.
Os principais ensaios, um a um
Cada resumo abaixo diz como a carga é aplicada, o que se mede e onde o ensaio é usado. Fórmulas, corpos de prova, passo a passo e exercícios ficam no artigo próprio de cada ensaio, no link.
Ensaio de tração
O corpo de prova recebe uma força de tração axial, crescente, até a ruptura, e a máquina registra força e alongamento, que viram a curva tensão × deformação. É o ensaio mecânico mais executado, ao lado da dureza, porque de uma só curva saem o módulo de elasticidade, o limite de escoamento, o limite de resistência, o alongamento e a estricção. Serve para aceitar lotes e para projetar o que trabalha tracionado, como cabos de aço, parafusos, vergalhões e componentes estruturais, da construção civil às indústrias automotiva, aeroespacial e biomédica. Detalhes em ensaio de tração e diagrama tensão-deformação.
Ensaio de compressão
O corpo de prova é colocado entre dois pratos e comprimido com carga crescente; a máquina registra força e encurtamento, e deles sai a resistência à compressão. É o ensaio de referência do concreto (a resistência característica fck), de cerâmicas, blocos, argamassas, espumas e embalagens, materiais que em serviço sustentam carga comprimidos, como pilares e fundações. Em metais dúcteis o corpo de prova embarriga sem romper, então não há carga de ruptura a registrar. Veja ensaio de compressão.
Ensaio de flexão
Uma barra apoiada em dois pontos recebe carga no meio (flexão em três pontos) ou em dois pontos entre os apoios (quatro pontos). A carga curva a barra: a face de baixo fica tracionada e a de cima, comprimida, e a resistência à flexão é a maior tensão na face tracionada. O ensaio mede também o módulo em flexão de plásticos, compósitos, cerâmicas, madeira e concreto, materiais que em serviço trabalham como vigas, lajes, placas e prateleiras. Veja ensaio de flexão.
Ensaio de dobramento
O corpo de prova é dobrado sobre um pino até 90° ou 180°, e depois se examina a face externa, a que ficou tracionada, à procura de trincas. O resultado não é uma força: o ensaio é qualitativo, aprovado ou reprovado, e verifica se o material aguenta ser dobrado sem trincar, como se exige de vergalhões, tubos, chapas e soldas. É muito usado no controle de vergalhões e na qualificação de soldadores. Veja ensaio de dobramento.
Ensaio de cisalhamento
O esforço de cisalhamento faz uma seção do material deslizar sobre a vizinha, como num pino cortado por duas chapas. O ensaio reproduz esse corte e mede a tensão de cisalhamento τ na ruptura, o dado de projeto de pinos, rebites, parafusos, adesivos e juntas soldadas ou coladas. Veja ensaio de cisalhamento. O cisalhamento direto de solos é outro ensaio, da geotecnia.
Ensaio de torção
Uma ponta da barra gira em relação à outra enquanto a máquina mede o torque e o ângulo de giro. Do ensaio saem o torque máximo, a resistência à torção, o ângulo de torção e o módulo de cisalhamento G de eixos, molas e parafusos, em metais, polímeros e compósitos. Veja ensaio de torção.
Ensaio de embutimento
Uma chapa fina é presa e um punção esférico a empurra até aparecer a primeira trinca; a profundidade atingida, em milímetros, é o índice Erichsen (IE). O resultado mede a estampabilidade: indica se a chapa aguenta ser conformada em peças como latas, utensílios e componentes automotivos sem rachar. Veja ensaio de embutimento.
Ensaios de arrancamento e de aderência
Os dois avaliam a união entre materiais, e não o material isolado. No arrancamento se traciona um elemento embutido (ancoragem, parafuso, barra no concreto) até ele sair, e o resultado é a força máxima de arrancamento. Na aderência se traciona um revestimento, uma pintura, uma argamassa ou um adesivo até ele descolar da base, e o resultado é a tensão de aderência. Veja ensaio de arrancamento e ensaio de aderência.
Ensaio de dureza
Um penetrador é pressionado contra a superfície com carga definida, e o tamanho ou a profundidade da impressão dá a dureza. Cada método tem o seu penetrador: no Brinell, uma esfera de metal duro; no Vickers, uma pirâmide de diamante de base quadrada; no Rockwell, um cone de diamante ou uma esfera. A dureza mede a resistência à penetração localizada na superfície, e não a carga que a seção inteira suporta; nos aços as duas costumam andar juntas, mas não são a mesma propriedade. É rápido e serve para controlar tratamento térmico e resistência ao desgaste. Veja ensaio de dureza.
Ensaio de impacto
Um pêndulo rompe com um golpe um corpo de prova entalhado, e a energia absorvida na fratura, em joules, mede a tenacidade do material. No Charpy o corpo de prova fica deitado, biapoiado, e recebe o golpe no lado oposto ao entalhe; no Izod fica em pé, engastado em balanço. No Charpy da ISO 148-1:2016, o corpo de prova tem 10 × 10 × 55 mm e entalhe em V de 2 mm. Ensaiado em várias temperaturas, revela a transição dúctil-frágil dos aços. Veja ensaio de impacto e tenacidade.
Ensaio de fadiga
O corpo de prova recebe ciclos repetidos de carga, abaixo da resistência estática, até romper. Cada nível de tensão dá um número de ciclos até a falha, e o conjunto forma a curva S-N (tensão × número de ciclos), a curva de vida em fadiga do material. É o ensaio de eixos, bielas, molas, engrenagens, estruturas de aeronaves e implantes, que falham por ciclos muito abaixo da resistência estática. Veja ensaio de fadiga.
Ensaio de fluência
O corpo de prova fica sob carga constante, em geral a alta temperatura, por horas ou milhares de horas, e se mede o alongamento ao longo do tempo. É o ensaio dos materiais de caldeiras, turbinas, tubulações quentes e reatores. Fadiga e fluência são falhas que dependem do tempo, mas por causas diferentes: a fadiga vem da repetição da carga, a fluência vem da permanência dela. Uma é questão de quantas vezes; a outra, de por quanto tempo. Veja ensaio de fluência.
Outros ensaios: rasgamento e desgaste
Certos produtos têm ensaios próprios, cada um com norma própria. O de rasgamento mede a resistência à propagação de um rasgo em filmes plásticos, embalagens, tecidos e elastômeros. Os de desgaste medem a perda de material por contato e movimento relativo com outra superfície, por abrasão ou por deslizamento, e orientam a escolha de materiais, revestimentos e tratamentos superficiais para engrenagens, rolamentos e outras partes de máquinas.
Os ensaios mecânicos e o que cada um mede
A tabela abaixo reúne, para consulta rápida, o resultado que cada ensaio entrega e a norma principal. As unidades mostram a natureza de cada resultado: MPa para tensões, joules para energia, milímetros para o índice Erichsen, horas para a fluência e, no dobramento, só aprovado ou reprovado.
| Ensaio | O que mede | Norma principal |
|---|---|---|
| Tração | módulo E (GPa), escoamento e resistência (MPa), alongamento e estricção (%) | ISO 6892-1:2019; ASTM E8/E8M; plásticos ISO 527-1, ASTM D638 |
| Compressão | resistência à compressão (MPa), módulo | concreto ABNT NBR 5739:2018 |
| Flexão | resistência à flexão (MPa), módulo em flexão | plásticos ISO 178, ASTM D790 |
| Dobramento | aprovado ou reprovado: trinca na face tracionada | ISO 7438:2020 |
| Cisalhamento | tensão de cisalhamento τ (MPa) | conforme o produto (pinos, fixadores, adesivos) |
| Torção | módulo de cisalhamento G (GPa), τ, ângulo de torção | conforme o produto |
| Embutimento | índice Erichsen IE (mm até a trinca) | ISO 20482:2013 |
| Arrancamento | força de arrancamento (kN) | conforme o produto (ancoragens, parafusos) |
| Aderência | tensão de aderência (MPa) | conforme o produto (argamassas, revestimentos) |
| Dureza | HBW, HV, HRC (escalas) | ISO 6506-1:2014, ISO 6507-1:2023, ISO 6508-1:2023 |
| Impacto | energia absorvida KV ou KU (J) | ISO 148-1:2016; ASTM E23 |
| Fadiga | curva S-N, resistência à fadiga (MPa a N ciclos) | ISO 1099:2017; ASTM E466-21 |
| Fluência | taxa de fluência, tempo até a ruptura (h) | ASTM E139-24 |
Os nove primeiros da tabela, da tração à aderência, são feitos na mesma máquina universal de ensaios, trocando garras e dispositivos. Os equipamentos dos demais estão na seção sobre a máquina, no fim do artigo.
O que não é ensaio: resiliência, deformação e fratura
Muitos textos (inclusive a versão anterior deste artigo) listam "ensaio de resiliência", "ensaio de deformação" e "ensaio de estampabilidade" ao lado da tração. Não são métodos normalizados, e sim grandezas ou propriedades:
- Resiliência é a energia armazenada no trecho elástico, calculada da curva do ensaio de tração.
- Deformação (ε = ΔL/L0) é medida em quase todos os ensaios; veja deformação elástica e deformação plástica.
- Estampabilidade é a propriedade da chapa que o ensaio de embutimento avalia.
- "Ensaio de fratura" é vago. Quando se fala em fratura frágil, em geral é o Charpy. A tenacidade à fratura (KIC) da mecânica da fratura tem norma própria, a ASTM E399.
Propriedades mecânicas obtidas nos ensaios
Cada propriedade mecânica sai de um ensaio específico, e algumas de mais de um. A tabela abaixo faz o caminho inverso da tabela de ensaios: parte da propriedade que a especificação pede e chega ao ensaio que a fornece.
| Propriedade | Ensaio |
|---|---|
| Módulo de elasticidade | tração, compressão, flexão |
| Limite de escoamento | tração |
| Limite de resistência | tração |
| Ductilidade (alongamento e estricção) | tração, dobramento |
| Dureza | dureza |
| Tenacidade | impacto, tração |
| Resistência à fadiga | fadiga |
| Resistência à fluência | fluência |
O conjunto completo, com definições e valores típicos, está em propriedades mecânicas dos materiais.
Por que a norma fixa corpo de prova, temperatura e velocidade
O resultado de um ensaio mecânico depende das condições, e por isso a norma as fixa:
- Geometria: na ASTM E8/E8M, a principal diferença entre os corpos de prova E8 e E8M é o comprimento de medida (4D contra 5D), o que muda o alongamento medido. A ISO 148-1 avisa que resultados Charpy com cutelos de 2 mm e de 8 mm podem não ser comparáveis.
- Temperatura: a ASTM E8 considera ambiente de 10 °C a 38 °C. O Charpy padrão da ISO 148-1 é a 23 °C ± 5 °C, e perto da transição dúctil-frágil alguns graus mudam tudo.
- Velocidade: a ASTM D638 afirma que as propriedades de tração dos plásticos variam com a velocidade e o ambiente, e que dados obtidos em outras condições não valem para outras escalas de tempo.
Por isso um relatório de ensaio sempre informa a norma e a edição, o corpo de prova, a temperatura e a velocidade.
Calibração e rastreabilidade: máquina, extensômetro e laboratório
Fixar as condições não basta se os instrumentos medem errado. Numa máquina de ensaios, a força é medida pela célula de carga, e o alongamento, pelo extensômetro, um sensor preso ao próprio corpo de prova; a travessa é a parte móvel que desloca uma das garras. Cada um desses elementos tem norma de calibração, e o laboratório tem norma de competência:
- Máquina: a ISO 7500-1:2018 (no Brasil, ABNT NBR ISO 7500-1) especifica a calibração do sistema de medição de força das máquinas de tração e compressão e as classifica em classes 0,5, 1, 2 e 3. Na classe 1, o erro relativo de indicação admitido é de ±1 %.
- Extensômetro: a ISO 9513 classifica os extensômetros em classes 0,2, 0,5, 1 e 2. O equivalente americano é a ASTM E83. O módulo de elasticidade exige extensômetro: o deslocamento da travessa inclui folgas e a deformação das garras e da estrutura.
- Laboratório: a ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 define os requisitos de competência de laboratórios de ensaio e calibração. No Brasil, a acreditação é dada pela Cgcre/Inmetro, e a norma exige rastreabilidade das medições ao Sistema Internacional por uma cadeia de calibrações.
Como escolher o ensaio pela solicitação da peça
A escolha parte do esforço que a peça vai sofrer em serviço, e não do material em si. Uma peça que trabalha tracionada pede ensaio de tração; uma que sofre carga repetida pede fadiga; uma que fica sob carga constante a alta temperatura pede fluência. Ensaiar no esforço errado produz um número correto que não responde à pergunta do projeto. A tabela abaixo cruza a solicitação em serviço com o ensaio principal e, quando há, o complementar.
| A peça em serviço sofre… | Ensaio principal | Complementar |
|---|---|---|
| tração axial (cabo, parafuso, vergalhão) | tração | dobramento (vergalhão) |
| esmagamento (pilar, bloco, concreto) | compressão | |
| carga transversal (viga, prateleira, laminado) | flexão | |
| conformação de chapa (estampagem) | embutimento | tração (coeficientes r e n) |
| corte de pino ou rebite | cisalhamento | |
| giro (eixo, mola helicoidal) | torção | fadiga torcional |
| choque, baixa temperatura | impacto Charpy | |
| vibração, ciclos (eixo, biela, implante) | fadiga | |
| alta temperatura por muito tempo | fluência | |
| desgaste, controle de tratamento térmico | dureza | |
| suspeita de trinca interna em peça pronta | END (ultrassom, radiografia) |
Exercícios resolvidos de ensaios mecânicos
Exercício 1: limite de resistência. Um corpo de prova cilíndrico de aço com d0 = 10,0 mm rompe com força máxima de 36,0 kN.
A0 = π × 10,0² / 4 = 78,54 mm². Rm = 36.000 N / 78,54 mm² = 458 MPa.
Exercício 2: módulo de elasticidade com extensômetro. No mesmo corpo de prova, com extensômetro de L0 = 50 mm, a força de 20,0 kN (trecho elástico) produz ΔL = 0,0615 mm.
σ = 20.000 / 78,54 = 254,6 MPa. ε = 0,0615 / 50 = 0,00123. E = 254,6 / 0,00123 = 207 GPa, valor típico do aço. O alongamento é de centésimos de milímetro: por isso o módulo se mede com extensômetro, e não pelo deslocamento da travessa.
Exercício 3: kgf para kN. Uma máquina antiga indica 5.000 kgf.
F = 5.000 × 9,80665 = 49.033 N ≈ 49,0 kN. Usar g = 10 dá 50 kN, um erro de cerca de 2 %.
Exercício 4: compressão de concreto. Um corpo de prova cilíndrico de 100 × 200 mm (relação altura/diâmetro de 2,0, dentro do limite da NBR 5739) rompe com 235,6 kN.
A = π × 100² / 4 = 7.854 mm². fc = 235.600 / 7.854 = 30,0 MPa.
Exercício 5: capacidade da máquina. Um vergalhão de 16 mm (área nominal de 201,1 mm²) com resistência real de 650 MPa, valor ilustrativo, porque a NBR 7480 fixa mínimos e não o valor real.
F = 650 × 201,1 = 130.700 N ≈ 131 kN. A máquina precisa de folga acima disso, como a faixa de 200 kN.
Erros comuns em ensaios mecânicos
- Chamar propriedade de ensaio: resiliência, deformação e estampabilidade são grandezas, não ensaios.
- Tratar a dureza como END sem ressalva: ela deixa impressão permanente e exige espessura mínima.
- Listar END como ensaio mecânico sem explicar: END procuram defeitos, não medem propriedades.
- Comparar resultados de normas diferentes: E8 (4D) e E8M (5D) dão alongamentos diferentes; a ASTM D638 e a ISO 527-1 tratam do mesmo assunto com conteúdo técnico diferente.
- Medir o módulo pelo deslocamento da travessa em vez do extensômetro.
- Usar dado de plástico fora da velocidade e da temperatura do ensaio.
- Ensaiar em máquina sem calibração vigente ou fora da faixa de classe: o resultado perde a rastreabilidade.
- Confundir kgf com kN ou arredondar g para 10 sem avisar.
- Citar a norma sem a edição: um relatório com a edição errada pode ser recusado.
- Misturar com ensaios de solos: triaxial, CBR e adensamento são da geotecnia, com normas e equipamentos próprios (veja ensaios para solos).
Normas dos ensaios mecânicos
A tabela abaixo reúne, para consulta rápida, as normas citadas ao longo do artigo e o assunto de cada uma: métodos de ensaio, requisitos de produto, calibração e competência de laboratório.
| Norma | Assunto |
|---|---|
| ASTM E6 | terminologia dos métodos de ensaio mecânico |
| ISO 6892-1:2019 e ABNT NBR ISO 6892-1:2024 | tração de metais à temperatura ambiente |
| ASTM E8/E8M | tração de metais |
| ISO 527-1:2019 e ASTM D638-22 | tração de plásticos |
| ABNT NBR 5739:2018 | compressão de corpos de prova cilíndricos de concreto |
| ABNT NBR 7480 | requisitos do aço para concreto armado (tração e dobramento) |
| ISO 7438:2020 | dobramento de metais |
| ISO 20482:2013 | embutimento Erichsen |
| ISO 6506-1:2014, ISO 6507-1:2023, ISO 6508-1:2023 | dureza Brinell, Vickers e Rockwell |
| ISO 148-1:2016 e ASTM E23 | impacto Charpy (e Izod na ASTM) |
| ISO 1099:2017 e ASTM E466-21 | fadiga axial |
| ASTM E139-24 | fluência e fluência-ruptura |
| ISO 7500-1:2018 | calibração de máquinas de tração e compressão |
| ISO 9513 | calibração de extensômetros |
| ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017 | competência de laboratórios de ensaio e calibração |
Máquina para ensaios mecânicos
A máquina universal de ensaios é o equipamento central: faz tração, compressão, flexão, cisalhamento, dobramento, embutimento, arrancamento e aderência, trocando apenas garras e dispositivos. Com a força da célula de carga e o alongamento do extensômetro, o software calcula tensão, deformação, módulo, escoamento e resistência e gera o relatório pela norma escolhida.
A linha da Biopdi vai de 200 N a 1.000 kN, com exatidão de força classe 1 (ABNT NBR ISO 7500-1:2023). A capacidade se escolhe pelo material:
- 200 N a 1 kN: filmes, fios e embalagens.
- 2 a 10 kN: polímeros, elastômeros, têxteis e madeira.
- 5 a 50 kN: metais, chapas, compósitos e fixadores.
- 100 a 200 kN: vergalhões, perfis e cabos.
- 300, 600 e 1.000 kN: peças e barras grandes.
A máquina universal Biopdi também recebe um módulo dinâmico, para ensaios cíclicos, e um módulo de torção associado à tração, para ensaios combinados; a configuração é definida sob consulta. Para torção pura, a Biopdi tem a máquina de ensaio de torque, e para compressão pesada, a prensa elétrica e hidráulica. Impacto e dureza usam equipamentos próprios (pêndulo Charpy e durômetro); fadiga de alta frequência e fluência a alta temperatura costumam usar máquinas dedicadas. Para dispositivos e ensaios fora do padrão, veja os projetos especiais ou peça um orçamento.
Outros ensaios e referências técnicas
Ensaios realizados na máquina universal Biopdi
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A ABNT NBR 5739:2018, confirmada em 2023, é a norma do ensaio de compressão de corpos de prova cilíndricos de concreto: carga contínua a 0,45 ± 0,15 MPa/s até a ruptura e fc = 4F/(πD²), em MPa, com três algarismos significativos. Veja o que ela exige da máquina e do corpo de prova, a correção h/d, os tipos de ruptura A a G e as normas irmãs: NBR 7222 (compressão diametral), NBR 12142 (tração na flexão) e NBR 12118, cancelada em 02/2026 e substituída pela NBR 6136-2:2026.
Perguntas frequentes
O que são ensaios mecânicos?
São procedimentos padronizados que aplicam um esforço controlado a um corpo de prova e medem a resposta, para obter propriedades como resistência, rigidez, ductilidade, dureza e tenacidade. A norma fixa o corpo de prova, a velocidade e a temperatura para que o resultado seja comparável.
Quais são os ensaios mecânicos?
Os principais são tração, compressão, flexão, dobramento, cisalhamento, torção, embutimento, arrancamento, aderência, dureza, impacto (Charpy e Izod), fadiga e fluência. O de tração é o mais executado, ao lado da dureza.
Quais são os tipos de ensaios mecânicos?
Pela integridade da peça, destrutivos e não destrutivos. Pelo modo de carga, quase-estáticos (carga lenta e crescente), dinâmicos (impacto e fadiga) e de longa duração (fluência).
O que são ensaios mecânicos destrutivos?
São os que deformam, rompem ou marcam o corpo de prova, que não volta ao uso, como tração, impacto e fadiga. Pelo critério do Telecurso 2000, é destrutivo todo ensaio que deixa algum sinal na peça.
O ensaio de dureza é destrutivo ou não destrutivo?
Deixa uma impressão permanente, então é destrutivo pela definição estrita. Como a marca é pequena e a peça muitas vezes segue em uso, fabricantes o chamam de não destrutivo, e na prática o termo mais preciso é semidestrutivo.
Quais são três tipos de ensaios não destrutivos?
Ultrassom, líquido penetrante e partículas magnéticas. Também são END a radiografia, as correntes parasitas, a inspeção visual e a emissão acústica. Eles procuram defeitos e não medem propriedades mecânicas.
Quais são os tipos de ensaio de impacto?
Charpy, com o corpo de prova biapoiado e entalhe em V ou U, e Izod, com o corpo de prova engastado em balanço. O resultado é a energia absorvida em joules.
Qual a diferença entre ensaio estático e dinâmico?
No quase-estático a carga cresce devagar e sem choque, como na tração. No dinâmico ela vem de um golpe (impacto) ou de ciclos repetidos (fadiga), o que revela a fratura frágil e a trinca por fadiga.
Que máquina faz ensaios mecânicos?
A máquina universal de ensaios faz tração, compressão, flexão, cisalhamento, dobramento, embutimento, arrancamento e aderência, trocando garras e dispositivos; com os módulos dinâmico e de torção, também faz ensaios cíclicos e de tração combinada com torção. Impacto e dureza usam equipamentos próprios.
Por que a máquina de ensaio precisa ser calibrada?
Para que a força medida seja rastreável e confiável. A ISO 7500-1 classifica o sistema de força em classes 0,5, 1, 2 e 3; na classe 1, o erro admitido é de ±1 %. Laboratórios acreditados seguem a ABNT NBR ISO/IEC 17025.
Quais normas regem os ensaios mecânicos de metais?
Tração: ISO 6892-1 (ABNT NBR ISO 6892-1:2024) e ASTM E8/E8M. Impacto: ISO 148-1 e ASTM E23. Dureza: ISO 6506-1, 6507-1 e 6508-1. Dobramento: ISO 7438. Fadiga: ISO 1099 e ASTM E466. Fluência: ASTM E139.
Qual a diferença entre ensaio mecânico e ensaio não destrutivo?
O ensaio mecânico mede propriedades do material, em geral destruindo o corpo de prova. O ensaio não destrutivo procura defeitos numa peça pronta sem inutilizá-la. Um qualifica o material; o outro confere cada peça.