A tenacidade à fratura (KIc) é a resistência de um material à propagação instável de uma trinca que já existe. É o valor crítico do fator de intensidade de tensão K = Yσ√(πa), em MPa√m, e se mede pela ASTM E399 num corpo de prova pré-trincado por fadiga, carregado enquanto um clip-gage registra a abertura da trinca.
Não confundir com a tenacidade, que é a energia absorvida até a ruptura (J/m³ no ensaio de tração, ou joules no Charpy). A tenacidade à fratura responde a outra pergunta: com uma trinca de tamanho conhecido, qual tensão a peça aguenta antes de a trinca correr. Neste guia você encontra a definição, a fórmula e as unidades (MPa√m e ksi√in), o efeito da espessura, o ensaio passo a passo com o cálculo de KQ e os critérios de validade, a escolha entre KIc, integral J e CTOD, as normas com edição conferida em 13/10/2026, valores típicos com fonte, quatro exercícios resolvidos e os erros mais comuns.
O que é tenacidade à fratura
Tenacidade à fratura (em inglês, fracture toughness) é a propriedade que mede quanto um material resiste ao crescimento de uma trinca aguda já presente, expressa pelo valor de K na ponta da trinca no instante em que ela passa a crescer de forma instável. Toda peça real tem defeitos: poros de fundição, inclusões, falhas de solda, trincas de fadiga que nasceram em serviço. A pergunta de projeto deixa de ser "qual tensão o material aguenta" e passa a ser "qual tensão o material aguenta com este defeito". É isso que a tenacidade à fratura responde.
A base teórica tem dois marcos. Griffith (Philosophical Transactions of the Royal Society A, 1921) mostrou, por um balanço de energia, que a resistência de sólidos frágeis como o vidro é governada por trincas microscópicas, e não pela coesão entre átomos. Irwin (Journal of Applied Mechanics, 1957) descreveu o campo de tensões na ponta de uma trinca por um único parâmetro, o fator de intensidade de tensão K, que combina a tensão aplicada, o tamanho da trinca e a geometria. Essa é a mecânica da fratura linear-elástica (MFLE, ou LEFM em inglês): ela vale enquanto a região plastificada na ponta da trinca é pequena comparada à trinca e à peça.
O índice de KIc tem dois significados: o "I" indica o modo I de carregamento, explicado logo abaixo, e o "c" indica o valor crítico. Em textos em inglês o mesmo símbolo aparece como KIC, K1c ou K1C. A ASTM E399, no resumo oficial do escopo, descreve o KIc como um provável limite inferior da tenacidade do material, medido com o mínimo de plasticidade na ponta da trinca.
Modos de carregamento I, II e III
Uma trinca pode ser solicitada de três maneiras, e cada uma tem seu próprio fator de intensidade de tensão (KI, KII e KIII). O esquema abaixo mostra os três modos num bloco com uma trinca que entra pela face da frente: no modo I, as forças são normais ao plano da trinca e abrem as faces; no modo II, as faces deslizam uma sobre a outra na direção perpendicular à frente da trinca; no modo III, deslizam na direção paralela à frente, como no rasgo de uma folha.

O modo I é o mais severo na maioria dos materiais e é o único que as normas de ensaio padronizam: a ASTM E1820 define o seu escopo como fratura em modo de abertura (modo I). Na prática, uma trinca submetida a uma mistura de modos tende a mudar de direção até ficar perpendicular à maior tensão de tração, ou seja, até trabalhar em modo I. Por isso, quando se fala em tenacidade à fratura sem qualificar, fala-se de KIc.
A tenacidade à fratura é uma propriedade do material?
O KIc válido é, sim, uma propriedade do material: medido em condição de deformação plana, ele não depende da forma nem do tamanho do corpo de prova, e o valor obtido num laboratório se aplica à peça de mesmo material, tratamento e orientação. Já a tenacidade medida em chapa fina (KC), e os valores de J e de CTOD obtidos em corpos sem restrição suficiente, dependem da espessura e da geometria (NDE-ED, Iowa State University). A seção sobre espessura, mais adiante, mostra por quê.
Mesmo o KIc válido depende de condições que precisam constar do resultado: a temperatura, a taxa de carregamento e a orientação da trinca em relação à laminação ou ao forjamento. Um 7075 ensaiado com a trinca correndo na direção de laminação dá outro número que o mesmo 7075 com a trinca na transversal.
Tenacidade e tenacidade à fratura: qual a diferença
Tenacidade é energia; tenacidade à fratura é resistência ao crescimento de uma trinca. A tenacidade (toughness) é a energia que o material absorve até romper: no ensaio de tração, é a área sob a curva tensão × deformação, em J/m³; no Charpy, é a energia gasta pelo pêndulo para romper um corpo de prova com entalhe em V, em joules. A tenacidade à fratura parte de um corpo de prova que já tem uma trinca aguda e mede o K crítico, em MPa√m. A tabela resume as três medidas:
| Medida | O que mede | Unidade | Ensaio |
|---|---|---|---|
| Módulo de tenacidade | energia por volume até a ruptura, sem trinca | J/m³ (MJ/m³) | tração (área sob a curva) |
| Energia de impacto | energia para romper um corpo com entalhe em V, num golpe | J | Charpy ou Izod (ASTM E23) |
| Tenacidade à fratura | K crítico para uma trinca aguda crescer | MPa√m (ksi√in) | corpo pré-trincado (ASTM E399, E1820) |
A pergunta escolar "cite dois métodos diferentes para medir a tenacidade" tem resposta direta: o ensaio de impacto Charpy (energia, em J) e o ensaio de tenacidade à fratura em corpo pré-trincado (KIc pela ASTM E399, ou J e CTOD pela ASTM E1820). Um terceiro é a área sob a curva do ensaio de tração. A fórmula da tenacidade como energia, UT = ∫σ dε, e as suas unidades estão no artigo sobre tenacidade dos materiais; o Charpy e o Izod, no artigo sobre o ensaio de impacto.
Na engenharia estrutural as duas ideias se completam. A tenacidade em energia diz se o material deforma e avisa antes de romper; a tenacidade à fratura diz qual trinca a estrutura tolera sob a tensão de projeto, e é ela que define o tamanho de defeito que a inspeção precisa encontrar.
Fórmula da tenacidade à fratura e unidades
A fórmula da tenacidade à fratura é KIc = Y·σc·√(π·a): o valor de K que a combinação de tensão σc e trinca de tamanho a precisa atingir para a fratura acontecer. A mesma relação, resolvida de outro jeito, dá a tensão que uma peça trincada aguenta e o maior defeito que ela tolera. O ensaio usa outra forma da equação, própria de cada corpo de prova, que aparece na seção do ensaio.
Fator de intensidade de tensão: K = Yσ√(πa)
O fator de intensidade de tensão K mede a intensidade do campo de tensões na ponta de uma trinca. Na forma usada em projeto, K = Y·σ·√(π·a), em que σ é a tensão nominal aplicada longe da trinca, a é o tamanho da trinca e Y é um fator adimensional de geometria. Duas convenções evitam o erro mais frequente nas contas:
- Trinca de borda (nasce na superfície): a é a profundidade. Numa placa larga, Y ≈ 1,12 (MechaniCalc).
- Trinca interna ou central (atravessa a placa longe das bordas): a é a metade do comprimento total. Numa placa larga, Y ≈ 1 (NDE-ED).
A fratura ocorre quando K, que cresce com a tensão e com o tamanho da trinca, alcança o KIc do material. É uma comparação do mesmo tipo da que se faz entre tensão e resistência: K é a "solicitação" e KIc é a "resistência", ambos em MPa√m.
Tensão de fratura e tamanho crítico de trinca
Isolando as variáveis da fórmula, saem as duas relações que o projeto usa. A tensão de fratura (fracture strength) de uma peça com trinca de tamanho a é σc = KIc / (Y·√(π·a)). O tamanho crítico de trinca sob a tensão σ é ac = (1/π)·(KIc / (Y·σ))².
Um exemplo mostra a ordem de grandeza (cálculo da Biopdi). Um aço 4340 com KIc = 50 MPa√m (valor da Wikipédia em inglês para essa liga) trabalha a 600 MPa com uma trinca de borda (Y = 1,12). O tamanho crítico é ac = (1/π)·(50 / 672)² = 0,00176 m, ou 1,76 mm. No sentido inverso, se a inspeção encontrou uma trinca de borda de 1,0 mm, a tensão de fratura é σc = 50 / (1,12 × √(π × 0,001)) = 796 MPa. Como ac cai com o quadrado da tensão, dobrar a tensão de trabalho reduz a trinca tolerável a um quarto.
É essa conta que torna a tenacidade à fratura central no projeto tolerante a dano: com o tamanho crítico conhecido, a engenharia escolhe o método de inspeção capaz de achar trincas bem menores que ac e, junto com a taxa de crescimento de trinca por fadiga, define o intervalo entre inspeções. Um exercício de trinca crítica numa placa de alumínio 7075-T651, com trinca interna, está no artigo sobre tenacidade.
Unidades e símbolo
A unidade da tenacidade à fratura no SI é o MPa√m (megapascal vezes raiz de metro), igual a MN·m-3/2; nos Estados Unidos usa-se o ksi√in. A raiz de comprimento vem da própria fórmula: tensão multiplicada pela raiz do tamanho da trinca. A conversão, com 1 ksi = 6,89476 MPa e √(0,0254 m) = 0,15937 (cálculo da Biopdi), é:
- 1 ksi√in = 1,0988 MPa√m;
- 1 MPa√m = 0,9101 ksi√in.
Duas grandezas aparentadas usam unidade de energia por área. A taxa de liberação de energia G, a energia disponível por unidade de área de trinca nova, se relaciona com K por G = K²/E′, em que E′ = E em tensão plana e E′ = E/(1 − ν²) em deformação plana (NDE-ED); o valor crítico é GIc, em J/m² ou kJ/m². A integral J (Rice, Journal of Applied Mechanics, 1968) generaliza G para materiais que plastificam e usa a mesma unidade. O E é o módulo de elasticidade e ν é o coeficiente de Poisson. A tabela reúne as fórmulas deste guia:
| Grandeza | Expressão | Unidade | Fonte |
|---|---|---|---|
| Fator de intensidade de tensão | K = Y·σ·√(π·a) | MPa√m | Irwin (1957); NDE-ED |
| Tensão de fratura | σc = KIc / (Y·√(π·a)) | MPa | NDE-ED |
| Tamanho crítico de trinca | ac = (1/π)·(KIc / (Y·σ))² | m | NDE-ED; MechaniCalc |
| Espessura e trinca mínimas (clássico) | B, a ≥ 2,5·(KIc / σys)² | m | NDE-ED; Wikipédia |
| Zona plástica, tensão plana | rp ≈ (1/π)·(K / σys)² | m | MechaniCalc |
| Zona plástica, deformação plana | rp ≈ (1/3π)·(K / σys)² | m | MechaniCalc |
| KQ no C(T) | KQ = PQ / (B·√W) · f(a/W) | MPa√m | Srawley (1976) |
| KQ no SE(B) | KQ = PQ·S / (B·W1,5) · f(a/W) | MPa√m | Srawley (1976) |
| Energia e K | G = K²(1 − ν²) / E (deformação plana) | J/m² | NDE-ED |
Deformação plana e tensão plana: por que a espessura importa
A tenacidade à fratura em deformação plana (plane strain fracture toughness) é o KIc: o menor valor de tenacidade que o material apresenta, medido numa espessura grande o bastante para que o material na ponta da trinca não consiga se deformar na direção da espessura. Em chapa fina, o material perto das faces se contrai livremente, a ponta da trinca plastifica mais, e a tenacidade medida (chamada KC, a tenacidade em tensão plana) sai maior. À medida que a espessura cresce, o miolo da peça fica restringido pelo material em volta, o estado de tensão passa a ser triaxial e o valor medido cai até um patamar. O patamar é o KIc (NDE-ED).
O esquema abaixo mostra essa queda de KC com a espessura B e o aspecto da superfície de fratura em cada lado da espessura mínima. Na chapa fina (a), a fratura é inclinada a cerca de 45°, toda em cisalhamento. Na chapa grossa (b), o centro rompe plano, perpendicular à carga, e só restam lábios de cisalhamento estreitos junto às faces. Olhar a superfície rompida é um primeiro indício de qual regime o ensaio atingiu.

O tamanho da região plastificada explica o critério. A zona plástica na ponta da trinca tem raio aproximado rp ≈ (1/π)(K/σys)² em tensão plana e cerca de um terço disso em deformação plana (MechaniCalc), em que σys é o limite de escoamento. Para a MFLE valer, essa zona tem de ser pequena comparada à espessura, à trinca e ao ligamento (a parte não trincada, W − a). O critério clássico, citado pela NDE-ED e pela Wikipédia em inglês, exige B ≥ 2,5·(KIc/σys)² e a ≥ 2,5·(KIc/σys)². O fator 2,5 deixa a espessura cerca de 25 vezes maior que a zona plástica de deformação plana. Segundo uma análise da NASA sobre o desenvolvimento da E399 (Tilson, 2018), as edições recentes da norma avaliam principalmente o ligamento W − a com esse mesmo fator.
A consequência prática é forte, porque a espessura mínima cresce com o quadrado da razão KIc/σys. Para um aço de alta resistência com KIc = 50 MPa√m e σys = 1.500 MPa, basta 2,8 mm; para um aço estrutural tenaz com KIc = 150 MPa√m e σys = 500 MPa, seriam necessários 225 mm (cálculo da Biopdi). Um corpo de prova desse tamanho é inviável, e é por isso que materiais tenazes se ensaiam por integral J ou CTOD, como explica a seção sobre esses parâmetros.
Para o projeto, a regra que sai daqui tem duas pontas. Usar KIc numa chapa fina é conservador, porque a chapa fina aguenta mais que o KIc indica. Usar o KC de uma chapa fina numa peça grossa é contra a segurança, porque a peça grossa vai romper no patamar mais baixo.
Como é feito o ensaio de tenacidade à fratura
O ensaio de tenacidade à fratura carrega lentamente um corpo de prova com entalhe e pré-trinca de fadiga, registra a força contra a abertura da boca da trinca medida por um clip-gage, calcula um valor provisório KQ e só o aceita como KIc se os critérios de validade forem atendidos. As subseções seguem a ordem do laboratório: o corpo de prova, a pré-trinca, o carregamento com o registro da curva, o cálculo e a validação.
Corpos de prova C(T) e SE(B)
Os dois corpos de prova mais usados são o compacto de tração, C(T), e a barra entalhada em flexão de três pontos, SE(B) (single edge bend, também chamada SENB). A ASTM E399 aceita ainda o DC(T), em forma de disco, e os corpos em arco A(T) e A(B), usados em peças cilíndricas, e cobre espessuras a partir de 1,6 mm (0,063 in), segundo o resumo oficial do escopo. O esquema abaixo mostra as duas geometrias principais com as cotas que entram no cálculo: o tamanho da trinca a, a largura W, a espessura B e, no SE(B), o vão S entre os apoios, igual a 4W. No C(T), W e a se medem a partir da linha dos furos, por onde a força é aplicada.

Cada geometria pede um dispositivo próprio, que é o que se procura quando se busca o "fixture" da E399. O C(T) é tracionado por pinos que passam pelos dois furos, montados em garras do tipo clevis (forquilha), que deixam o corpo girar livremente durante o ensaio. O SE(B) é ensaiado num dispositivo de flexão em três pontos, com dois roletes de apoio afastados de S = 4W e um rolete de carga no meio do vão, sobre a face oposta ao entalhe. O C(T) economiza material, porque concentra a trinca num bloco pequeno; o SE(B) é mais simples de usinar a partir de barras e chapas grossas e é a geometria mais comum em soldas.
Na foto, um corpo de prova SE(B) de aço montado na flexão de três pontos: a barra está apoiada em dois roletes, o rolete de carga desce no meio da face de cima e um clip-gage está preso na boca do entalhe, na face de baixo, onde mede quanto o entalhe se abre à medida que a força sobe.

A orientação do corpo de prova faz parte do resultado. Em produtos laminados, usa-se um código de duas letras: L é a direção de laminação, T a transversal e S a da espessura; a primeira letra é a direção da carga (normal ao plano da trinca) e a segunda, a direção em que a trinca cresce. Um resultado T-L, como o do 7075-T7351 ensaiado pela Secat, é diferente de um L-T do mesmo lote. A razão a/W também é controlada: o critério clássico citado pela Thermal Processing pede a/W entre 0,45 e 0,55.
Entalhe e pré-trinca por fadiga
Um entalhe usinado, por mais fino que seja, tem raio na ponta e não se comporta como trinca. Por isso, depois de usinar o entalhe, o corpo de prova recebe uma pré-trinca por fadiga: ele é carregado ciclicamente, em geral à temperatura ambiente (TWI), até que uma trinca aguda cresça a partir da ponta do entalhe e atinja o comprimento desejado. A apostila de ensaios mecânicos da USP-EEL indica razão de carga R entre −1 e +0,1 nessa etapa. A norma também limita o K máximo dos ciclos a uma fração do valor esperado, para que a zona plástica deixada pela fadiga não aumente artificialmente o resultado.
A pré-trinca exige uma máquina de carregamento cíclico, com controle de força e frequência compatíveis com o número de ciclos, que costuma ser alto. É uma etapa separada do ensaio de fratura propriamente dito, e muitos laboratórios a fazem numa máquina diferente da que faz o carregamento final. O fenômeno em si, o crescimento de trinca sob carga repetida, é tratado no artigo sobre ensaio de fadiga.
Em outros materiais a trinca nasce de outro jeito. Em plásticos, pela ASTM D5045, é comum completar o entalhe com uma lâmina afiada. Em cerâmicas avançadas, a ASTM C1421 prevê três caminhos: a viga pré-trincada por uma ponte de compressão (método pb), a trinca de superfície feita por indentação Knoop (método sc) e o entalhe em chevron (método vb).
Carregamento e registro da força × abertura (CMOD)
O corpo de prova pré-trincado vai para a máquina de ensaio e é carregado de forma monotônica, com deslocamento crescente e lento, até a fratura ou até passar da força máxima. Para a ASTM E399, segundo a Wikipédia em inglês, a taxa de aumento de K fica entre 0,55 e 2,75 MPa√m/s. Durante o carregamento, dois sinais são registrados ao mesmo tempo: a força, pela célula de carga, e a abertura da boca do entalhe, o CMOD (crack mouth opening displacement), pelo clip-gage.
O clip-gage é um extensômetro com duas lâminas que se encaixam em facas fixadas (ou usinadas) nas bordas da boca do entalhe. Quando a trinca se abre, as lâminas se afastam e o transdutor mede essa abertura. O resultado é uma curva força × CMOD, e é dela que saem todos os números do ensaio. O deslocamento da travessa não substitui o clip-gage, porque inclui a deformação dos roletes, dos pinos e da própria máquina.
Secante de 5 %, PQ e KQ
A força usada no cálculo não é, em geral, a força máxima. A ASTM E399 define uma força provisória PQ pela construção da secante de 5 %: traça-se pela origem uma reta com inclinação 5 % menor que a do trecho linear inicial da curva, e o ponto onde essa reta corta a curva é PQ (se a curva tiver um pico antes desse corte, o pico é PQ). A redução de inclinação de 5 % corresponde, de forma aproximada, a um crescimento aparente da trinca de cerca de 2 %, que é a extensão a que a E399 associa o KIc.
O gráfico abaixo usa os números do exemplo 2 deste guia: a curva sobe em linha reta, começa a se curvar quando a trinca inicia o crescimento, cruza a secante tracejada em PQ = 4,00 kN e chega à força máxima Pmax = 4,30 kN pouco antes da fratura. A reta pontilhada é a tangente do trecho linear, e a tracejada é a secante com 5 % menos inclinação.

Com PQ e as dimensões medidas, calcula-se KQ, o valor provisório da tenacidade. As expressões para os corpos de prova da E399 são as de Srawley (International Journal of Fracture, 1976), escritas em função de α = a/W:
- C(T): KQ = PQ / (B·√W) · f(α), com f(α) = (2 + α)(0,886 + 4,64α − 13,32α² + 14,72α³ − 5,6α⁴) / (1 − α)1,5. Em α = 0,50, f = 9,659.
- SE(B): KQ = PQ·S / (B·W1,5) · f(α), com f(α) = 3√α·[1,99 − α(1 − α)(2,15 − 3,93α + 2,7α²)] / [2(1 + 2α)(1 − α)1,5]. Em α = 0,50, f = 2,6625.
Com PQ em MN e as dimensões em metros, KQ sai em MPa√m. O tamanho a é medido depois do ensaio, na superfície de fratura, onde a faixa da pré-trinca de fadiga se distingue da fratura final; usa-se a média de várias leituras ao longo da frente da trinca.
Quando o KQ vira KIc
O KQ só é registrado como KIc se o ensaio passar nos critérios de validade, que verificam se a fratura de fato ocorreu em regime linear-elástico e em deformação plana. Os principais, com os números de fontes abertas:
| Critério | Limite | Por que existe | Fonte |
|---|---|---|---|
| Força máxima × PQ | Pmax / PQ ≤ 1,10 | curva muito curva indica plasticidade demais | Wikipédia; USP-EEL; Thermal Processing |
| Tamanho do corpo de prova | B e W − a (ou a) ≥ 2,5·(KQ/σys)² | zona plástica pequena, deformação plana | NDE-ED; NASA (Tilson, 2018) |
| Razão a/W | 0,45 a 0,55 (critério clássico) | faixa em que f(a/W) é bem definida | Thermal Processing |
| Espessura mínima coberta | 1,6 mm (0,063 in) | limite do escopo da E399-24 | resumo do escopo, ASTM |
Se algum critério falha, o resultado é relatado como KQ inválido, e não como KIc. O caminho é ensaiar um corpo de prova maior ou mudar de método, medindo J ou CTOD. Um relatório da NASA sobre a E399 (Tilson, 2018) mostra o efeito com dados reais: no mesmo material, um C(T) com W = 38,1 mm e B = 9,5 mm deu KQ = 38,1 MPa√m, reprovado pelo critério do ligamento, e um C(T) com W = 76,2 mm e B = 19,0 mm deu KQ = 44,8 MPa√m, válido. O corpo pequeno subestimou a tenacidade em cerca de 15 %. As duas contas foram refeitas pela Biopdi com a expressão de Srawley e conferem com o relatório.
Passo a passo no laboratório e o que vai no relatório
O roteiro abaixo resume o ensaio de KIc como é feito num laboratório de materiais, inclusive em aulas práticas de mecânica da fratura. Ele não substitui a norma: os valores exatos de cada etapa estão na ASTM E399 ou na ISO 12135.
- Escolher a norma pelo material: metal com comportamento linear-elástico, ASTM E399; metal dúctil, ASTM E1820 ou ISO 12135; solda, ISO 15653; plástico, ASTM D5045; cerâmica avançada, ASTM C1421.
- Estimar o tamanho do corpo de prova com 2,5·(KIc/σys)², usando um KIc esperado da literatura, e escolher entre C(T) e SE(B).
- Usinar o corpo de prova e o entalhe na orientação definida (L-T, T-L etc.), com o entalhe na posição e na profundidade previstas.
- Fazer a pré-trinca por fadiga numa máquina de carregamento cíclico, até a/W na faixa desejada, respeitando o limite de K máximo da norma.
- Medir B e W e montar o corpo de prova no dispositivo: garras com pinos no C(T), flexão em três pontos com S = 4W no SE(B).
- Montar o clip-gage nas facas da boca do entalhe e zerar força e abertura com o corpo de prova sem carga.
- Carregar com deslocamento lento e constante, dentro da taxa de K da norma, registrando força × CMOD até a fratura ou além da força máxima.
- Medir a trinca na superfície de fratura, pela média de várias leituras ao longo da espessura, e calcular a/W.
- Calcular PQ, KQ e verificar a validade: Pmax/PQ, a/W e o critério de tamanho.
- Relatar: norma e edição, material, tratamento e orientação, temperatura, dimensões B, W e a, PQ, Pmax, a curva força × CMOD e o resultado como KIc válido ou KQ inválido, com o critério que falhou.
KIc, integral J e CTOD: qual usar
KIc, integral J e CTOD são três parâmetros de tenacidade à fratura: o KIc vale quando o material rompe em regime praticamente elástico, e J e CTOD servem quando há plasticidade relevante na ponta da trinca. A divisão corresponde a dois ramos da mecânica da fratura. A mecânica da fratura linear-elástica (MFLE), baseada em K, atende aços de alta resistência, ligas de alumínio aeronáuticas, cerâmicas e polímeros vítreos. A mecânica da fratura elastoplástica (MFEP), baseada em J e CTOD, atende aços estruturais, de tubulação e de vasos de pressão, nos quais um KIc válido exigiria corpos de prova enormes.
A integral J é a taxa de liberação de energia generalizada para material que plastifica; no regime elástico, J = G, e um J crítico pode ser convertido num K equivalente, chamado KJIc. Segundo a Wikipédia em inglês, o J é aceito quando a menor dimensão entre B e o ligamento inicial é pelo menos 25·JQ/σys, um requisito muito menor que o do KIc: é o que permite medir a tenacidade de um aço tenaz num corpo de prova de laboratório. O CTOD (crack tip opening displacement, δ) é a abertura na ponta da trinca no instante crítico, em milímetros, e é tradicional na qualificação de soldas e na indústria offshore.
Quando a trinca cresce de forma estável antes de romper, a tenacidade aumenta à medida que ela avança, e o resultado passa a ser uma curva R (J-R ou δ-R), a resistência em função da extensão Δa. A ASTM E1820 mede K, J e CTOD tanto como valor de ponto quanto como curva R; a ASTM E561 trata das curvas K-R, usadas em chapas finas. Para o CTOD, a TWI classifica o valor crítico pelo comportamento da curva: δc quando a fratura é instável sem crescimento estável apreciável, δu quando é instável depois de algum crescimento estável e δm quando o ensaio chega a um patamar de força máxima sem instabilidade. A mesma lógica vale para J (Jc, Ju, Jm). A tabela compara os parâmetros:
| Parâmetro | Quando usar | Unidade | Norma |
|---|---|---|---|
| KIc | fratura linear-elástica, deformação plana; aço de alta resistência, alumínio, cerâmica, polímero vítreo | MPa√m | ASTM E399; ISO 12135 |
| GIc | mesmo regime do KIc, expresso como energia; comum em polímeros e compósitos | J/m² (kJ/m²) | ASTM D5045 (plásticos) |
| J (JIc, curva J-R) | plasticidade relevante; aços estruturais e de tubulação | kJ/m² | ASTM E1820; ISO 12135 |
| CTOD (δ) | plasticidade relevante; soldas, offshore | mm | ASTM E1820; ISO 12135; ISO 15653 (soldas) |
Em resumo, a pergunta do CTOD (qual é o procedimento) tem a mesma estrutura do ensaio de KIc: corpo de prova SE(B) ou C(T) com pré-trinca, carregamento lento com registro da força × abertura, e cálculo do CTOD a partir da parcela plástica da abertura medida, com a classificação δc, δu ou δm pelo tipo de curva. A antiga norma americana dedicada ao CTOD, a ASTM E1290, foi retirada em 2013 (TWI), e o CTOD passou a ser medido pela E1820.
Normas do ensaio de tenacidade à fratura
A norma ASTM do ensaio de tenacidade à fratura em metais é a ASTM E399 (KIc), complementada pela ASTM E1820 (J, CTOD e K); para plásticos vale a ASTM D5045 e para cerâmicas avançadas a ASTM C1421, e a referência internacional para metais é a ISO 12135. A tabela traz as normas com a edição e o status conferidos na loja da ASTM em 13/10/2026. Para as normas ISO, a edição não pôde ser conferida no catálogo da ISO nesta data, por isso aparecem sem ano.
| Norma e edição | Material e corpo de prova | O que mede | Status em 13/10/2026 |
|---|---|---|---|
| ASTM E399-24 | metais; SE(B), C(T), DC(T), A(T), A(B); espessura a partir de 1,6 mm | KIc em deformação plana | vigente, sem edição mais nova |
| ASTM E1820-25d, revisão editorial ε2 | metais; SE(B), C(T), DC(T) | J, CTOD e K, como ponto ou curva R | vigente; a 25d sem a revisão ε2 é histórica |
| ASTM D5045-14(2022) | plásticos; SENB e CT | KIc e GIc, comportamento linear-elástico | vigente |
| ASTM C1421-18(2025) | cerâmicas avançadas; viga pré-trincada, trinca Knoop, chevron | KIpb, KIsc, KIvb | vigente |
| ASTM E1921-25a | aços ferríticos na transição dúctil-frágil | temperatura de referência T0 (curva mestra) | vigente; a 25 é histórica |
| ISO 12135 | metais; corpos pré-trincados por fadiga | K, CTOD, J e curvas R, quase estático | edição não conferida nesta data |
| ISO 15653 | soldas metálicas | K, CTOD e J em juntas soldadas | edição não conferida nesta data |
| BS 7448-1:1991 | metais | KIc, CTOD e J críticos | retirada em 2021, substituída pela adoção britânica da ISO 12135 (BSI) |
| ASTM E1290 | metais | CTOD | retirada em 2013 (TWI) |
Três pontos da tabela costumam passar despercebidos. Primeiro, a ASTM E1820 deixou de calcular KIc: desde as edições de 2025, uma nota da norma informa que a avaliação de KIc foi removida para evitar duplicação e remete o usuário à E399. Quem precisa de KIc usa a E399; quem precisa de J ou CTOD usa a E1820. Segundo, o escopo da E399-24 inclui, além do carregamento lento, o carregamento rápido em casos especiais. Terceiro, a ASTM E1921 não mede KIc: ela determina a temperatura de referência T0 da curva mestra de aços ferríticos com limite de escoamento de 275 a 825 MPa, com no mínimo seis corpos de prova e taxa de 0,5 a 2 MPa√m/s, segundo o resumo do escopo.
A ASTM E647 aparece em listas de "ensaios de tenacidade", mas não é um deles: ela mede a taxa de propagação de trinca por fadiga, da/dN, em função da variação de K. É a norma que, junto com o KIc, permite calcular quanto tempo uma trinca leva para chegar ao tamanho crítico. Também o Charpy (ASTM E23) é um ensaio de impacto, e não de tenacidade à fratura.
Normas brasileiras. Não foi localizada norma ABNT equivalente à ASTM E399 ou à ISO 12135; os laboratórios brasileiros ensaiam pelas normas ASTM e ISO e acreditam o ensaio pela ABNT NBR ISO/IEC 17025, como registram Reguly e Fabricio (Congresso Anual da ABM, 2015) num estudo intralaboratorial de KIc.
Valores típicos de tenacidade à fratura
A tenacidade à fratura vai de menos de 1 MPa√m no vidro e nos polímeros vítreos a mais de 150 MPa√m em aços de alta tenacidade, uma faixa de mais de duas ordens de grandeza. A tabela traz faixas por classe de material, à temperatura ambiente, com a coluna em ksi√in convertida pela Biopdi. As faixas são largas porque o KIc depende da liga, do tratamento térmico, da orientação e da espessura; para projeto, o valor sai de ensaio do material real.
| Material | KIc (MPa√m) | KIc (ksi√in) | Fonte |
|---|---|---|---|
| Aço maraging grau 200 | 175 | 159 | Wikipédia (EN) |
| Ligas de titânio | 84 a 107 | 76 a 97 | Wikipédia (EN) |
| Inconel 718 | 73 a 87 | 66 a 79 | Wikipédia (EN) |
| Aço liga 4340 | 50 | 45,5 | Wikipédia (EN) |
| Alumínio 7075 | 20 a 35 | 18 a 32 | Wikipédia (EN) |
| Alumínio 7075-T7351, T-L, medido | 30,5 | 27,8 | Secat |
| Ligas de alumínio, faixa geral | 14 a 28 | 12,7 a 25,5 | Wikipédia (EN) |
| Alumina (Al2O3) | 3 a 5 | 2,7 a 4,6 | Wikipédia (EN) |
| Carbeto de silício | 3 a 5 | 2,7 a 4,6 | Wikipédia (EN) |
| PMMA (acrílico) | 0,7 a 1,6 | 0,64 a 1,46 | Wikipédia (EN) |
| Poliestireno | 0,7 a 1,1 | 0,64 a 1,00 | Wikipédia (EN) |
| Concreto | 0,2 a 1,4 | 0,18 a 1,27 | Wikipédia (EN) |
| Vidro sodocálcico | 0,7 a 0,8 | 0,64 a 0,73 | Wikipédia (EN) |
O dado da Secat é o de um ensaio real: um 7075-T7351 com orientação T-L deu KQ de 27,8 ksi√in (30,5 MPa√m), dentro da faixa de 25 a 33 ksi√in (27,5 a 36,3 MPa√m) que a empresa cita do ASM Handbook. A leitura da tabela tem três regras. Dentro de uma mesma família de ligas, mais resistência costuma vir com menos tenacidade à fratura, e o tratamento térmico desloca o valor nos dois sentidos (ver tratamento térmico dos metais). A orientação muda o valor em produtos laminados e forjados. A temperatura pesa sobretudo nos aços ferríticos, que passam por uma transição dúctil-frágil. Uma tabela com o limite de escoamento ao lado do KIc de dez ligas metálicas, tirada de Dowling, está no artigo sobre tenacidade.
Para polímeros, que aparecem em buscas como "medição de tenacidade de polímeros", o ensaio é o da ASTM D5045, com resultado em KIc e em GIc. Os valores baixos de PMMA e poliestireno explicam por que peças de acrílico trincam a partir de furos e cantos vivos: com KIc perto de 1 MPa√m, um defeito de poucos milímetros já é crítico sob tensões moderadas.
Exercícios resolvidos de tenacidade à fratura
Os exercícios abaixo cobrem o uso da fórmula em projeto, o cálculo de KQ nos dois corpos de prova e a conversão de unidades. As contas são da Biopdi; os números dos exemplos 2 e 3 são ilustrativos e coerentes com as faixas publicadas.
1. A peça fratura? Uma liga com KIc = 32 MPa√m fratura sob 245 MPa quando a maior trinca interna mede 2,89 mm. Sob 318 MPa, ela fratura se a maior trinca interna medir 1,45 mm? Como a geometria é a mesma, Y se cancela, e basta comparar os dois casos: K2/K1 = (σ2/σ1)·√(a2/a1) = (318/245) × √(1,45/2,89) = 1,2980 × 0,7083 = 0,9194. Na primeira situação K1 = KIc = 32 MPa√m; logo K2 = 0,9194 × 32 = 29,4 MPa√m. Como 29,4 é menor que 32, a peça não fratura. O resultado não muda se a for o comprimento total ou a metade, porque só a razão entra na conta.
2. KQ num SE(B) de alumínio. Uma barra SE(B) de alumínio 7075-T651 tem W = 20 mm, B = 10 mm, S = 4W = 80 mm e trinca medida a = 10 mm (a/W = 0,50). O limite de escoamento é σys = 505 MPa, o mesmo valor da tabela de ligas do artigo sobre tenacidade. Na curva força × CMOD, a secante de 5 % dá PQ = 4,00 kN, e a força máxima é Pmax = 4,30 kN.
- f(0,50) do SE(B): 3 × √0,5 × [1,99 − 0,5 × 0,5 × (2,15 − 3,93 × 0,5 + 2,7 × 0,25)] / [2 × (1 + 1) × 0,51,5] = 2,1213 × 1,7750 / 1,4142 = 2,6625.
- PQ·S / (B·W1,5) = 4.000 × 0,080 / (0,010 × 0,0028284) = 1,1314 × 10⁷ Pa√m = 11,31 MPa√m.
- KQ = 11,31 × 2,6625 = 30,1 MPa√m (27,4 ksi√in).
- Validade: Pmax/PQ = 4,30/4,00 = 1,075, abaixo de 1,10; a/W = 0,50, dentro de 0,45 a 0,55; 2,5 × (30,1/505)² = 0,0089 m = 8,9 mm, e tanto o ligamento W − a = 10 mm quanto a espessura B = 10 mm são maiores.
Resultado: KIc = 30,1 MPa√m, dentro da faixa de 20 a 35 MPa√m da tabela para o 7075. A força de 4 kN é baixa, compatível com uma máquina de 10 kN ou 50 kN e um dispositivo de flexão.
3. KQ num C(T) de aço. Um corpo compacto C(T) tem W = 50 mm, B = 25 mm e trinca medida a = 25 mm (a/W = 0,50). A secante de 5 % dá PQ = 20,0 kN, e o aço tem σys = 450 MPa.
- f(0,50) do C(T): (2 + 0,5) × (0,886 + 4,64 × 0,5 − 13,32 × 0,25 + 14,72 × 0,125 − 5,6 × 0,0625) / 0,51,5 = 2,5 × 1,366 / 0,35355 = 9,659.
- PQ / (B·√W) = 20.000 / (0,025 × 0,22361) = 3,578 × 10⁶ Pa√m = 3,578 MPa√m.
- KQ = 3,578 × 9,659 = 34,6 MPa√m (31,5 ksi√in).
- Validade de tamanho: 2,5 × (34,6/450)² = 0,0147 m = 14,7 mm. O ligamento W − a = 25 mm e a espessura B = 25 mm passam; a/W = 0,50 passa.
Resultado: se a curva mostrar Pmax ≤ 1,10 × 20,0 = 22,0 kN, KIc = 34,6 MPa√m. Se a força máxima passar de 22,0 kN, o valor fica como KQ inválido, e o material deve ser ensaiado por J ou CTOD.
4. De K para energia e para ksi√in. Um aço tem KIc = 50 MPa√m, E = 207 GPa e ν = 0,30. Em deformação plana, GIc = KIc²·(1 − ν²) / E = (50 × 10⁶)² × 0,91 / (2,07 × 10¹¹) = 1,10 × 10⁴ J/m², ou 11,0 kJ/m². Em unidade americana, 50 × 0,9101 = 45,5 ksi√in. A conversão para G é útil para comparar o aço com polímeros e compósitos, cuja tenacidade costuma ser publicada em kJ/m².
Tenacidade à fratura e ensaio Charpy
O Charpy mede a energia para romper, num golpe, um corpo pequeno com entalhe em V; o ensaio de tenacidade à fratura mede o K crítico de uma trinca aguda sob carregamento lento; os dois resultados não se convertem um no outro, e as correlações existentes são só estimativas. Três diferenças explicam por quê: o entalhe do Charpy tem raio de 0,25 mm e não é uma trinca; a taxa de carregamento do pêndulo é muito maior; e o corpo de prova é pequeno demais para garantir deformação plana na maioria dos aços. O ensaio de impacto é tratado em artigo próprio, que também lista os limites das correlações.
A correlação mais citada é a de Rolfe, Novak e Barsom para o patamar superior da curva Charpy. Em unidades SI, com KIc em MPa√m, σys em MPa e a energia Charpy CVN em joules, ela se escreve (KIc/σys)² = 0,646 × (CVN/σys − 0,0098), conforme um documento da NRC dos Estados Unidos; a Biopdi conferiu os coeficientes pela conversão da forma original em unidades inglesas. A base de dados original reunia aços com limite de escoamento de 760 a 1.700 MPa (relatório da Lehigh University). Um exemplo: aço com σys = 800 MPa e CVN = 60 J no patamar superior dá (KIc/σys)² = 0,646 × (0,075 − 0,0098) = 0,0421, KIc/σys = 0,205 e KIc ≈ 164 MPa√m, como estimativa.
O número serve para triagem, não para projeto. Fora da faixa de aços da base, na região de transição ou em outros materiais, a correlação pode errar muito. Ritchie, Francis e Server (Metallurgical Transactions A, 1976) analisaram um aço 4340 temperado em que austenitizar a 1.200 °C, em vez dos 870 °C convencionais, dobrava o KIc e ao mesmo tempo reduzia a energia Charpy: as duas medidas podem andar em sentidos opostos, e os autores concluem que a tenacidade não deve ser avaliada só por uma delas.
Erros comuns no ensaio de tenacidade à fratura
Os erros que mais distorcem o resultado, ou a leitura dele:
- Chamar qualquer KQ de KIc. Sem passar nos critérios de validade, o valor é KQ e depende do corpo de prova.
- Calcular KIc pela ASTM E1820. Desde 2025 a E1820 remete o KIc à E399.
- Usar fórmula de KQ incompleta. No C(T), KQ = PQ/(B·√W)·f(a/W); no SE(B), PQ·S/(B·W1,5)·f(a/W). Escrever "P·B·W" sem a raiz e sem a divisão dá um número sem sentido físico.
- Usar a força máxima no lugar de PQ sem verificar a razão Pmax/PQ.
- Usar o deslocamento da travessa no lugar do CMOD, o que inclui a folga dos roletes e a deformação da máquina.
- Pular ou abreviar a pré-trinca, ensaiando só com o entalhe usinado: o raio do entalhe aumenta o resultado.
- Aplicar KIc em chapa fina ou KC de chapa fina em peça grossa. O primeiro é conservador; o segundo, contra a segurança.
- Usar o comprimento total de uma trinca interna como a. Na trinca interna, a é a metade.
- Esquecer a orientação e a temperatura no relatório e na comparação entre lotes.
- Usar a energia Charpy como KIc de projeto. A correlação é estimativa.
- Citar edições ou normas retiradas como vigentes, como a ASTM E399-22, a ASTM E1290 ou a BS 7448-1.
- Confundir a ASTM E647 com ensaio de tenacidade. Ela mede a propagação de trinca por fadiga (da/dN).
- Confundir o "blue fracture test" com tenacidade à fratura. O ensaio de fratura azul (ISO 3763; ABNT NBR 6346) revela inclusões não metálicas no aço: o corpo é fraturado na faixa de fragilidade azul, por volta de 300 a 350 °C, e não mede KIc.
Máquina para o ensaio de tenacidade à fratura
O carregamento final do ensaio de tenacidade à fratura é feito numa máquina de ensaios com célula de carga, controle de deslocamento lento, dispositivo de flexão em três pontos (SE(B)) ou garras com pinos (C(T)) e um clip-gage para medir o CMOD; a pré-trinca por fadiga, feita antes, exige uma máquina de carregamento cíclico. A máquina universal de ensaios Biopdi, com o dispositivo de flexão e o clip-gage COD, atende a parte quase estática do ensaio no SE(B): o site da Biopdi cita a tenacidade à fratura pela ASTM E399 entre as aplicações do clip-gage. A Biopdi não afirma fazer a pré-trinca por fadiga nem fornecer garras para C(T). O painel abaixo mostra a máquina, o papel de cada parte no ensaio e os dois acessórios que entram na montagem do SE(B).
A máquina universal no ensaio de tenacidade à fratura
A linha M2 tem modelos de coluna simples, de 200 N a 10 kN, e de coluna dupla, de 5 kN a 1.000 kN. Cada parte da máquina tem uma função no ensaio:

- Travessa móvel desce o rolete de carga com velocidade lenta e constante
- Célula de carga mede a força P aplicada na barra
- Dispositivo de flexão apoios em S = 4W e rolete de carga no meio do vão
- Clip-gage COD mede a abertura da boca do entalhe
- Software BioLab registra a curva força × CMOD
- Painel e emergência posiciona e para o ensaio
Dispositivos para o ensaio de tenacidade à fratura
Os acessórios abaixo são montados na mesma máquina para o corpo de prova SE(B):


A escolha da máquina segue a força esperada. Nos exemplos deste guia, PQ fica em 4 kN no SE(B) de alumínio e em 20 kN no C(T) de aço; no caso da NASA, de 7 a 21 kN. É uma faixa de força compatível com a coluna simples de até 10 kN, para corpos pequenos e polímeros, e com a coluna dupla de 5 a 50 kN, para a maior parte dos corpos de prova metálicos de laboratório. A tabela resume os modelos dessa faixa:
| Aplicação | Faixa | Modelo Biopdi |
|---|---|---|
| SE(B) pequenos, polímeros (D5045) | 2 a 10 kN; 0,02 a 500 mm/min | MBIOI-10-M2 |
| SE(B) de metais, forças de até dezenas de kN | 5 a 50 kN; 0,02 a 500 mm/min | MBIOII-50-M2 |
| Corpos de prova maiores | 100 a 200 kN; 0,02 a 500 mm/min | MBIOII-200-M2 |
O clip-gage se escolhe pelo comprimento entre as lâminas, que precisa caber nas facas da boca do entalhe, e pelo curso, que precisa ficar acima da abertura máxima prevista. A abertura prevista depende do tamanho do corpo de prova e da plasticidade do material; os modelos de curso maior servem também às vigas de concreto com fibras, ensaiadas pela EN 14651. Os quatro modelos da família, segundo a página de extensômetros:
| Código | Comprimento inicial L0 | Curso |
|---|---|---|
| EXT-400-001 | 5 mm | +2,5 mm |
| EXT-400-003 | 10 mm | +4 mm |
| EXT-400-004 | 12 mm | +7 mm |
| EXT-400-005 | 20 mm | +12 mm |
O cálculo de PQ, KQ e da validade segue a norma aplicada, a partir da curva força × CMOD registrada. A tenacidade à fratura é um dos ensaios mecânicos que se fazem com a mesma máquina universal; o guia de como escolher uma máquina universal de ensaio compara modelos e configurações, e a visão geral das propriedades mecânicas dos materiais ajuda a decidir quais ensaios pedir junto.
Outros ensaios e referências técnicas
Ensaios realizados na máquina universal Biopdi
Referências técnicas relacionadas
ASTM D790: ensaio de flexão de plásticos em três pontos (procedimentos A e B, vão e cálculos)
A ASTM D790-25 mede a resistência e o módulo de flexão de plásticos numa barra biapoiada carregada no meio, com vão de 16 vezes a espessura e taxa de deformação de 1 %/min (procedimento A) ou 10 %/min (procedimento B), até a ruptura ou até 5 % de deformação. Veja a velocidade R = ZL²/6d, as fórmulas, a correção de grandes deflexões, a comparação com a ISO 178 e a D6272 e exercícios resolvidos.
ASTM D695: ensaio de compressão de plásticos rígidos (corpo de prova, 1,3 mm/min e cálculo)
A ASTM D695-26 mede resistência, escoamento e módulo de plásticos rígidos em compressão: prisma de 12,7 × 12,7 × 25,4 mm a 1,3 mm/min. Cálculo e ISO 604.
ASTM D412 e ISO 37: ensaio de tração de borracha, corpos de prova, velocidade e cálculos
ASTM D412 e ISO 37, o ensaio de tração de borracha: gravata ou anel a 500 mm/min, resistência à tração, alongamento na ruptura e tensão a 100 % e 300 %.
Perguntas frequentes
O que é tenacidade à fratura?
É a resistência de um material à propagação instável de uma trinca que já existe. Expressa-se pelo fator de intensidade de tensão crítico KIc, em MPa√m, medido em modo I e deformação plana pela ASTM E399-24 num corpo de prova pré-trincado por fadiga.
Como se calcula a tenacidade à fratura?
Em projeto, pela relação KIc = Y·σc·√(π·a), com Y o fator de geometria (cerca de 1,12 para trinca de borda), σc a tensão de fratura e a o tamanho da trinca. No ensaio, calcula-se KQ = PQ/(B·√W)·f(a/W) no corpo compacto C(T) ou PQ·S/(B·W1,5)·f(a/W) no SE(B), e KQ vira KIc se passar nos critérios de validade.
Qual é a unidade da tenacidade à fratura?
MPa√m no SI, igual a MN·m-3/2; nos Estados Unidos, ksi√in. 1 ksi√in = 1,0988 MPa√m e 1 MPa√m = 0,9101 ksi√in. Quando expressa como energia (GIc ou J), a unidade é J/m² ou kJ/m².
Qual a diferença entre tenacidade e tenacidade à fratura?
Tenacidade é a energia que o material absorve até romper: a área sob a curva tensão × deformação, em J/m³, ou a energia do Charpy, em J. Tenacidade à fratura é a resistência de um corpo já trincado ao crescimento da trinca, em MPa√m, usada para calcular a trinca crítica e a tensão admissível.
Qual é a norma ASTM do ensaio de tenacidade à fratura?
A ASTM E399-24 para KIc de metais. A ASTM E1820-25d mede J, CTOD e K, mas desde 2025 remete o KIc à E399. Para plásticos vale a ASTM D5045-14(2022) e para cerâmicas avançadas a ASTM C1421-18(2025); a referência internacional para metais é a ISO 12135.
Como é feito o ensaio de tenacidade à fratura?
Um corpo de prova C(T) ou SE(B) recebe um entalhe e uma pré-trinca por fadiga. Depois é carregado lentamente até a fratura, enquanto um clip-gage registra a abertura da boca da trinca (CMOD). Da curva força × CMOD saem PQ, pela secante de 5 %, e KQ, que vira KIc se atender aos critérios de validade.
Qual é o procedimento do ensaio CTOD?
Um corpo SE(B) ou C(T) pré-trincado por fadiga é carregado lentamente com registro da força e da abertura da boca da trinca; o CTOD crítico é calculado a partir da parcela plástica dessa abertura e classificado como δc, δu ou δm conforme o comportamento da curva. As normas são a ASTM E1820 e a ISO 12135; a ASTM E1290 foi retirada em 2013.
A tenacidade à fratura é uma propriedade do material?
O KIc válido, medido em deformação plana, é uma propriedade do material: não depende da forma nem do tamanho do corpo de prova. Já o KC de chapas finas e os valores de J e CTOD de corpos sem restrição suficiente dependem da espessura e da geometria. Em todos os casos, temperatura e orientação fazem parte do resultado.
Dá para obter o KIc pelo ensaio Charpy?
Só como estimativa. A correlação de Rolfe, Novak e Barsom liga o KIc à energia Charpy no patamar superior, para aços com limite de escoamento de 760 a 1.700 MPa. Ela não substitui o ensaio normalizado, porque o Charpy usa entalhe rombo, carga de impacto e corpo de prova pequeno.
O "blue fracture test" mede tenacidade à fratura?
Não. É o ensaio de fratura azul, que revela inclusões não metálicas macroscópicas no aço (ISO 3763; ABNT NBR 6346). O corpo de prova é fraturado na faixa de fragilidade azul, por volta de 300 a 350 °C, e a superfície rompida é examinada; não há trinca de fadiga nem cálculo de KIc.