A ISO 898-1 é a norma internacional que define as propriedades mecânicas de parafusos e prisioneiros de aço carbono e aço liga com rosca métrica, organizadas em classes de resistência de 4.6 a 12.9. A edição vigente é a ISO 898-1:2013, com a correção técnica Cor 1:2013, e está em revisão. Para cada classe ela exige uma resistência à tração mínima, um escoamento mínimo, uma carga de prova que o parafuso suporta sem deformar permanentemente e uma faixa de dureza, e descreve os ensaios que comprovam esses valores, a começar pela tração do parafuso inteiro.
Em resumo:
- O número da classe: o primeiro número × 100 dá a resistência à tração nominal em MPa; o produto dos dois números × 10 dá o escoamento nominal. Classe 8.8: 800 MPa e 640 MPa.
- Nominal não é mínimo: o requisito de aceitação é o valor mínimo da norma, que no 10.9 é 1.040 MPa, acima dos 1.000 nominais.
- Força: a norma calcula tudo sobre a área resistente da rosca, As. No M12 × 1,75, As = 84,3 mm², e um M12 10.9 rompe no mínimo a 87,7 kN.
- No Brasil: não há versão ABNT vigente. A ABNT NBR 8855, baseada na ISO 898-1, foi cancelada em outubro de 2017 sem substituta.
O que é a ISO 898-1 e qual a edição vigente
A ISO 898-1 cobre parafusos (para uso com ou sem porca) e prisioneiros de aço carbono e aço liga, com rosca métrica triangular ISO: rosca grossa de M1,6 a M39 e rosca fina de M8 × 1 a M39 × 3. Os valores valem para ensaio em temperatura ambiente, entre 10 °C e 35 °C. Acima ou abaixo dessa faixa, o fixador pode não manter as propriedades, e a norma dedica um anexo ao comportamento em temperatura elevada.
O escopo tem limites que importam na compra. A norma não se aplica a parafusos sem cabeça que não trabalham à tração (ISO 898-5) e não especifica soldabilidade, resistência à corrosão, resistência ao cisalhamento, torque e força de aperto nem fadiga. Também avisa que parafusos de cabeça baixa ou escareada podem não atingir a carga da rosca, porque a cabeça tem menos área resistente.
A edição em vigor é a 5ª, ISO 898-1:2013, de janeiro de 2013. A correção técnica Cor 1:2013 só altera a versão em francês. Na página da ISO, conferida em 30/09/2026, a norma está no estágio 90.92, "a ser revisada": a 6ª edição foi registrada como ISO/AWI 898-1, com projeto aprovado em 27/11/2025 e ainda no estágio 20.00, sem texto publicado. Até a publicação, contratos e laudos continuam pela de 2013.
E no Brasil?
A ABNT publicou em 1991 a NBR 8855, com base na ISO 898-1, e a cancelou sem substituição em outubro de 2017, segundo o histórico do catálogo. Não localizamos uma ABNT NBR ISO 898-1 vigente, embora o nome circule em páginas de fornecedores. As especificações brasileiras citam a própria ISO 898-1, vendida pela ISO em inglês e francês; os PDFs de sites de compartilhamento não são cópias autorizadas e costumam ser das edições retiradas de 1999 ou 2009.
O que significa o número da classe (4.6, 8.8, 10.9, 12.9)
A classe é gravada na cabeça do parafuso e resume duas propriedades do ensaio de tração. O primeiro número, multiplicado por 100, é o limite de resistência à tração nominal, Rm, em MPa: a maior tensão que o parafuso suporta antes de romper. O segundo número, dividido por 10, é a razão entre o escoamento e a resistência. O escoamento é a tensão a partir da qual o aço deixa de voltar ao comprimento original, o limite elástico na prática de projeto.
- 4.6: Rm = 4 × 100 = 400 MPa; escoamento = 0,6 × 400 = 240 MPa.
- 8.8: Rm = 800 MPa; escoamento = 0,8 × 800 = 640 MPa.
- 10.9: Rm = 1.000 MPa; escoamento = 0,9 × 1.000 = 900 MPa.
- 12.9: Rm = 1.200 MPa; escoamento = 0,9 × 1.200 = 1.080 MPa.
Esses são valores nominais, que dão nome à classe. O requisito de aceitação é o mínimo da norma, e em várias classes ele fica acima do nominal: o 10.9 exige Rm ≥ 1.040 MPa e escoamento ≥ 940 MPa; o 12.9, 1.220 e 1.100 MPa; o 8.8 acima de M16, 830 e 660 MPa. Laudo que compara o resultado com o nominal aprova peça que a norma reprova.
O escoamento não é medido do mesmo jeito em todas as classes, porque depende do tipo de curva que o aço produz no diagrama tensão-deformação:
- ReL (limite inferior de escoamento) nas classes 4.6 e 5.6, de aço de baixo carbono, que costumam mostrar patamar de escoamento.
- Rp0,2 (tensão a 0,2 % de deformação plástica) nas classes 8.8 a 12.9, temperadas e revenidas, cuja curva não tem patamar.
- Rpf nas classes 4.8, 5.8 e 6.8, encruadas a frio: é o escoamento medido no próprio parafuso inteiro, pela curva força × deslocamento das garras, porque essas classes não são ensaiadas em corpo de prova usinado.
A norma também exige marcar na cabeça o código da classe e a identificação do fabricante, com regras próprias de diâmetro e de formato de cabeça.
Área resistente à tração (As)
Um parafuso não rompe na seção do diâmetro nominal: rompe na rosca, onde há menos aço. Por isso a ISO 898-1 converte força em tensão pela área resistente à tração, As, e não pela área do diâmetro nominal. Ela é calculada com dois diâmetros da rosca: o diâmetro de flanco d2, onde a largura do filete é igual à do vão, e o diâmetro d3, próximo ao da raiz da rosca.
As = (π/4) × ((d2 + d3) / 2)², com d2 = d − 0,649519·P e d3 = d − 1,226869·P, em que d é o diâmetro nominal e P o passo da rosca, em mm.
Exemplo resolvido: As do M12 × 1,75
Para um parafuso M12 de rosca grossa (P = 1,75 mm):
- d2 = 12 − 0,649519 × 1,75 = 12 − 1,137 = 10,863 mm.
- d3 = 12 − 1,226869 × 1,75 = 12 − 2,147 = 9,853 mm.
- Média: (10,863 + 9,853) / 2 = 10,358 mm.
- As = 0,7854 × 10,358² = 0,7854 × 107,29 = 84,3 mm².
A área do diâmetro nominal seria π × 12² / 4 = 113,1 mm², 34 % maior. Quem divide a força por ela subestima a tensão real em cerca de 25 % e aprova parafuso fraco. Pela mesma fórmula, as roscas grossas mais usadas têm: M8, 36,6 mm²; M10, 58,0 mm²; M16, 157 mm²; M20, 245 mm²; M24, 353 mm².
Tensão de prova, dureza e a tabela das classes
Além de resistência e escoamento, cada classe tem uma tensão de prova, Sp. Multiplicada por As, ela dá a carga de prova: a força que o parafuso tem de suportar sem ficar permanentemente alongado. Sp fica sempre abaixo do escoamento mínimo, entre cerca de 88 % e 94 % dele, e por isso a carga de prova é o teto que o projetista usa para a pré-carga de montagem.
A dureza tem mínimo e máximo, porque controla o tratamento térmico: abaixo do mínimo, o aço não atinge a resistência; acima do máximo, fica frágil. As classes 8.8 a 12.9 são obtidas por têmpera seguida de revenimento. A tabela a seguir resume os requisitos principais; a tabela completa da norma traz também estricção, energia de impacto e outros limites.
| Classe | Rm mín. / escoamento mín. (MPa) | Tensão de prova Sp (MPa) | Dureza (HV) |
|---|---|---|---|
| 4.6 | 400 / 240 | 225 | 120 a 220 |
| 4.8 | 420 / 340 | 310 | 130 a 220 |
| 5.6 | 500 / 300 | 280 | 155 a 220 |
| 5.8 | 520 / 420 | 380 | 160 a 220 |
| 6.8 | 600 / 480 | 440 | 190 a 250 |
| 8.8 (d ≤ 16 mm) | 800 / 640 | 580 | 250 a 320 |
| 8.8 (d > 16 mm) | 830 / 660 | 600 | 255 a 335 |
| 9.8 (d ≤ 16 mm) | 900 / 720 | 650 | 290 a 360 |
| 10.9 | 1.040 / 940 | 830 | 320 a 380 |
| 12.9 | 1.220 / 1.100 | 970 | 385 a 435 |
Fonte: valores mínimos da ISO 898-1:2013 conferidos em 30/09/2026 nos resumos técnicos da Nordic Fastening Group e da ZwickRoell. O alongamento mínimo após ruptura, medido em corpo usinado, é de 22 % no 4.6, 20 % no 5.6, 12 % no 8.8, 10 % no 9.8, 9 % no 10.9 e 8 % no 12.9. As classes encruadas (4.8, 5.8 e 6.8) têm, em vez dele, um alongamento do parafuso inteiro, Af, explicado na seção dos ensaios.
O gráfico abaixo compara as três tensões de cada classe. Em todas, a barra da tensão de prova fica abaixo da do escoamento, que fica abaixo da resistência; e o salto entre o grupo sem têmpera obrigatória (4.6 a 6.8) e o grupo temperado e revenido (8.8 a 12.9) é o que separa o parafuso comum do parafuso estrutural.

Força de ruptura e carga de prova em kN
Com As e as tensões da tabela, as duas forças que interessam ao laboratório saem de multiplicações: Fm,mín = As × Rm,mín (a menor força de ruptura aceitável) e Fp = As × Sp (a carga de prova). Com As em mm² e tensão em MPa, o resultado sai em newtons.
Exemplo resolvido: M12 em 8.8 e em 10.9
- 8.8 (d ≤ 16 mm): Fm,mín = 84,3 × 800 = 67.440 N ≈ 67,4 kN; Fp = 84,3 × 580 = 48.894 N ≈ 48,9 kN.
- 10.9: Fm,mín = 84,3 × 1.040 = 87.672 N ≈ 87,7 kN; Fp = 84,3 × 830 = 69.969 N ≈ 70,0 kN.
Trocar 8.8 por 10.9 no mesmo diâmetro aumenta a força mínima de ruptura em 30 % (87,7 / 67,4 = 1,30) e a carga de prova em 43 % (70,0 / 48,9 = 1,43). É por isso que a troca de classe resolve muitos problemas de junta sem mudar a furação. A tabela estende a conta de M8 a M24, na forma "ruptura mínima / carga de prova":
| Rosca (As) | 8.8 (kN) | 10.9 (kN) | 12.9 (kN) |
|---|---|---|---|
| M8 (36,6 mm²) | 29,3 / 21,2 | 38,1 / 30,4 | 44,7 / 35,5 |
| M10 (58,0 mm²) | 46,4 / 33,6 | 60,3 / 48,1 | 70,8 / 56,3 |
| M12 (84,3 mm²) | 67,4 / 48,9 | 87,7 / 70,0 | 102,8 / 81,8 |
| M16 (157 mm²) | 125,6 / 91,1 | 163,3 / 130,3 | 191,5 / 152,3 |
| M20 (245 mm²) | 203,4 / 147,0 | 254,8 / 203,4 | 298,9 / 237,7 |
| M24 (353 mm²) | 293,0 / 211,8 | 367,1 / 293,0 | 430,7 / 342,4 |
Na classe 8.8, os valores de M20 e M24 usam Rm = 830 MPa e Sp = 600 MPa, porque o requisito muda acima de M16. Todos os números foram recalculados aqui; tabelas de carga que circulam na internet têm erros de digitação e de coluna, e a conta As × tensão é a forma de conferir qualquer uma.
Os ensaios da ISO 898-1
A maior parte dos ensaios da norma é uma aplicação do ensaio de tração: força axial crescente numa máquina universal, com registro de força e deslocamento até a ruptura. O que a ISO 898-1 acrescenta é como prender um parafuso de verdade, sobre qual área calcular e o que aceitar. Os critérios de cada ensaio estão a seguir; a explicação geral do ensaio de tração (corpo de prova, curva, fórmulas) está no artigo dedicado.
Peça acabada ou material: os programas de ensaio
A norma organiza os ensaios em dois programas. O programa FF (fixador acabado) verifica o parafuso como ele sai da linha: FF1 para parafusos de carga plena, FF2 para prisioneiros, FF3 para parafusos de carga reduzida por causa da cabeça e FF4 para os de carga reduzida pela haste, como a haste rebaixada. O programa MP (propriedades do material) qualifica o aço e o tratamento térmico: MP1 em corpo de prova usinado do parafuso e MP2 no parafuso inteiro.
Tração em parafuso inteiro
É o ensaio central. Vale para parafusos de 3 mm a 39 mm de diâmetro, com comprimento nominal de pelo menos 2,5d e rosca de pelo menos 2d. O parafuso é montado com a cabeça apoiada na garra superior e a rosca atarraxada numa bucha ou porca de ensaio, deixando no mínimo 1d de rosca livre carregada entre as duas. A velocidade não pode passar de 25 mm/min. Mede-se a força máxima Fm, e Rm = Fm / As.
O local da ruptura faz parte do resultado. Em parafuso com haste lisa mais grossa que o diâmetro de flanco, a fratura tem de ocorrer na rosca livre; em parafuso com haste de diâmetro próximo ao de flanco, na rosca livre ou na haste lisa. Fratura na cabeça ou na transição entre cabeça e haste reprova o parafuso, mesmo que a força tenha passado do mínimo. Na foto, parafusos sextavados de aço e, à frente, as duas metades de um parafuso que rompeu no ensaio de tração em parafuso inteiro: a ruptura na parte roscada, longe da cabeça, é o modo de falha que a ISO 898-1 aceita.

No parafuso inteiro também se mede o escoamento Rpf e o alongamento Af, usados nas classes encruadas. Para Rpf, traça-se na curva força × deslocamento das garras uma reta paralela ao trecho elástico, deslocada de 0,0048d, que corresponde a 0,4 % de um comprimento de referência de 1,2d; a força no cruzamento, dividida por As, é o Rpf. O Af é o alongamento plástico dividido por 1,2d. O esquema abaixo mostra, à esquerda, a montagem com as cotas mínimas e as zonas de fratura aceita e não aceita; à direita, o perfil da rosca M12 com os diâmetros d2 e d3 usados no cálculo de As.

Carga de prova
O parafuso é medido no comprimento total, montado com a mesma rosca livre de 1d, carregado axialmente até a carga de prova Fp a no máximo 3 mm/min e mantido nela por 15 s. Depois de descarregado, é medido de novo. O critério é não haver alongamento permanente além da incerteza de medição admitida, de ±12,5 µm. Por isso a medição do comprimento precisa de instrumento com resolução de micrometros, apoiado nas duas extremidades do parafuso. É o ensaio que prova, peça a peça, que a pré-carga de montagem não vai escoar o parafuso.
Tração com cunha
Uma arruela inclinada sob a cabeça faz a força chegar torta ao parafuso. O ângulo é de 4°, 6° ou 10°, conforme o diâmetro, o comprimento da haste lisa e a classe; as classes mais resistentes usam ângulos menores. A flexão introduzida concentra tensão na transição cabeça-haste, e o ensaio verifica ao mesmo tempo a resistência à tração e a integridade dessa região, onde um raio de concordância mal feito ou uma dobra de forjamento aparecem. O critério de fratura é o mesmo do ensaio axial: nunca na cabeça.
Corpo de prova usinado
Nas classes temperadas e revenidas (e também em 4.6 e 5.6), o material pode ser qualificado num corpo de prova torneado do próprio parafuso, com diâmetro menor que d3. A velocidade é de até 10 mm/min até o escoamento e de até 25 mm/min depois dele. Ali se medem Rp0,2 ou ReL, o alongamento A e a estricção Z, que expressam a ductilidade do aço depois do tratamento térmico. As classes 4.8, 5.8 e 6.8 não passam por esse ensaio, porque a usinagem removeria o encruamento que lhes dá resistência.
Dureza, descarbonetação e retêmpera
A dureza é medida numa seção transversal do parafuso, em Vickers com carga mínima de 98 N (HV10), Brinell ou Rockwell; o método geral está em ensaio de dureza. Dois ensaios derivados investigam o tratamento térmico. Na descarbonetação, compara-se a microdureza (HV0,3) perto da superfície da rosca com a do núcleo: superfície que perdeu carbono amolece e reduz a resistência da rosca; superfície que ganhou carbono fica frágil. Na retêmpera, o parafuso é reaquecido abaixo da temperatura mínima de revenimento, e a dureza não pode cair 20 HV ou mais. Queda maior indica que o revenimento original foi feito frio demais.
Outros ensaios: cabeça, impacto e torção
A norma completa o quadro com ensaios mais específicos:
- Solidez da cabeça: a cabeça é deformada por golpes sobre um bloco inclinado e não pode trincar.
- Impacto Charpy: em corpo usinado, conforme a ISO 148-1, só para diâmetros de 16 mm ou mais e em algumas classes; o ensaio está explicado em ensaio de impacto.
- Torção: não é da parte 1. Parafusos de 1 a 10 mm, sobretudo os curtos demais para a tração, são verificados pelo torque mínimo de ruptura da ISO 898-7:1992, explicada em ensaio de torção.
Cisalhamento: complemento, não requisito
Como visto no escopo, a ISO 898-1 não especifica resistência ao cisalhamento. Em juntas em que o parafuso trabalha cortado, como ligações sobrepostas de estruturas e pinos de articulação, o projeto pede o ensaio de cisalhamento do próprio fixador, em corte simples ou duplo, num dispositivo que apoia o parafuso em duas ou três placas e aplica a força transversal ao eixo. É um ensaio complementar de projeto de junta, com norma própria; o método, as fórmulas e os tipos de dispositivo estão em ensaio de cisalhamento.
Exercício resolvido: avaliar um laudo
Um lote de parafusos M16 × 2 declarados 8.8 é ensaiado em tração no parafuso inteiro. Um deles rompe a 131,5 kN, com fratura na rosca livre. Ele passa?
- As do M16 = 157 mm².
- Rm = 131.500 N / 157 mm² = 837,6 MPa.
- Requisito da 8.8 para d ≤ 16 mm: Rm ≥ 800 MPa, ou Fm ≥ 157 × 800 = 125,6 kN. Atende, com 4,7 % de margem.
- Local da fratura: rosca livre, que é o modo aceito. Atende.
O resultado aprova a resistência à tração, não o lote. Falta a carga de prova (157 × 580 = 91,1 kN por 15 s) e a dureza, entre 250 e 320 HV. Com 340 HV, o lote seria reprovado mesmo com Rm dentro, porque dureza acima do máximo indica revenimento insuficiente e risco de fratura frágil.
Porcas, parafusos inox e a norma americana
A ISO 898-1 cobre só a parte externa da junta. As porcas de aço carbono e aço liga ficam na ISO 898-2:2022, que define as classes de porca (5, 8, 10, 12 e outras) e cargas de prova compatíveis com os parafusos da parte 1, na mesma faixa de 10 °C a 35 °C: porca de classe 8 com parafuso 8.8, e assim por diante. Os parafusos de aço inoxidável seguem a ISO 3506-1:2020, com outra notação: um A2-70 é austenítico com Rm mínimo de 700 MPa. Nos Estados Unidos, o equivalente para os métodos de ensaio é a ASTM F606/F606M-26a: dureza, carga de prova, escoamento, tração axial e com cunha, corpo usinado, porcas e arruelas. Ela não define classes, que ficam nas especificações de produto; por isso o laudo tem de dizer por qual família de norma foi feito.
Erros comuns na aplicação da ISO 898-1
A maior parte dos erros não está no ensaio, e sim na conta ou na leitura da tabela:
- Usar o nominal como mínimo: tabelas que dão 900 e 1.080 MPa de escoamento ao 10.9 e ao 12.9 trazem os nominais; o requisito é 940 e 1.100 MPa.
- Confundir tensão de prova com escoamento, ou trocar classes: os 650 MPa que circulam como prova do 10.9 são do 9.8; o 10.9 tem 830 MPa.
- Dividir a força pela área nominal em vez de As, ou esquecer que a 8.8 muda acima de M16.
- Dar alongamento A às classes encruadas, que têm requisito de Af.
- Ignorar o local da fratura ou montar com rosca livre abaixo de 1d, que faz a bucha limitar o ensaio.
- Copiar tabelas de carga sem refazer a conta: há tabela publicada com o M24 8.8 em 252 kN, quando As × Rm dá 293 kN.
- Aplicar a norma fora do escopo (temperatura elevada, inox, porca) ou citar edição retirada (1999, 2009).
Como ensaiar parafusos na máquina universal Biopdi
Na Biopdi, a tração, a carga de prova e a cunha em parafusos são feitas na máquina universal de coluna dupla da linha M2, com a garra para corpos de prova roscados, parafusos e porcas: a cabeça apoia na garra, sobre arruela plana ou de cunha, e a rosca entra numa bucha roscada. A célula de carga é de classe 1 pela ABNT NBR ISO 7500-1:2023, e o software calcula Rm sobre a As informada. O corte é feito na mesma máquina, com o dispositivo de cisalhamento de parafusos e pinos. O painel abaixo mostra a máquina, o papel de cada parte no ensaio e os dois dispositivos.
A máquina universal no ensaio de parafusos
Parafusos se ensaiam nos modelos de coluna dupla da linha M2, de 5 kN a 1.000 kN. Cada parte da máquina tem uma função no ensaio:

- Travessa móvel traciona o parafuso até 25 mm/min
- Célula de carga mede a força, classe 1
- Garra para roscados prende a cabeça e a rosca
- Arruela de cunha 4°, 6° ou 10° sob a cabeça
- Software BioLab Rm sobre As, patamar de prova e relatório
- Painel e emergência posiciona e para o ensaio
Dispositivos para o ensaio de parafusos
Os dispositivos abaixo são montados na mesma máquina, conforme o ensaio:


A capacidade da máquina sai das forças calculadas antes, com uma ressalva: a norma fixa mínimos, e um lote bom rompe acima deles. O gráfico abaixo mostra a força mínima de ruptura de M8 a M24 nas três classes de alta resistência, com as capacidades de 50, 200, 300 e 600 kN como linhas tracejadas: toda barra que encosta numa linha pede o modelo seguinte.

Exemplo resolvido: escolha da capacidade
Um fabricante precisa romper, na rotina, parafusos M20 classe 10.9 inteiros, inclusive com cunha.
- Força mínima: Fm,mín = 245 × 1.040 = 254.800 N ≈ 255 kN. A máquina de 200 kN está descartada.
- Teto provável: a dureza máxima do 10.9, 380 HV, equivale por conversão aproximada (ISO 18265) a cerca de 1.200 MPa, ou 245 × 1.200 = 294 kN. Numa máquina de 300 kN, 98 % da capacidade, sem folga.
- Resposta: a MBIOII-600-M2 (600 kN), que cobre também o M24 até o 12.9 (431 kN de mínimo). Para M20 8.8 (203 kN de mínimo, cerca de 265 kN no teto de dureza), a MBIOII-300-M2 atende.
Pela mesma lógica, a tabela a seguir indica o modelo por faixa de parafuso. A capacidade da garra para roscados se confere junto com a da máquina, no pedido.
| Parafusos | Força mínima de ruptura | Modelo Biopdi |
|---|---|---|
| até M8, classes 8.8 e 10.9 | até 38 kN | MBIOII-50-M2 (5 a 50 kN) |
| M10 a M14, até 12.9; M16 8.8 | 46 a 141 kN | MBIOII-200-M2 (100 a 200 kN) |
| M16 10.9 e 12.9; M20 8.8 | 163 a 203 kN | MBIOII-300-M2 (300 kN) |
| M20 10.9 e 12.9; M24 | 255 a 431 kN | MBIOII-600-M2 (600 kN) |
Na carga de prova, o software BioLab controla a velocidade até Fp e mantém a força pelos 15 s; o comprimento antes e depois é medido fora da máquina. O funcionamento geral do equipamento está em máquina universal de ensaio, e toda a linha, com os demais dispositivos, na página da máquina universal de ensaios Biopdi. Para configurar a máquina para a sua faixa de parafusos, peça um orçamento.
Normas da ISO 898-1 e relacionadas
Edição e situação de cada norma citada, conferidas em 30/09/2026 nas páginas oficiais da ISO e da ASTM e no histórico do catálogo ABNT:
| Norma | Assunto | Situação |
|---|---|---|
| ISO 898-1:2013 | parafusos e prisioneiros de aço carbono e liga, classes 4.6 a 12.9 | vigente, em revisão (estágio 90.92) |
| ISO 898-1:2013/Cor 1:2013 | correção técnica da versão em francês | vigente |
| ISO/AWI 898-1 | 6ª edição em elaboração | projeto aprovado em 27/11/2025, estágio 20.00; não publicada |
| ISO 898-2:2022 | porcas de aço carbono e liga | vigente |
| ISO 898-7:1992 | torção e torques mínimos, 1 a 10 mm | vigente (confirmada) |
| ISO 3506-1:2020 | parafusos de aço inoxidável | vigente (confirmada) |
| ISO 148-1:2016 | impacto Charpy | vigente; revisão em fase de DIS |
| ISO 18265:2013 | conversão de dureza em resistência | vigente |
| ASTM F606/F606M-26a | métodos de ensaio de fixadores, arruelas e rebites | vigente |
| ABNT NBR 8855:1991 | versão brasileira baseada na ISO 898-1 | cancelada em 10/2017, sem substituta |
| ABNT NBR ISO 7500-1:2023 | verificação da força da máquina (classe da célula) | vigente |
Outros ensaios e referências técnicas
Ensaios realizados na máquina universal Biopdi
Referências técnicas relacionadas
NBR 5739: ensaio de compressão de concreto, cálculo do fc e as normas NBR 7222, NBR 12142 e NBR 6136-2
A ABNT NBR 5739:2018, confirmada em 2023, é a norma do ensaio de compressão de corpos de prova cilíndricos de concreto: carga contínua a 0,45 ± 0,15 MPa/s até a ruptura e fc = 4F/(πD²), em MPa, com três algarismos significativos. Veja o que ela exige da máquina e do corpo de prova, a correção h/d, os tipos de ruptura A a G e as normas irmãs: NBR 7222 (compressão diametral), NBR 12142 (tração na flexão) e NBR 12118, cancelada em 02/2026 e substituída pela NBR 6136-2:2026.
Ensaios mecânicos: o que são, tipos, o que cada um mede e normas
Ensaios mecânicos aplicam um esforço controlado a um corpo de prova e medem a resposta do material. Veja os tipos (destrutivos, não destrutivos, estáticos e dinâmicos), o que cada ensaio mede, as normas e a máquina de cada um.
ASTM D790: ensaio de flexão de plásticos em três pontos (procedimentos A e B, vão e cálculos)
A ASTM D790-25 mede a resistência e o módulo de flexão de plásticos numa barra biapoiada carregada no meio, com vão de 16 vezes a espessura e taxa de deformação de 1 %/min (procedimento A) ou 10 %/min (procedimento B), até a ruptura ou até 5 % de deformação. Veja a velocidade R = ZL²/6d, as fórmulas, a correção de grandes deflexões, a comparação com a ISO 178 e a D6272 e exercícios resolvidos.
Perguntas frequentes
O que a norma ISO 898-1 descreve?
As propriedades mecânicas e físicas de parafusos e prisioneiros de aço carbono e aço liga com rosca métrica, de M1,6 a M39 em rosca grossa e de M8 × 1 a M39 × 3 em rosca fina, ensaiados entre 10 °C e 35 °C. Ela define as classes de 4.6 a 12.9, os métodos de ensaio e a marcação.
Onde encontro o PDF da ISO 898-1 em português?
Não existe versão oficial em português vigente. A ISO vende a norma em inglês e francês, e a ABNT NBR 8855, que era baseada nela, foi cancelada em outubro de 2017 sem substituta. Arquivos em sites de compartilhamento não são cópias autorizadas e costumam ser de edições retiradas.
Qual é a edição atual da ISO 898-1?
A ISO 898-1:2013, com a Cor 1:2013, que só corrige a versão em francês. A revisão foi registrada como ISO/AWI 898-1, com projeto aprovado em novembro de 2025, e em setembro de 2026 ainda estava no estágio preparatório, sem texto publicado.
O que significa a classe 8.8 de um parafuso?
O primeiro 8 × 100 dá 800 MPa de resistência à tração nominal; o segundo 8 indica que o escoamento é 80 % disso, 640 MPa. Acima de M16, os mínimos exigidos sobem para 830 MPa de resistência e 660 MPa de escoamento.
Qual a diferença entre parafuso 8.8, 10.9 e 12.9?
A resistência à tração mínima é de 800 (até M16), 1.040 e 1.220 MPa, e o escoamento mínimo de 640, 940 e 1.100 MPa. Em força, um M12 rompe no mínimo a 67,4 kN no 8.8, 87,7 kN no 10.9 e 102,8 kN no 12.9. A dureza também sobe, de 250 a 320 HV no 8.8 para 385 a 435 HV no 12.9.
O que é carga de prova de um parafuso?
É a força, igual à área resistente vezes a tensão de prova, que o parafuso tem de suportar por 15 s sem ficar alongado permanentemente além de 12,5 µm. Para um M12 8.8, são 84,3 mm² × 580 MPa = 48,9 kN. Ela fica abaixo do escoamento e serve de teto para a pré-carga de montagem.
Como se calcula a área resistente à tração de um parafuso?
As = (π/4) × ((d2 + d3)/2)², com d2 = d − 0,649519·P e d3 = d − 1,226869·P. Para o M12 × 1,75, d2 = 10,863 mm, d3 = 9,853 mm e As = 84,3 mm², contra 113,1 mm² da área nominal.
Para que serve o ensaio de tração com cunha?
Uma arruela inclinada de 4°, 6° ou 10° sob a cabeça torna a carga excêntrica e flexiona a transição entre cabeça e haste. Assim o ensaio verifica ao mesmo tempo a resistência à tração e a integridade dessa região. A fratura não pode ocorrer na cabeça.
A ISO 898-1 vale para parafuso inox e para porca?
Não. Parafuso de aço inoxidável segue a ISO 3506-1:2020, com classes como A2-70 e A4-80, e porca de aço carbono ou liga segue a ISO 898-2:2022.
Qual a norma americana equivalente à ISO 898-1?
Para os métodos de ensaio, a ASTM F606/F606M, na edição F606/F606M-26a, que cobre dureza, carga de prova, escoamento, tração axial e com cunha. Ela não define classes de resistência: os requisitos ficam nas especificações de produto.
A ISO 898-1 traz tabela de torque de aperto?
Não. A norma exclui o desempenho de torque e força de aperto, que tem método de ensaio próprio na ISO 16047. O torque de aperto é calculado a partir da pré-carga desejada, em geral uma fração da carga de prova, e do atrito na rosca e sob a cabeça; as tabelas de torque "ISO 898-1" são cálculos de terceiros.
Que máquina é preciso para ensaiar parafusos pela ISO 898-1?
Uma máquina universal cuja capacidade supere com folga a força de ruptura do maior parafuso, com garra para roscados. Um M12 10.9 pede cerca de 88 kN, e um M20 10.9 pelo menos 255 kN; na linha Biopdi de coluna dupla, isso vai do modelo de 200 kN ao de 600 kN.