Extensômetro é o instrumento que mede deformação, e a palavra tem dois sentidos: o strain gauge, sensor colado na peça cuja resistência elétrica varia com a deformação (ΔR/R = GF·ε, com fator de gauge GF ≈ 2), e o extensômetro de ensaio, que mede o alongamento do corpo de prova numa base de medida de 25 ou 50 mm. O extensômetro de ensaio mede entre duas facas presas ao corpo de prova ou sem contato, por câmera ou laser. O primeiro serve à análise experimental de tensões em peças e estruturas e é o sensor dentro das células de carga. O segundo é o acessório da máquina universal sem o qual não se mede corretamente o módulo de elasticidade nem o limite de escoamento convencional. A seguir, os dois em profundidade: a física do strain gauge, a ponte de Wheatstone, a roseta, os tipos de extensômetro de ensaio, as classes de exatidão e exercícios resolvidos.
Em resumo:
- Strain gauge (extensômetro de resistência elétrica): grade metálica colada na superfície; mede a deformação num ponto, na direção da grade. A técnica chama-se extensometria.
- Extensômetro de ensaio: mede a variação de comprimento ΔL de um trecho L0 do corpo de prova; a deformação é ε = ΔL / L0. Pode ser de contato (clip-on, longas deformações) ou sem contato (vídeo, laser).
- Sinal do strain gauge: minúsculo, da ordem de milivolts por volt de excitação; por isso é lido numa ponte de Wheatstone com amplificador.
- Exatidão do extensômetro de ensaio: classes da ISO 9513 (0,2, 0,5, 1 e 2) e da ASTM E83 (A, B-1, B-2, C, D e E). A norma do ensaio diz a classe mínima.
Os dois sentidos de extensômetro
Os dois instrumentos medem a mesma grandeza, a deformação. Deformação linear é a variação relativa de comprimento: ε = ΔL / L0, em que L0 é o comprimento inicial do trecho observado e ΔL o quanto ele mudou. Como é a razão entre dois comprimentos, não tem unidade (mm/mm). Os valores do regime elástico dos metais são tão pequenos que se usa o microstrain: 1 µε = 10−6 mm/mm. Um aço tracionado a 200 MPa se deforma cerca de 1.000 µε, ou 0,1 %. Multiplicada pelo módulo de elasticidade, a deformação dá a tensão pela lei de Hooke, σ = E·ε, enquanto o material estiver no regime elástico e o esforço for uniaxial.
O strain gauge é um resistor em forma de grade, colado na superfície da peça. Quando a peça se deforma, a grade se deforma junto e a resistência elétrica muda em proporção à deformação. Ele mede num ponto (na prática, na pequena área da grade), numa só direção, e fica colado: não se reaproveita. Em inglês, strain gauge designa só esse sensor; em português, ele é chamado de extensômetro de resistência elétrica, extensômetro elétrico ou simplesmente extensômetro, e daí vem a confusão. A grafia strain gage, sem o u, é a mesma palavra na forma americana, usada pela ASTM E251 e pelos fabricantes dos Estados Unidos.
O extensômetro de ensaio (em inglês, extensometer) é um instrumento removível que se prende ao corpo de prova durante o ensaio mecânico. Ele mede a variação de distância entre dois pontos do corpo de prova, separados pela base de medida, e entrega a deformação média desse trecho. O tipo mais comum, o clip-on, encosta duas facas no corpo de prova; os tipos sem contato seguem marcas com uma câmera ou um laser. É um instrumento reutilizável, calibrado pela ISO 9513 ou pela ASTM E83.
O que separa os dois é o que se mede, e não a tecnologia interna. Muitos extensômetros clip-on têm, por dentro, strain gauges colados num braço flexível e ligados em ponte: o sensor resistivo está lá, mas o instrumento mede o alongamento entre as facas, não a deformação da superfície onde o gauge está colado. Na foto, os dois sentidos da palavra extensômetro lado a lado: em primeiro plano, o extensômetro clip-on, preso por molas ao corpo de prova com duas facas que marcam a base de medida; ao fundo, uma chapa com um strain gauge colado, o sensor resistivo da extensometria.

A tabela resume as diferenças práticas entre os dois:
| Aspecto | Strain gauge | Extensômetro de ensaio |
|---|---|---|
| O que mede | deformação local na superfície, numa direção | alongamento médio entre dois pontos do corpo de prova |
| Onde fica | colado na peça, na estrutura ou dentro de um transdutor | preso ao corpo de prova na máquina de ensaio |
| Uso | uma vez; fica na peça | reutilizável; retirado ao fim do ensaio |
| Faixa típica | pequenas deformações, no regime elástico | do módulo de elasticidade até centenas de por cento, conforme o tipo |
| Norma de referência | ASTM E251 (características do gauge) | ISO 9513 e ASTM E83 (calibração e classe) |
Como funciona o strain gauge
O strain gauge moderno é uma folha metálica muito fina, gravada por fotolitografia em forma de ziguezague e colada sobre um suporte isolante de poliimida, com dois terminais para os fios. O ziguezague tem uma razão: põe um condutor longo num comprimento pequeno. Os trechos longos ficam alinhados com o eixo de medição e somam a resistência; as voltas nas pontas são curtas e largas, para que a grade quase não sinta a deformação transversal. O princípio foi descrito por William Thomson, lorde Kelvin, em 1856, ao observar que a resistência de fios de cobre e de ferro muda quando eles são tracionados. O sensor foi inventado de forma independente em 1938 por Edward E. Simmons, no Caltech, e Arthur C. Ruge, no MIT, então com fio colado; a folha gravada veio depois.
Por que a resistência muda com a deformação
A resistência de um condutor é R = ρ·L / A, em que ρ é a resistividade do material, L o comprimento e A a seção. Quando a grade é tracionada, três coisas acontecem ao mesmo tempo: o comprimento aumenta, a seção diminui pelo efeito de Poisson e a própria resistividade muda com a deformação do retículo do metal, o efeito piezorresistivo. Derivando a fórmula, a variação relativa fica ΔR/R = (1 + 2ν)·ε + Δρ/ρ. Só a parte geométrica, com ν ≈ 0,3, daria um fator de 1,6. A liga cobre-níquel usada na maioria dos gauges, o constantan, tem fator de cerca de 2: a diferença vem da resistividade.
Esse fator é o fator de gauge, GF = (ΔR/R) / ε, informado pelo fabricante em cada lote. O constantan é escolhido porque o GF é praticamente constante numa larga faixa de deformação e de temperatura e porque a liga pode ser tratada para compensar a dilatação térmica do material da peça, como se verá na ponte. Para temperaturas mais altas e medições estáticas longas, os fabricantes oferecem a liga níquel-cromo Karma, de deriva menor. Gauges semicondutores, de silício, têm fator da ordem de 100 a 150, dezenas de vezes o do constantan, mas são não lineares e muito sensíveis à temperatura; ficam restritos a transdutores com compensação própria.
O sinal é pequeno. Com GF = 2, uma deformação de 1.000 µε numa grade de 120 Ω muda a resistência em 120 × 2 × 0,001 = 0,24 Ω, ou 0,2 %. Um ohmímetro comum não separa isso do ruído, da resistência dos fios e da deriva térmica. Por isso o strain gauge sempre é lido numa ponte de Wheatstone, com excitação estável e amplificador.
120 Ω ou 350 Ω
Os valores nominais mais comuns são 120 e 350 Ω, e há gauges de 700 e 1.000 Ω. A diferença está no calor. Numa ponte excitada com 5 V, o gauge fica com metade da tensão, 2,5 V, e dissipa P = V²/R: 52 mW com 120 Ω e 18 mW com 350 Ω. Esse calor passa pela cola para a peça; em aço, que conduz bem, se espalha; em plástico ou compósito, aquece a grade e faz a leitura derivar. O gauge de 350 Ω admite mais excitação para o mesmo aquecimento, e por isso domina nos transdutores, como as células de carga. O de 120 Ω é comum em extensometria geral. Nos módulos didáticos para Arduino aparecem os dois valores, o BX120 de 120 Ω e o BF350 de 350 Ω, em geral lidos por um HX711, conversor analógico-digital de 24 bits feito para balanças, que já traz o amplificador da ponte.
Ponte de Wheatstone: 1/4, 1/2 e ponte completa
A ponte de Wheatstone são dois divisores de tensão em paralelo, alimentados pela mesma excitação Vex. A saída V0 é a diferença entre os pontos médios dos dois divisores. Com os quatro braços iguais, a ponte está equilibrada e V0 = 0: o que aparece na saída é só o desequilíbrio, e é por isso que ela consegue ler uma variação de 0,2 % sem enxergar os 99,8 % restantes. Para pequenas deformações, com os quatro braços sendo gauges de mesmo GF, a saída vale:
V0 / Vex ≈ (GF / 4)·(ε1 − ε2 + ε3 − ε4)
A regra que sai dessa fórmula explica todas as ligações: deformações em braços adjacentes se subtraem e em braços opostos se somam. Um braço com resistor fixo contribui com zero. O esquema abaixo mostra a grade de um strain gauge de folha e as três ligações usuais, com a saída de cada uma para 1.000 µε, GF = 2,0 e excitação de 10 V.

- 1/4 de ponte: um gauge ativo e três resistores de completamento. V0/Vex ≈ GF·ε/4: 5 mV no exemplo. É a mais simples e a mais vulnerável à temperatura e aos cabos. A fórmula exata tem o fator 1/(1 + GF·ε/2): a 1.000 µε o erro de linearidade é de 0,1 %; a 10.000 µε, de 1 %.
- 1/2 ponte: dois gauges ativos em braços adjacentes. Numa viga em flexão, um na face tracionada (+ε) e outro na comprimida (−ε): pela regra dos braços adjacentes, ε − (−ε) = 2ε, e a saída dobra para GF·ε/2, 10 mV. Como os dois estão na mesma temperatura, a deformação aparente de origem térmica é igual nos dois e se cancela.
- Ponte completa: quatro gauges ativos, +ε nos braços opostos 1 e 3 e −ε nos braços 2 e 4. A saída é GF·ε, 20 mV, com compensação de temperatura e dos cabos. É a ligação das células de carga. Numa barra tracionada, em que não há face comprimida, dois gauges axiais e dois transversais dão (GF/4)·2ε·(1 + ν) = GF·ε·(1 + ν)/2: o efeito de Poisson é que faz os transversais contribuírem.
Temperatura, cabos e calibração shunt
Um strain gauge colado numa peça sem carga muda de leitura quando a temperatura muda. São duas causas: a resistividade da grade varia com a temperatura, e a grade e a peça dilatam de modos diferentes, de modo que a peça "estica" a grade sem nenhuma força aplicada. Essa deformação aparente chama-se saída térmica. Os gauges autocompensados (STC, self-temperature-compensated) têm a liga tratada para que as duas causas se anulem num material específico, como aço ou alumínio; colados em outro material, a compensação deixa de valer. A outra saída é um gauge compensador (dummy) colado numa peça do mesmo material, sem carga e na mesma temperatura, ligado no braço adjacente ao ativo: a saída térmica dos dois se subtrai.
Os cabos entram na conta na 1/4 de ponte. Ligado a dois fios, o gauge fica em série com os dois condutores no mesmo braço. Se eles somam 1 Ω de cobre e esquentam 10 °C, a resistência deles sobe cerca de 1 × 0,0039 × 10 = 0,039 Ω, que a ponte lê como 0,039 / (120 × 2) = 163 µε de deformação falsa. A ligação a três fios põe um condutor em cada braço adjacente, e as variações se cancelam. A resistência dos cabos também reduz a sensibilidade: 1 Ω em série com 120 Ω tira cerca de 0,8 % do sinal, o que se corrige no condicionador.
Para conferir a cadeia inteira (gauge, cabos, ponte, amplificador), usa-se a calibração shunt: um resistor Rs de valor conhecido é ligado em paralelo com o gauge e simula uma deformação de ε = −R / [GF·(R + Rs)]. Com 120 Ω, GF = 2 e Rs = 59.880 Ω, a simulação é de −1.000 µε; se o sistema indicar outro valor, o erro está na cadeia de medição.
Amplificação, filtragem e taxa de aquisição
Condicionador de sinal é o equipamento que alimenta a ponte, amplifica a saída de milivolts e a digitaliza. Ele faz três coisas depois da ponte. Amplifica o sinal, com ganho de centenas a milhares de vezes, para ocupar a faixa do conversor analógico-digital. Filtra, com um passa-baixa antes da digitalização, o ruído da rede elétrica de 60 Hz e as frequências acima das que interessam. E amostra numa taxa compatível com o fenômeno: pelo critério de Nyquist, a taxa de aquisição tem de ser maior que o dobro da maior frequência do sinal. Um eixo a 1.800 rpm gira a 30 Hz; uma deformação que se repete uma vez por volta pede mais de 60 amostras por segundo, e na prática bem mais que esse mínimo para registrar a forma e o valor do pico. Em medição estática, como a de uma estrutura sob carga permanente, poucas amostras por segundo bastam, e a prioridade passa a ser a estabilidade do zero.
Roseta: deformações principais quando a direção é desconhecida
A roseta é um strain gauge com duas ou três grades num mesmo suporte, em ângulos fixos, usado para medir o estado plano de deformação quando a direção principal não é conhecida. Um strain gauge comum mede só na direção da sua grade. Numa barra tracionada, isso basta, porque a direção da deformação principal é conhecida. Numa peça real, como o canto de um furo, uma solda ou o flange de um suporte, o estado é biaxial e a direção principal não é conhecida de antemão. Para determiná-lo são necessárias três medidas independentes, e a roseta reúne três grades em ângulos fixos: 0°, 45° e 90° na retangular, ou 0°, 60° e 120° na delta. Nas rosetas empilhadas, as três grades ficam uma sobre a outra e medem praticamente no mesmo ponto; nas planares, ficam lado a lado, aquecem menos e medem numa área um pouco maior. A Micro-Measurements relata casos em que a leitura de uma única grade difere em até 130 % da deformação principal: um gauge uniaxial mal orientado não dá um valor aproximado, dá outro valor.
Com as leituras εa (0°), εb (45°) e εc (90°) da roseta retangular, as deformações principais são:
ε1,2 = (εa + εc)/2 ± (1/√2)·√[(εa − εb)² + (εb − εc)²]
A distorção no plano é γ = 2εb − εa − εc, e a direção principal faz com a grade a o ângulo θ dado por tg 2θ = γ / (εa − εc), medido da grade a para a grade b; o quadrante se confirma substituindo θ na equação de transformação. As tensões principais saem da lei de Hooke generalizada para o estado plano, que usa o coeficiente de Poisson ν: σ1 = E/(1 − ν²)·(ε1 + ν·ε2) e σ2 = E/(1 − ν²)·(ε2 + ν·ε1). O exercício 3 aplica as três fórmulas.
Tipos de strain gauge pela geometria da grade
Os tipos de strain gauge se distinguem pelo número de grades e pelos ângulos entre elas, e cada geometria responde a um estado de deformação:
- Uniaxial: uma grade; serve quando a direção da deformação é conhecida, como numa barra tracionada ou na face de uma viga.
- Dupla paralela: duas grades lado a lado, na mesma direção; dá redundância ou mede o gradiente de deformação entre dois pontos próximos.
- Roseta em T (0/90°): duas grades perpendiculares; serve quando as direções principais são conhecidas, como na medição do coeficiente de Poisson.
- Roseta de três grades (0/45/90° ou 0/60/120°): o caso geral do estado plano, descrito acima.
- Torção ou cisalhamento (±45°): duas grades a 45° do eixo, em espinha de peixe; mede torque em eixos.
- Diafragma: grades radiais e circunferenciais num padrão circular, colado em membranas de transdutores de pressão.
- Cadeia: várias grades pequenas em linha; mapeia o gradiente de deformação perto de um furo ou de um entalhe.
- Roseta para tensão residual: três grades em volta de um ponto central, onde se fura um pequeno furo cego; o alívio de deformação medido dá a tensão residual pelo método da ASTM E837.
O gauge de torção merece uma conta. Na superfície de um eixo em torção, o estado é de cisalhamento puro, e as deformações principais ficam a ±45° da linha de centro, iguais e de sinais opostos, com valor γ/2. Com quatro grades a ±45° em ponte completa, os sinais se somam e a saída vale V0/Vex = GF·γ/2; a flexão e a tração do eixo se cancelam. Da distorção γ sai a tensão de cisalhamento, τ = G·γ, com o módulo de cisalhamento G, e dela o torque, T = τ·J/r, em que J é o momento polar de inércia (π·d4/32 no eixo maciço) e r o raio. É o princípio dos torquímetros de strain gauge; o ensaio que mede G e a resistência à torção está no artigo ensaio de torção.
A tabela resume os tipos e o uso de cada um:
| Tipo | Grades | Uso típico |
|---|---|---|
| Uniaxial | 1 | direção conhecida: barras, vigas |
| Roseta em T | 2, a 0/90° | direções principais conhecidas, Poisson |
| Roseta retangular ou delta | 3, a 0/45/90° ou 0/60/120° | estado plano com direção desconhecida |
| Torção | 2 ou 4, a ±45° | torque em eixos, torquímetros |
| Diafragma | 4, radiais e circunferenciais | transdutores de pressão |
| Cadeia | 5 a 10 em linha | gradiente perto de concentrações de tensão |
| Tensão residual | 3 em volta de um furo | método do furo cego, ASTM E837 |
Colagem e aplicações da extensometria
O strain gauge só mede o que a cola transmite. Uma colagem ruim não dá uma leitura um pouco pior: dá histerese, deriva e descolamento, que aparecem como deformação. A sequência recomendada pelos fabricantes segue a mesma lógica em todos os casos, e os tempos e temperaturas de cura vêm da ficha do adesivo:
- desengraxar a região com solvente;
- lixar em direções cruzadas, para criar rugosidade de ancoragem;
- marcar os eixos de referência, que definem a direção da grade;
- limpar com condicionador ácido e depois com neutralizador, até o cotonete sair limpo;
- posicionar o gauge com fita, aplicar o adesivo (cianoacrilato à temperatura ambiente, ou epóxi com cura térmica para alta temperatura e medições longas) e pressionar durante a cura;
- soldar os terminais e os cabos, com alívio de tensão para o cabo não arrancar o gauge;
- conferir a resistência e o isolamento elétrico em relação à peça;
- proteger contra umidade e dano mecânico.
Com o gauge bem colado, a extensometria (a técnica de medir deformações com strain gauges e calcular as tensões associadas) atende a quatro grupos de aplicação. O primeiro é a análise experimental de tensões em protótipos, que valida modelos de elementos finitos, localiza concentrações de tensão e registra o histórico de carga em serviço usado no cálculo de vida em fadiga. O segundo são os transdutores: célula de carga, inclusive a das balanças, torquímetro, transdutor de pressão, em que um elemento elástico de geometria conhecida converte força, torque ou pressão em deformação e a ponte completa converte deformação em sinal. A célula de carga de uma máquina universal é esse transdutor; ela mede força, não deformação, porque foi calibrada em força. O terceiro é o monitoramento de estruturas, como pontes, torres, guindastes e aeronaves, e a manutenção preditiva. O quarto são usos fora da engenharia mecânica, como sensores vestíveis de respiração e postura, em pesquisa médica e de reabilitação.
O extensômetro de ensaio de materiais
O extensômetro de ensaio é o instrumento que mede o alongamento de um trecho do próprio corpo de prova durante o ensaio mecânico, e é o canal de deformação da máquina, ao lado da célula de carga. A máquina mede a força com a célula de carga e o deslocamento da travessa com o encoder, e nenhum dos dois é a deformação do material. O extensômetro mede dentro da parte paralela, onde a seção é constante e a tensão é a calculada. Por que isso muda o resultado está explicado na seção sobre extensômetro do artigo ensaio de tração; aqui o foco é o instrumento.
A grandeza central é a base de medida, a distância inicial entre os dois pontos de medição, chamada aqui de L0. Atenção à notação das normas: a ISO 9513 e a ISO 6892-1 chamam a base do extensômetro de Le e reservam L0 para o comprimento de referência marcado no corpo de prova, usado no alongamento após a ruptura. Os dois podem ser diferentes. As outras características que definem um extensômetro são o curso, o maior alongamento que ele acompanha (por exemplo, ±2,5 mm ou 0 a +50 mm), e a resolução, a menor variação que ele distingue, em micrômetros.
Anatomia do extensômetro clip-on
O clip-on é o tipo mais usado em metais e no módulo de plásticos. Duas facas de aço endurecido encostam no corpo de prova, uma presa a um braço fixo e a outra a um braço móvel. Molas ou elásticos as mantêm apertadas contra a superfície, de modo que cada faca acompanhe o ponto do corpo de prova em que está apoiada. Quando o trecho entre elas se alonga, o braço móvel se desloca e o transdutor no corpo do extensômetro converte esse deslocamento em sinal: strain gauges num elemento flexível, ligados em ponte, ou um LVDT (transformador diferencial, um transdutor indutivo de deslocamento). Um pino ou trava fixa a distância entre as facas em L0 durante a montagem e tem de ser retirado antes de o ensaio começar. O esquema abaixo mostra um clip-on de 50 mm num corpo de prova redondo com parte paralela de 60 mm e compara o trecho que ele mede com o trecho que a travessa mede.

Duas consequências práticas saem do esquema. As facas têm de ficar dentro da parte paralela, longe das concordâncias, onde a seção já cresce; a MTS recomenda medir nos 70 a 80 % centrais da parte útil. E o extensômetro não vê nada fora das facas: se o pescoço e a ruptura acontecem fora da base, o alongamento concentrado no pescoço não entra na leitura. Por isso o clip-on de pequenas deformações costuma ser retirado depois do escoamento, o que também o protege da energia liberada na ruptura.
Tipos de extensômetro de ensaio
Fora o clip-on, os outros tipos resolvem situações em que ele não serve: grandes alongamentos, corpos de prova frágeis demais para o contato das facas, rupturas violentas e medidas que não são axiais. A tabela a seguir reúne os principais, depois da descrição de cada um:
- Longas deformações: dois braços seguidores presos ao corpo de prova, que se afastam junto com ele num curso de dezenas a centenas de milímetros. É o tipo dos elastômeros, filmes e plásticos dúcteis. O cuidado é a força de contato, que não pode marcar nem deformar amostras finas.
- Transversal ou diametral: mede a variação da largura ou do diâmetro, usada no coeficiente de Poisson junto com um extensômetro axial. A ISO 9513 cobre os dois, axial e diametral.
- Clip-gage (COD): mede a abertura de um entalhe ou de uma trinca, nos ensaios de mecânica da fratura. Não mede deformação axial.
- Deflectômetro: mede a flecha no meio do vão do ensaio de flexão. Mede deslocamento, e a deformação sai da fórmula da flexão.
- Vídeo (sem contato): uma câmera acompanha duas marcas no corpo de prova e calcula a distância entre elas em cada quadro. Nada toca a amostra, então a ruptura não o danifica e o contato não influencia materiais delicados. Exige marcação, iluminação e calibração da imagem.
- Laser e correlação digital de imagens (DIC): o laser segue o padrão natural da superfície (speckle), sem marcação; a DIC calcula o campo completo de deformações a partir de um padrão pintado, recurso típico de pesquisa.
| Tipo | Como mede | Uso típico |
|---|---|---|
| Clip-on | duas facas por mola; strain gauges ou LVDT | metais e módulo de plásticos: E, Rp0,2 |
| Longas deformações | braços seguidores de grande curso | elastômeros, filmes, plásticos dúcteis |
| Transversal | variação da largura ou do diâmetro | coeficiente de Poisson |
| Clip-gage (COD) | abertura do entalhe | mecânica da fratura |
| Deflectômetro | flecha no meio do vão | módulo de flexão |
| Vídeo, laser, DIC | imagem, sem contato | ruptura violenta, amostra delicada, campo de deformações |
O nome "extensômetro" ainda aparece em mais dois lugares. Os extensômetros mecânicos antigos usavam relógio comparador e alavancas e eram lidos a olho; o "extensômetro digital" é qualquer um com saída elétrica lida pelo software. Na geotecnia, chamam-se extensômetros os relógios que medem a expansão do solo no ensaio CBR e os instrumentos de haste instalados em barragens e taludes, que não têm relação com o ensaio de tração.
Classes de exatidão: ISO 9513 e ASTM E83
A classe de exatidão de um extensômetro é o limite de erro que ele garante na calibração, definido pela ISO 9513 (classes 0,2 a 2) ou pela ASTM E83 (classes A a E). O extensômetro é calibrado estaticamente: ele é montado num calibrador, um aparato rígido que impõe deslocamentos conhecidos medidos por interferômetro, encoder linear ou blocos-padrão, e as indicações do extensômetro são comparadas com esses deslocamentos. A ISO 9513:2012, confirmada pela ISO em 2022 e adotada no Brasil como ABNT NBR ISO 9513:2013, exige antes da calibração uma inspeção do estado do instrumento, incluindo facas gastas, e pede que os instrumentos de apoio da calibração tenham incerteza de no máximo um terço do erro admissível. A classe do sistema é a pior entre três critérios: o erro da base de medida, a resolução e o erro de indicação (bias). O erro de indicação admissível é o maior entre um valor relativo, em porcentagem da leitura, e um valor absoluto, em micrômetros.
A ASTM E83-25 faz o mesmo com outra unidade: o erro admissível é o maior entre um erro fixo expresso em deformação e um erro relativo. Como uma norma fixa o erro absoluto em micrômetros e a outra em deformação, a comparação entre elas depende da base. A tabela converte os limites das classes mais usadas em ensaios de tração para uma base de 50 mm:
| Norma e classe | Erro relativo | Erro absoluto | Em base de 50 mm |
|---|---|---|---|
| ISO 9513, classe 0,5 | ±0,5 % | ±1,5 µm | 30 µε |
| ISO 9513, classe 1 | ±1 % | ±3 µm | 60 µε |
| ASTM E83, classe B-1 | ±0,5 % | 0,0001 (100 µε) | 5 µm |
| ASTM E83, classe B-2 | ±0,5 % | 0,0002 (200 µε) | 10 µm |
A conversão desmonta uma equivalência repetida em laboratório, a de que "classe 1 é o mesmo que B-1". Numa base de 50 mm, o erro absoluto da classe 1 (3 µm, 60 µε) é mais apertado que o da B-1 (100 µε). Numa base de 25 mm, os mesmos 3 µm valem 120 µε, e a B-1 passa a ser a mais exigente. As duas normas têm ainda outras classes: a ISO 9513, a 0,2 e a 2; a ASTM E83, a A, mais rigorosa, e a C, a D e a E, para deformações cada vez maiores.
Quem diz a classe mínima é a norma do ensaio, não a do extensômetro. Na tração de metais, a ISO 6892-1 pede classe 1 para os limites de escoamento e a ASTM E8 pede B-2, como detalha o artigo ASTM E8 e ISO 6892-1. Na tração de plásticos, a ASTM D638 pede B-2 para o módulo e aceita a classe C até cerca de 20 % de deformação, como explica o artigo ASTM D638. A ASTM E111, método dedicado ao módulo de elasticidade, pede B-1 ou melhor.
Por que a travessa não serve para o módulo: a máquina em série
O deslocamento da travessa não mede o módulo de elasticidade porque soma ao alongamento do corpo de prova a deformação elástica da máquina e das garras e o assentamento das cunhas. O artigo de ensaio de tração já mostra a consequência: o mesmo aço dá 205 GPa pelo extensômetro e um módulo aparente de cerca de 34 GPa pela travessa. A pergunta que fica é por que o erro é tão grande no aço e tão menor em outros materiais. A resposta é que o corpo de prova e o resto do sistema funcionam como duas molas em série. A mesma força passa pelos dois, e o deslocamento da travessa é a soma dos dois alongamentos:
ΔLtravessa = F·(Lc / (E·S0) + Cs)
O primeiro termo é a parte paralela do corpo de prova, de comprimento Lc e seção S0. O segundo, Cs, é a flexibilidade do sistema, em mm por kN: a deformação elástica das colunas, da célula de carga e dos adaptadores, o alongamento das cabeças e das concordâncias e o assentamento das cunhas. Dividindo pela parte paralela, o módulo aparente fica Eap = E / (1 + Cs·kcp), em que kcp = E·S0/Lc é a rigidez do corpo de prova. O erro cresce com essa rigidez. Um corpo de prova de aço de 12,5 mm tem kcp ≈ 419 kN/mm, quatro vezes a rigidez do sistema do exercício 2 (cerca de 103 kN/mm), e o módulo aparente cai para um quinto. Um corpo de prova tipo I de policarbonato (13 × 3,2 mm, E ≈ 2,4 GPa, 57 mm de parte paralela) tem kcp ≈ 1,75 kN/mm, e o mesmo sistema tiraria só 1,7 % do módulo. Nos plásticos, o erro da travessa vem de outros efeitos, como o escorregamento nas garras e a deformação das cabeças, descritos no artigo de tração.
Existe a correção de flexibilidade: medir Cs com um corpo de prova rígido e descontá-la. Ela ajuda em ensaios em que a norma admite o deslocamento corrigido, mas não resolve o assentamento das cunhas, que não é linear nem se repete de um ensaio para o outro, e não substitui o extensômetro quando a norma o exige. O exercício 2 refaz a conta completa e mostra para onde vai cada décimo de milímetro.
Como escolher o extensômetro: base, curso, classe e contato
Escolher um extensômetro de ensaio é responder a quatro perguntas, nesta ordem: que base de medida, que curso, que classe e se o contato com o corpo de prova é aceitável.
- Que base a norma e o corpo de prova permitem? A base tem de caber na parte paralela com folga. Um extensômetro de 50 mm serve ao redondo de 12,5 mm da ASTM E8 e ao tipo I da ASTM D638; corpos de prova menores pedem 25 mm. Para o mesmo erro absoluto, a base maior dá erro relativo menor e uma média sobre um trecho mais longo.
- Que curso o ensaio exige? O alongamento máximo é ΔL = εmáx × L0. Para o módulo e o escoamento de metais bastam poucos milímetros; para elastômeros, que alongam várias vezes o comprimento inicial, o curso chega a centenas de milímetros (exercício 4).
- Que classe a norma do ensaio pede? Ver a seção anterior. A classe vale para a faixa calibrada: um extensômetro calibrado só nos primeiros milímetros não tem classe garantida no fim do curso.
- Contato ou sem contato? O clip-on serve à maioria dos metais e plásticos rígidos. Rupturas violentas, como a de aços de alta resistência e compósitos, pedem a retirada antes da ruptura ou medição sem contato. Filmes, fibras e materiais macios podem ser marcados pela faca e romper nela; nesses casos, braços de baixa força de contato ou vídeo.
Exercícios resolvidos
Os quatro exercícios cobrem os dois sentidos do termo: a leitura de um strain gauge, o módulo medido com extensômetro de ensaio, a roseta e a escolha do curso.
Exercício 1: deformação e tensão por um strain gauge
Um strain gauge de 120 Ω e GF = 2,1 está colado numa barra de aço tracionada, na direção do eixo (E = 200 GPa). Com a carga aplicada, a resistência aumentou 0,084 Ω. Calcule a deformação, a tensão e a saída numa 1/4 de ponte excitada com 5 V.
- Variação relativa: ΔR/R = 0,084 / 120 = 7,00 × 10−4.
- Deformação: ε = (ΔR/R) / GF = 7,00 × 10−4 / 2,1 = 3,333 × 10−4 = 333 µε.
- Tensão, no regime elástico e uniaxial: σ = E·ε = 200.000 MPa × 3,333 × 10−4 = 66,7 MPa.
- Saída da ponte: V0 ≈ Vex·GF·ε/4 = 5 × 2,1 × 3,333 × 10−4 / 4 = 8,75 × 10−4 V = 0,875 mV. O fator de não linearidade, 1/(1 + GF·ε/2) = 0,99965, muda o resultado para 0,8747 mV: desprezível nesse nível de deformação.
Se o condicionador estivesse configurado com GF = 2,0 em vez de 2,1, a deformação indicada seria 7,00 × 10−4 / 2,0 = 350 µε, 5 % acima da real, e a tensão calculada, 70,0 MPa. O erro do fator de gauge passa inteiro para o resultado.
Exercício 2: módulo do aço pelo extensômetro e pela travessa
Um corpo de prova redondo de aço, com d = 12,5 mm, parte paralela Lc = 60 mm e Rp0,2 em torno de 350 MPa, é ensaiado com um extensômetro clip-on de L0 = 50 mm. Entre F1 = 4 kN e F2 = 28 kN, no trecho elástico, o extensômetro mede ΔL = 0,0477 mm, e a travessa se desloca 0,290 mm (valor ilustrativo). Calcule o módulo pelas duas leituras.
- Seção: S0 = π × 12,5² / 4 = 122,7 mm².
- Tensões: σ1 = 4.000 / 122,7 = 32,6 MPa; σ2 = 28.000 / 122,7 = 228,2 MPa; Δσ = 195,6 MPa. O ponto superior fica bem abaixo do escoamento.
- Extensômetro: Δε = 0,0477 / 50 = 9,54 × 10−4; E = 195,6 / 9,54 × 10−4 = 205.000 MPa = 205 GPa.
- Travessa, dividindo pela parte paralela: Δε aparente = 0,290 / 60 = 4,83 × 10−3; E aparente = 195,6 / 4,83 × 10−3 = 40,5 GPa, cerca de 5 vezes menor.
- Diagnóstico: a parte paralela, com a deformação real de 9,54 × 10−4, alonga 9,54 × 10−4 × 60 = 0,057 mm. Os outros 0,290 − 0,057 = 0,233 mm vêm do sistema, o que dá Cs = 0,233 / 24 = 0,0097 mm/kN, ou uma rigidez de cerca de 103 kN/mm.
O gráfico abaixo mostra as duas retas do mesmo ensaio e, ao lado, a decomposição dos 0,290 mm medidos pela travessa:

A conta também mostra por que a classe importa no módulo. O extensômetro mediu só 47,7 µm. O limite absoluto da classe 1 da ISO 9513, 3 µm, equivale a 6 % desse intervalo; o da classe 0,5, 1,5 µm, a 3 %. A classe garante um limite, não o erro real, mas o cálculo explica duas práticas: usar o maior intervalo de força possível dentro do trecho elástico e preferir, para o módulo, um extensômetro de classe melhor que a exigida para o escoamento.
Exercício 3: roseta retangular numa chapa de aço
Uma roseta 0/45/90 colada numa chapa de aço (E = 200 GPa, ν = 0,30) indica εa = 600 µε, εb = 400 µε e εc = −200 µε. Calcule as deformações e tensões principais e a direção principal.
- Centro: (εa + εc)/2 = (600 − 200)/2 = 200 µε.
- Raio: (1/√2)·√[(600 − 400)² + (400 + 200)²] = 0,7071 × √(40.000 + 360.000) = 0,7071 × 632,5 = 447,2 µε.
- Deformações principais: ε1 = 200 + 447,2 = 647,2 µε; ε2 = 200 − 447,2 = −247,2 µε.
- Direção: γ = 2 × 400 − 600 − (−200) = 400 µε; tg 2θ = 400 / (600 + 200) = 0,5; 2θ = 26,6° e θ = 13,3°, da grade a para a grade b. Conferência: ε(13,3°) = 200 + 400 × cos 26,6° + 200 × sen 26,6° = 200 + 357,8 + 89,4 = 647,2 µε.
- Fator do estado plano: E/(1 − ν²) = 200.000 / 0,91 = 219.780 MPa.
- Tensões: σ1 = 219.780 × (647,2 + 0,3 × (−247,2)) × 10−6 = 219.780 × 573,0 × 10−6 = 125,9 MPa; σ2 = 219.780 × (−247,2 + 0,3 × 647,2) × 10−6 = 219.780 × (−53,0) × 10−6 = −11,7 MPa.
Repare que σ1 = E·ε1 daria 129,4 MPa, e a grade a sozinha, 600 µε × 200 GPa = 120 MPa. Nenhum dos atalhos dá a tensão principal: no estado biaxial é preciso a roseta e a lei de Hooke generalizada.
Exercício 4: curso do extensômetro para um elastômero
Um elastômero deve ser ensaiado até a ruptura, que ocorre perto de 300 % de alongamento, com base de medida de 50 mm. Que curso o extensômetro precisa ter?
- Alongamento máximo: ΔL = εmáx × L0 = 3,00 × 50 = 150 mm.
- Um clip-on de 50 mm com curso de 0 a +50 mm cobre só até 100 %: não serve.
- Um extensômetro de longas deformações com 150 mm de curso chega exatamente ao limite, sem folga para a dispersão entre corpos de prova; o de 250 mm dá margem. Se o material chegar a 500 %, o mesmo cálculo dá 250 mm.
- Com base de 25 mm, quando a norma do produto permitir, os 300 % pedem 75 mm de curso.
Como interpretar: dúvidas de interpretação
As perguntas abaixo reúnem os pontos em que a leitura de um strain gauge ou de um extensômetro costuma ser mal interpretada.
A leitura do strain gauge é a tensão na peça?
Não diretamente, e nem sempre a tensão total. O gauge é zerado depois de colado, então mede só a variação de deformação a partir daquele instante: tensões residuais de fabricação e cargas permanentes que já estavam na peça não aparecem. Além disso, σ = E·ε só vale no regime elástico e com esforço uniaxial na direção da grade; em estado biaxial, a conversão exige roseta e o coeficiente de Poisson, como no exercício 3.
Por que dois ensaios no mesmo material dão módulos diferentes, mesmo com extensômetro?
A causa mais frequente é a flexão parasita. Com algum desalinhamento das garras, o corpo de prova flete um pouco, e um clip-on preso de um lado só lê a deformação daquela face, maior ou menor que a média. Dois extensômetros em lados opostos, ou um extensômetro de média, cancelam a flexão. As outras causas são um intervalo de força pequeno demais, em que o erro absoluto da classe pesa, e a escolha de pontos fora do trecho linear.
Um extensômetro de 50 mm mede o dobro da deformação de um de 25 mm?
Não. Com deformação uniforme, os dois medem a mesma deformação; o de 50 mm mede o dobro de alongamento ΔL. O erro clássico é o contrário: base configurada errada no software. Um extensômetro de 25 mm declarado como 50 mm entrega metade da deformação e o dobro do módulo.
O alongamento do extensômetro é o alongamento após a ruptura?
Só se ele ficou até a ruptura e a fratura ocorreu entre as facas. Na prática, o clip-on é retirado depois do escoamento, e o alongamento após a ruptura se mede juntando as metades e medindo a distância entre as marcas do comprimento de referência, que pode ser diferente da base do extensômetro.
Um degrau ou um trecho negativo no início da curva é comportamento do material?
Quase nunca. No início do ensaio, as facas se acomodam e o corpo de prova se alinha nas garras; uma faca que escorrega produz um degrau, e uma faca mal apoiada pode registrar encurtamento aparente. A pré-carga pequena antes de zerar o extensômetro e a conferência visual das facas resolvem a maioria dos casos.
Strain gauge colado no corpo de prova substitui o extensômetro?
No trecho elástico, pode. Gauges colados em faces opostas são comuns em compósitos e em medições de Poisson, porque medem pequenas deformações com alta resolução. Mas medem num ponto, descolam ou rompem quando o material escoa e são perdidos a cada corpo de prova. Para escoamento e alongamento, o extensômetro de ensaio continua necessário.
Erros comuns
Os erros abaixo aparecem com frequência em laboratório, metade na extensometria e metade no ensaio:
- Esquecer o pino de ajuste da base no clip-on. O extensômetro fica travado, não registra nada e pode quebrar.
- Retirar o clip-on tarde. A ruptura libera energia elástica que danifica facas e braços. Programe a retirada depois do escoamento ou use medição sem contato.
- Facas gastas ou molas frouxas. A faca escorrega e a curva ganha degraus. A ISO 9513 inclui as facas na inspeção que antecede a calibração.
- Curso insuficiente para polímeros e elastômeros (exercício 4).
- Classe abaixo da exigida pela norma do ensaio, ou calibração que não cobre a faixa usada.
- Strain gauge ligado a dois fios na 1/4 de ponte, com cabos sujeitos a variação de temperatura: cada grau vira deformação falsa.
- Gauge autocompensado para o material errado, como um gauge para aço colado em alumínio.
- Excitação alta num gauge de 120 Ω sobre plástico ou compósito: autoaquecimento e deriva.
- GF errado no condicionador: o erro passa inteiro para a deformação.
- Superfície mal preparada: histerese e descolamento, lidos como deformação.
Extensômetros para a máquina universal Biopdi
A Biopdi fabrica máquinas universais de ensaios e trabalha com o segundo sentido da palavra: o extensômetro de ensaio, que entra como canal de deformação ao lado da célula de carga. A linha M2 tem extensômetros clip-on de 25 e 50 mm, para pequenas deformações, módulo de elasticidade e limite de escoamento convencional, e extensômetros de longas deformações de 150 e 250 mm de curso, para polímeros e elastômeros. A página da máquina universal de ensaios lista também o deflectômetro para flexão, o clip-gage e outras bases e cursos. O software BioLab lê até 4 canais de extensômetro ao mesmo tempo, o que permite, por exemplo, um axial e um transversal para o coeficiente de Poisson. A célula de carga, ela própria um transdutor com strain gauges, tem classe 1 pela ABNT NBR ISO 7500-1:2023. O painel abaixo mostra a máquina, o papel de cada parte na medição de deformação e os extensômetros.
A máquina universal na medição de deformação
A linha M2 tem modelos de coluna simples, de 200 N a 10 kN, e de coluna dupla, de 5 kN a 1.000 kN. Cada parte da máquina tem uma função na medição:

- Travessa móvel aplica o deslocamento na velocidade da norma
- Célula de carga mede a força, classe 1
- Garras fixam e alinham o corpo de prova
- Extensômetro mede o alongamento no trecho útil
- Software BioLab até 4 canais de extensômetro, módulo e Rp0,2
- Painel e emergência posiciona e para o ensaio
Extensômetros da linha M2
Os extensômetros abaixo são montados na mesma máquina, conforme o material e a norma:




A máquina também precisa acompanhar o extensômetro. Para materiais que alongam centenas de por cento, o curso da travessa é o limite: a coluna estendida chega a 1.290 mm. A tabela indica o modelo por aplicação:
| Aplicação | Extensômetro | Modelo Biopdi |
|---|---|---|
| Módulo de plásticos (D638, ISO 527) | clip-on de 50 mm | MBIOI-10-M2 (2 a 10 kN) |
| Elastômeros e filmes de alto alongamento | longas deformações, 150 ou 250 mm de curso | MBIOI-10-M2 com coluna estendida |
| Chapas, fixadores, barras usinadas | clip-on de 25 ou 50 mm | MBIOII-50-M2 (5 a 50 kN) |
| Vergalhões e barras | clip-on de 50 mm | MBIOII-200-M2 (100 a 200 kN) |
Normas de extensometria e de extensômetros
As normas abaixo tratam do instrumento (calibração e classe) ou exigem um extensômetro de classe definida. As edições foram conferidas em 30/09/2026; as da ASTM E83, E251 e E837, de novo em 01/10/2026:
| Norma | Assunto | Edição vigente |
|---|---|---|
| ISO 9513 | calibração e classes de extensômetros, com e sem contato | 2012, confirmada em 2022 |
| ABNT NBR ISO 9513 | adoção brasileira da ISO 9513 | 2013, confirmada em 2024 |
| ASTM E83 | calibração, verificação e classes de extensômetros | E83-25 |
| ASTM E251 | características de strain gauges metálicos colados (GF, saída térmica, sensibilidade transversal) | E251-20a |
| ASTM E837 | tensão residual pelo método do furo cego com roseta de strain gauges | E837-25e1 |
| ASTM E111 | módulo de Young, tangente e secante | E111-17, reaprovada em 2025 |
| ABNT NBR ISO 6892-1 | tração de metais em temperatura ambiente | 2024 |
| ASTM E8/E8M | tração de metais | E8/E8M-25 |
| ASTM D638 | tração de plásticos | D638-22 |
| ABNT NBR ISO 7500-1 | verificação da força da máquina (célula de carga) | 2023 |
Outros ensaios e referências técnicas
Ensaios realizados na máquina universal Biopdi
Referências técnicas relacionadas
Célula de carga: o que é, como funciona, tipos, classe de exatidão e a célula da máquina de ensaio
Célula de carga é o sensor que converte força em sinal elétrico, em geral 2 mV/V. Como funciona, tipos, ligação em 4 e 6 fios e classe pela ISO 7500-1.
ASTM D638: ensaio de tração de plásticos, corpos de prova tipo I a V, velocidade e cálculo
A ASTM D638-22 é o método da ASTM para as propriedades de tração de plásticos de até 14 mm de espessura, com corpos de prova em gravata tipo I a V. Veja dimensões, velocidade de ensaio, condicionamento, extensômetro, fórmulas, exemplo resolvido e as diferenças para a ISO 527-2:2025.
ASTM D790: ensaio de flexão de plásticos em três pontos (procedimentos A e B, vão e cálculos)
A ASTM D790-25 mede a resistência e o módulo de flexão de plásticos numa barra biapoiada carregada no meio, com vão de 16 vezes a espessura e taxa de deformação de 1 %/min (procedimento A) ou 10 %/min (procedimento B), até a ruptura ou até 5 % de deformação. Veja a velocidade R = ZL²/6d, as fórmulas, a correção de grandes deflexões, a comparação com a ISO 178 e a D6272 e exercícios resolvidos.
Perguntas frequentes
Para que serve um extensômetro?
Para medir deformação. O strain gauge colado mede a deformação local de peças, estruturas e elementos elásticos de transdutores, como as células de carga. O extensômetro de ensaio mede o alongamento do corpo de prova na máquina universal, para calcular o módulo de elasticidade, o limite de escoamento convencional e o alongamento.
Qual a diferença entre extensômetro e strain gauge?
Strain gauge é o extensômetro de resistência elétrica: uma grade colada que mede a deformação num ponto pela variação da resistência (ΔR/R = GF·ε). Extensômetro também nomeia o instrumento de ensaio que mede o alongamento entre duas facas presas ao corpo de prova, ou sem contato. Muitos extensômetros de ensaio usam strain gauges por dentro, mas medem outra coisa. Strain gage é a mesma palavra na grafia americana.
O que são extensômetros elétricos?
São os strain gauges: extensômetros de resistência elétrica, de fio ou de folha metálica, colados na superfície da peça, cuja resistência varia em proporção à deformação (ΔR/R = GF·ε). O nome os separa dos extensômetros mecânicos, de relógio comparador e alavancas, e dos extensômetros de ensaio, que são instrumentos removíveis.
Quais são os tipos de extensômetros?
Entre os strain gauges: uniaxial, roseta (0/45/90 ou 0/60/120), cadeia e diafragma, de folha metálica ou semicondutor. Entre os extensômetros de ensaio: clip-on, de longas deformações, transversal, clip-gage para abertura de trinca, deflectômetro para flexão e os sem contato, por vídeo, laser ou correlação de imagens.
Como funciona o strain gauge?
A grade metálica alonga junto com a peça, fica mais longa e mais fina e muda de resistividade, e a resistência sobe: ΔR/R = GF·ε, com GF ≈ 2 no constantan. Como 1.000 µε numa grade de 120 Ω dão só 0,24 Ω, a leitura é feita numa ponte de Wheatstone com amplificador.
Como o strain gauge mede força?
Indiretamente: os strain gauges são colados num elemento elástico de geometria conhecida, a força deforma esse elemento e a ponte completa converte a deformação em milivolts. Esse conjunto é a célula de carga das balanças e das máquinas de ensaio, calibrada em força contra padrões, com saída típica de 2 mV/V na capacidade nominal.
Qual a diferença entre LVDT e strain gauge?
O LVDT mede deslocamento, e o strain gauge mede deformação. O LVDT é um transformador diferencial com núcleo móvel, sem contato elétrico entre as partes e reutilizável, que lê de micrômetros a centímetros; o strain gauge é colado e mede a deformação local da superfície. Num extensômetro de ensaio, qualquer um dos dois pode ser o transdutor interno que converte o movimento das facas em sinal.
Quanto custa um strain gauge?
Depende da categoria. Os módulos didáticos BF350 para Arduino são os mais baratos, vendidos avulsos em lojas de eletrônica; strain gauges de laboratório, com fator de gauge certificado por lote e autocompensação para o material, custam mais e são vendidos em pacotes; um extensômetro de ensaio calibrado pela ISO 9513 ou pela ASTM E83 é um instrumento de precisão, cotado com a máquina de ensaio.
O que é um extensômetro digital?
É o extensômetro cuja saída é um sinal elétrico (de strain gauges, LVDT, encoder ou câmera) lido e registrado por software, em vez de um relógio comparador lido a olho. Na máquina universal, ele entra como um canal de deformação ao lado da célula de carga.
O que é extensometria?
É a técnica experimental de medir deformações com strain gauges e calcular as tensões associadas. É usada na análise de tensões de protótipos, no monitoramento de estruturas e na construção de transdutores de força, torque e pressão.
Por que não usar o deslocamento da travessa para calcular o módulo?
Porque ele soma a deformação da máquina, das garras, das cabeças do corpo de prova e o assentamento das cunhas. No exercício deste artigo, o aço dá 205 GPa pelo extensômetro e 40,5 GPa pela travessa: dos 0,290 mm da travessa, só 0,057 mm eram da parte paralela.
Qual classe de extensômetro é exigida no ensaio de tração?
Depende da norma do ensaio. A ISO 6892-1 pede classe 1 da ISO 9513 para os limites de escoamento; a ASTM E8, classe B-2 da ASTM E83; a ASTM D638, B-2 para o módulo de plásticos; a ASTM E111, B-1 ou melhor para o módulo.
Qual base de medida usar: 25 ou 50 mm?
A que cabe na parte paralela do corpo de prova da norma, com as facas longe das concordâncias. O 50 mm serve ao redondo de 12,5 mm da ASTM E8 e ao tipo I da ASTM D638; o 25 mm, a corpos de prova menores.
Quando usar extensômetro sem contato?
Quando a ruptura é violenta e danificaria o clip-on, quando a amostra é fina ou macia demais para o contato das facas (filmes, fibras, tecidos biológicos), quando a deformação é muito grande ou quando o ensaio é feito em temperatura.
Strain gauge de 120 ou de 350 Ω?
O de 350 Ω dissipa cerca de um terço do calor do de 120 Ω com a mesma tensão (P = V²/R), aceita mais excitação e domina nos transdutores. O de 120 Ω é comum em extensometria geral e em módulos didáticos.